Liberdade Liberdade – o Livre Arbítrio e a Divina Presença Feminina de Deus

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Liberdade, Liberdade! Abra as asas sobre nós
E que a voz da igualdade seja sempre a nossa voz
(tema do desfile da escola de samba Imperatriz Leopoldinense – Rio de Janeiro – 1989)

Im bechukotai telechu: se vocês andarem dentro dos Meus estatutos… andarei entre vocês, serei para vocês Deus (Lev.26:3,12)
Veim bechukotai tim’assu: e se vocês desprezarem os Meus estatutos… não os desprezarei e não os rejeitarei… porque Eu sou o Eterno seu Deus (Lev. 26:15,44)

Nos últimos meses, minha família tem se preparado para um momento que parecia tão distante e que, de repente, bateu à nossa porta: as bodas de ouro, a comemoração dos 50 anos do casamento dos meus pais. O nosso Shnat Yovel particular se aproxima rapidamente. Em breve, o casal Henrique e Lea Lam, irmãos, filhos e filhas, netos e netas, sobrinhos e sobrinhas e tantos outros familiares e amigos estarão celebrando um momento de recompensa por todos estes anos vividos juntos, de alegrias e tristezas, mas sempre juntos.
Nem sempre as alegrias vividas foram fruto de boas ações; nem sempre as tristezas sofridas foram fruto de transgressões. Henrique e Lea fizeram muitas escolhas ao longo destes 50 anos, com mais liberdade e com menos liberdade, de acordo com as circunstâncias. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Deus sempre andou entre nós, conforme Ele havia prometido na Torá: “Andarei entre vocês; serei para vocês Deus e vocês serão Meu povo”. (Lev. 26:12)
Na minha família – certamente aquela da qual mais posso falar dentro do Povo de Israel, por ser na qual nasci e cresci – Deus sempre esteve presente, assim como sempre esteve presente a liberdade de agir, acompanhada de recompensas e punições. Assim como na minha família nem sempre as boas ações foram recompensadas para o bem, do mesmo modo as transgressões nem sempre foram punidas. Também acredito que houve momentos em que fizemos o que Deus esperava de nós – e deu tudo errado. Em outros, quando viramos as costas para Ele, deu tudo certo. Em outras palavras, nem sempre a recompensa e a punição são resultado direto das nossas ações.
O fato de os atos de nossas mãos, sejam livres ou não, nem sempre andarem conectados com as consequências vistas como positivas (recompensa) ou negativas (punição) pode apontar, desde uma perspectiva judaica progressista, para duas direções pelo menos:
(1) independente de agirmos conforme Deus espera ou não de nós, Ele continua caminhando conosco;
(2) nos piores momentos, quando às vezes nos sentimos punidos injustamente; e nos melhores momentos, quando às vezes nos sentimos recompensados injustamente, Deus continua caminhando conosco.

O amor divino se compara ao amor materno
Lemos na Torá: “Venatati mishkani betochechem” (Lev. 26:11), comumente traduzido por “E porei o Meu santuário no meio de vós”. Por outro lado, o livro do Zohar interpreta assim: “Mishkani – esta é a Shechiná (a Presença Divina)” (Sefer Hazohar, Sidrat Bechukotai). Mais ainda: “E apesar de Israel agora estar na Galut (Diáspora), a Presença do Sagrado, Bendito Seja, está com eles e jamais os abandona”. A Shechiná, a Presença Divina está sempre entre nós, independente do que acontecer.
No comentário para Bechukotai na obra The Women’s Torah Commentary (editado pela rabina Elyse Goldstein, Jewish Lights, pg. 246-252) a rabina Elizabeth London questiona o fato de as mulheres estarem ausentes desta leitura da Torá. Pois eu penso que o feminino está plenamente presente, o tempo inteiro. Ninguém menos do que a Shechiná, o aspecto feminino de Deus, está caminhando entre nós, independente de exercermos ou não o nosso livre arbítrio, independente da nossa interpretação de estarmos sendo recompensados ou punidos ao longo da vida. Como uma mãe que não abandona seus filhos, independentemente de como eles se conduzem pelo mundo, assim a Shechiná se apresenta como a legítima representante das mulheres em Bechukotai: presente nos bons e nos maus momentos.
E a cada 50 anos, a Torá nos ordena fazer uma pausa para nos libertarmos de tudo o que não nos cabe mais. Parafraseando a letra do samba brasileiro, estejamos certos de que as Asas da Shechiná sempre estarão abertas para que exerçamos a nossa liberdade – e que “a voz da igualdade seja sempre a nossa voz”.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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