Excessos que levam à maldição, bênçãos que levam à paz

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
(Vinícius de Moraes, Soneto de Fidelidade)

O deserto, ah o deserto. Terra de todos e de ninguém. Terreno de areias que mudam de lugar ao menor sopro do vento, volúveis, que desenham morros e vales, trilhas fugazes. Que refletem os raios do sol e cegam por um instante para depois se deixarem admirar como estrelas de grãos de areia. Onde nossos pés afundam e caminham com dificuldade.
O deserto é a metáfora do tempo-espaço em que regras e crenças anteriores não valem mais e a nova forma de sociedade ainda está em formação. Não sabemos ainda direito onde estamos pisando. Tudo o que está ao nosso redor é aparente e não se sustenta até o dia seguinte.
Cada pessoa reage de modo diferente quando se encontra neste terreno arenoso para o corpo e para a alma. Muitos perdem as referências de um mínimo de civilidade. Vimos isso recentemente em algumas capitais do país, mais precisamente Salvador e Recife: durante a greve dos policiais as cidades se tornaram desertos. Uma parte da população aproveitou para invadir lojas, roubar tudo o que podia, fazendo o que costuma condenar da boca prá fora e que não faria se houvesse polícia nas ruas. A outra parte ficou horrorizada.

A cautela…
O povo de Israel costumava reclamar muito do deserto – até o Egito e seu sistema escravagista, porém com regras, era melhor do que a inconstância em que viviam. Era preciso estabelecer leis para a vida comunitária. Uma vez estabelecido o censo entre as tribos de Israel, essencial para se saber com quem contávamos para nos protegermos dos inimigos externos, era chegado o momento de lidar com as ameaças e sombras internas.
Deus ordena a Moisés que envie para fora do acampamento homens e mulheres enfermos ou que foram expostos a risco de contaminação – “todo leproso e todo com fluxo ou impuro por [contato com] alma (cadáver)” (Núm. 5:2) – para não contaminarem os demais. A cautela com a impureza não se dá somente por sintomas físicos, mas também por conduta inadequada: “Um homem ou uma mulher que fizerem alguma das transgressões humanas ao falsear em nome do Eterno, esta alma será considerada culpada” (Núm.5:6). A fim de expiar por sua culpa, o transgressor(a) deveria confessar os pecados cometidos e em seguida pagar uma restituição àquele a quem prejudicou, acrescida de uma multa de 20%.

… e o perigo do excesso de cautela
Quando passamos por situações-limite de falta de controle, ao recuperá-lo é comum e esperado que nos tornemos mais cautelosos pelo menos até que as feridas do período que nos atemorizou sejam curadas. Mas algumas pessoas, na tentativa de evitar passar novamente por algum sofrimento, tornam-se cautelosas demais e acabam evitando não só possíveis maus momentos, como também perdem a chance de viver experiências gratificantes para suas vidas. O excesso de cautela pode ser tão danoso quanto a falta dela.
Imaginemos se as lideranças da época da peregrinação pelo deserto decidissem que era preciso aumentar ainda mais o nível de cautela, afastando cada vez mais gente do acampamento por suspeitas de doenças contagiosas não comprovadas ou condenando pessoas por crimes sem testemunhas. Isso me lembra “O Alienista” de Machado de Assis, cujo protagonista, um psiquiatra, aos poucos classifica os habitantes da cidade como mentalmente enfermos e os afasta do convívio social – a ponto de sobrar somente ele na cidade… Para saber o resto da história, vale uma visita a este pequeno clássico da literatura brasileira.

Excesso de ciúmes
Até aqui lidamos com situações de pessoas com relação às quais há dados concretos ou suspeitas suficientemente fortes para que sejam afastadas da comunidade ou punidas com uma multa. Agora a Torá toca em um assunto delicado: como lidar com o caso de um homem que tem uma crise de ciúmes e, sem nenhuma prova concreta, considera que sua mulher o está traindo? Segue o texto, com algumas marcações:
“Todo marido cuja esposa se desviar dele e for infiel; e um homem tiver se deitado com ela: shichvát zêra (com emissão de sêmen) e (1) isso ficou oculto aos olhos de seu marido; (2) ela ficou escondida; (3) ficou impura; (4) não houve testemunhas; (5) e ela não foi flagrada – e passar por ele o espírito de ciúmes, enciumar-se de sua esposa e ela estiver impura; ou passar por ele o espírito de ciúmes, enciumar-se de sua esposa e ela não estiver impura…” (Núm.5:12-14)
A própria Torá parece incrédula: como dizer que esta mulher foi infiel se ninguém sabe, ninguém viu? Se ela não apresenta nenhum sinal de ter traído? O texto parece misturar duas versões da mesma história:
1) A versão do homem tomado por ciúmes, convicto de que foi traído, que acusa sua esposa a priori, sem provas.
2) A versão sem origem definida, segundo a qual não há nenhuma evidência de traição.

