Drashá sobre Parashat BaMidbar

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes, amanhã
(Milton Nascimento)

Há fases na vida de uma pessoa, de uma comunidade ou de um povo na qual não se está nem aqui nem acolá. Quando deixamos uma casa, uma terra, uma comunidade, e seguimos em direção a outra, tudo é difícil. Estávamos acostumados com as pessoas, com os móveis da casa, com as ruas e avenidas, e principalmente sabíamos como lidar com as dificuldades, pois conhecíamos o terreno em que pisávamos. Assim era com os milhares de judeus da Europa e das nações árabes até meados do século 20, assim era com os judeus de Portugal e Espanha até o fim do século 15 – e assim também era com os israelitas no Egito. Quando partiram, nossos antepassados tiveram que demonstrar muita fé e disposição para deixar suas terras para trás e enfrentar o novo, no deserto.

Para se realizar a travessia, no entanto, é preciso muito mais do que fé e disposição. É preciso administração e liderança. É disso que fala a Torá nesta semana. Lemos no Midrash Raba de Bamidbar (parashá alef, parágrafo beit) que quando o povo caminhava pelo deserto, muitos se queixavam das dificuldades e recordavam, nostálgicos, da “boa vida” que levavam no Egito. Lá havia casa e boa comida, tudo o que não tinham agora no deserto. Deus então respondeu: “Será que Eu não dei para vocês três pedagogos (assim mesmo, pedagogos): Moisés, Aarão e Miriam? Graças a Moisés, durante a travessia pelo deserto vocês receberam o Maná, o alimento de que necessitavam; graças a Aarão vocês foram envolvidos em nuvens de glória; e graças a Miriam vocês tinham água”.
O mesmo midrash nos conta que, segundo Rabi Hoshaia, sete nuvens de glória guiavam o povo de Israel pelo deserto: quatro correspondiam aos ventos celestes, um vinha logo acima e outro logo abaixo; e por fim, um vento estava três dias à frente deles. Seu papel era limpar o caminho das cobras e escorpiões, apagar incêndios, abrir caminho entre as rochas, tornar a descida aos vales menos íngreme e aplainar as subidas pelas montanhas. Segundo o midrash, estes “ventos” eram Moisés, Aarão e Miriam, que iam à frente do povo para lhes facilitar o trajeto pelo deserto.

Toda a leitura da Torá desta semana trata, basicamente, da organização do povo. Para cada uma das doze tribos havia chefes. Para a manutenção e guarda do Mishkán, a Morada Divina, foram destacados os levitas. Assim como num exército, todo o povo se organizava em acampamentos, cada um com uma função determinada. Cada um dos chefes era responsável por manter a ordem no dia a dia.
A administração da comunidade é essencial. Mas também é essencial o papel das lideranças. Assim como num jogo de xadrez não basta saber as regras, mas prever os passos futuros com boa dose de antecedência, do mesmo modo um povo, uma comunidade precisa de bons administradores, mas também de líderes que enxerguem além, que prevejam os desafios com antecedência e preparem o terreno para os demais.

Muitas vezes tendemos a valorizar mais o papel dos líderes do que os dos administradores. Em muitas comunidades é mais fácil encontrar quem queira ser líder do que quem queira ser tesoureiro, coordenador pedagógico ou cuidar da manutenção da infraestrutura. Mas assumir um papel de chefia é também uma enorme responsabilidade, digna de todo mérito. Aos levitas foi concedido um grande poder: ao assumirem a administração do Mishkán, coube a eles administrar a gestão econômica, social e jurídica do povo de Israel em sua caminhada pelo deserto, visando o bem estar de todos. O papel dos chefes muitas vezes não aparece tanto quanto o dos líderes, mas é fundamental.

Por outro lado, o pensador Yeshaiahu Leibowitz cita o Baal Haturim (o rabino Yaakov ben Asher) para advertir que, ao se destacar alguém para um cargo de chefia, deve-se estar atento para que este, em vez de servir sua comunidade, não se aproveite do cargo em benefício próprio ou para alimentar o próprio ego. No Tratado Avot, conhecido como a Ética dos Pais, os rabinos da Mishná são ainda mais enfáticos: “Cuidado com os que estão no poder, pois estes fingem ser amigos de alguém somente para seu próprio benefício; eles agem amigavelmente quando isso lhes convém, mas não apoiam a pessoa numa hora de necessidade” (Avot 2:3).

Nos dias atuais, quando vivemos de acordo com princípios democráticos, somos nós que elegemos nossos chefes e líderes, no âmbito nacional, na nossa cidade e também na nossa comunidade. Todos nós somos responsáveis uns pelos outros. Mesmo quando não estamos no papel de chefes e líderes, temos a obrigação de estar atentos e cobrar de nossos líderes e chefes honestidade no trato do bem comum e disposição para servir a comunidade.

No limite ideal, o que Deus espera de nós é que sejamos uma nação de sacerdotes. No entanto, uma nação de sacerdotes não pode nem deve ser uma nação de pessoas que buscam somente prestígio. Uma nação de sacerdotes deve ser formada por pessoas que dediquem uma parte do seu tempo em favor do bem comum. Só assim, juntos, poderemos vencer as cobras e escorpiões que aparecerem no caminho e tornar mais leves as subidas e descidas que nos esperam. Só assim chegaremos juntos à nossa Terra Prometida.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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