Ao contrário dos casos anteriores, de pessoas enfermas ou com suspeita de contaminação por contato com cadáveres; ou de pessoas que prejudicaram outras através de mentiras, aqui se trata da acusação de um homem contra uma mulher sem nenhuma comprovação factível, tampouco racional. Ao contrário: a mulher em questão será julgada por causa de uma acusação baseada em ciúmes! Pouco importa se ela está “pura” ou “impura”. Em outras palavras, parece irrelevante se há ou não sinais aparentes de traição. Bastam os ciúmes para ela ser levada ao sacerdote e ter que comprovar, de forma humilhante, a sua inocência.
Cabe lembrar que a Torá não cita um caso específico, mas uma situação possível: e se isso acontecer, como devemos agir? Interessante também notar que o marido deve levar ao sacerdote uma “oferta de ciúmes” e não uma “oferta de traição”. A Torá parece enfatizar que o pecado cometido não é da mulher, considerada a priori infiel. O pecado é do homem: são os seus ciúmes que devem ser expiados, não a suposta traição de sua esposa. E apesar disso, quem, neste caso, deve passar por um ritual degradante para comprovar a sua fidelidade? A mulher.

A Lei da Infidelidade da mulher ou a Lei dos Ciúmes do homem?
Eis o ritual, em poucas palavras: a mulher deve ter a sua cabeça descoberta, recebe nas mãos um vaso de barro com “águas amargas” preparadas pelo sacerdote, misturadas com a sujeira do chão do Tabernáculo; ela então é obrigada a jurar que, se for inocente, as águas não lhe farão mal, mas se for culpada de traição, “O Eterno [YHVH] lhe porá por maldição… fará sua coxa cair e seu ventre inchar” (Núm. 5:21), ou seja, ela se tornará infértil – e segundo o comentarista Rashi, estará impedida de manter relações com seu marido ou com o suposto amante. Ao escutar a maldição ela deve dizer “amen e amen”. Por fim, o sacerdote deve escrever estas maldições num pergaminho – com o Tetragrama (YHVH) incluído – dissolvê-lo nas águas amargas e dar de beber à mulher: “Se for impura e tiver cometido traição… seu ventre inchará e sua coxa cairá; se for pura, estará livre do efeito destas águas e terá bons partos. Esta é Lei dos Ciúmes” (Núm.5:28-29)

Muitas vezes a Torá quer nos mostrar como não devemos agir. Neste caso, não é a traição infundada da esposa que traz mal ao mundo, mas sim os ciúmes injustificados do marido. Para os dias atuais, podemos dizer que quando uma pessoa, homem ou mulher, é tomada de ciúmes doentios a ponto de difamar e prejudicar o seu/sua parceiro(a) e humilhá-la(o), ele(a) apaga o Nome de Deus em águas sujas, fazendo com que a Presença Divina se desfaça na lama que nossos pés pisam no chão.

Birkat Hakohanim, a Tríplice Bênção Sacerdotal
Diante de tanto horror, é digno de admiração que esta mesma porção semanal da Torá nos presenteie com uma das mais belas bênçãos legadas ao Povo de Israel e a toda a humanidade. Em contrapartida à cautela excessiva, ao excesso de ciúmes e a outros excessos, Deus ordena aos sacerdotes que abençoem o povo com uma tríplice benção, dirigida a cada indivíduo:
Que lhe abençoe o Eterno e lhe proteja.
Que resplandeça o Eterno o Seu rosto sobre você e o agracie.
Que leve o Eterno o Seu rosto sobre você e coloque sobre você a paz. (Núm.6:24-26)
Diante das ameaças do deserto, os excessos cometidos pelos que se desesperam com a falta de referências fazem com que o Nome de Deus seja apagado. Por outro lado, quando aceitamos a Benção e a Proteção Divinas, incorporamos a Sua Luz e recebemos a Sua paz, o Nome de Deus é restaurado ao Seu lugar de direito: “E porão o Meu Nome sobre os Filhos de Israel – e Eu os abençoarei” (Núm.6:27)

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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