El Na Refa Na La – e vamos em frente!

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Cinco palavras. De uma hora para outra, Moisés, o único homem que se deparou com Deus face a face, se vê mais humilde do que nunca, pedindo pela cura da enfermidade de sua irmã Miriam. O tempo parou. Nada faz sentido se Miriam não se recuperar de sua doença. Independente do que ela fez, El Na, por favor Deus, cure-a, por favor! Em cinco palavras, Moisés pede duas vezes: por favor, por favor.
A caminhada através do deserto começou novamente. Desta vez, o que poderia ser feito em poucos meses se mostra mais difícil do que o esperado. Em teoria, a distância entre a vida passada e a vida futura deveria ser curtas. A Terra Prometida deve ser uma terra de leite e mel – embora, como hoje sabemos, era principalmente uma terra árida e seca.

Não demoraria muito para que Am Israel desejasse, nostalgicamente, os “bons velhos tempos” no Egito de volta. Afinal, o que os nossos antepassados construíram com tantas lágrimas estava sendo deixado para trás. José e seus irmãos se reconciliaram e viveram juntos em Goshen, então a área mais fértil do Egito. Eles viveram muito bem por mais de duzentos anos.

Mas como sempre acontece, o tempo corrói tudo. O que antes era uma vida abundante tornou-se a casa da escravidão. Se um dia os israelitas tinham muitos filhos no Egito, nos tempos seguintes estes mesmos filhos foram arrancados de suas mães e lançados na água. O que antes era bom não existe mais. Precisávamos sair imediatamente. Era urgente. Então deixamos o Egito.
Os mais otimistas diziam que seria uma caminhada curta: com algum esforço, poderíamos chegar à nova terra em segurança. Mas não demorou muito para se perceber que o projeto poderia afundar. Em seguida, começaram a soar vozes: “Era melhor no Egito! Lá havia comida em abundância! Onde você está nos levando, Moisés?”

Moisés, Aarão e Miriam enfrentaram muitos desafios, mas seguiram em frente. Eles receberam a Torá no Sinai com grande alarde. Am Israel parecia convencido do Poder Divino e da liderança concedida a Moisés. Nós seguimos em frente outra vez.

Sob a orientação Divina construímos uma bela Menorá de ouro para iluminar o caminho em direção à Terra Prometida. Com o tempo as experiências adversas do passado tornaram-se festas religiosas. O que antes era o medo da morte se tornou o Festival de Pessach. O que foi entregue a Am Israel também valia para aqueles que se juntaram a nós a partir de agora: “Uma mesma lei será para vocês, para o estrangeiro e para o cidadão da terra” (Núm. 9:14), sem distinção de origem ou gênero.
Mas as pessoas começaram a reclamar de novo. Todos os dias a mesma comida! Todos os dias este Maná! Moisés então reclamou com Deus: “Por acaso fui eu quem gerou este povo para Você me dizer que tenho que levá-lo em meus ombros? Eu não posso carregar todo este povo, é muito pesado para mim”.

Embora Moisés tenha sido o maior dos profetas, ele era apenas um ser humano. Sentia-se sozinho e reconheceu humildemente ser incapaz de levar esse projeto adiante. Qual foi a resposta de Deus? “Moisés, você deve reunir setenta homens entre os anciãos do povo e, juntos, vocês carregarão o povo – para que você, Moisés, não fique sobrecarregado”.

Moisés tinha diante de si uma enorme missão. Mas sozinho? Inviável! O próprio Deus reconheceu isso e disse-lhe para distribuir as responsabilidades. Assim também acontece conosco em nossos tempos. Muitas de nossas congregações, que um dia funcionavam bem e estavam bem localizadas, agora não são mais nossas casas e tornaram-se um fardo. Desnecessário dizer que muitos homens e mulheres judeus vivenciaram anos significativos em suas belas congregações. No entanto, sempre chega a hora de seguir em frente.

O caminho para deixar nossas antigas casas para trás é difícil. Na maioria das vezes, as dificuldades que encontramos faz com que muitos de nós nos queixemos do quão boa era a antiga casa – apesar de todos os problemas que enfrentamos nela. Assim como os nossos antepassados ​​fizeram, precisamos seguir em frente. Mas não podemos deixar todo o peso sobre os ombros de algumas poucas pessoas. Precisamos distribuir o peso. Foi assim durante o tempo da peregrinação pelo deserto, durante os tempos dos dois templos em Jerusalém, na Europa e na América. E é assim agora.
Moisés foi capaz de encontrar pelo menos setenta homens que levaram o Projeto Terra Prometida adiante. O fim da história eles não conheciam, mas nós sabemos que eles conseguiram; porém não sem sacrifícios materiais e até mesmo pessoais: o próprio Moisés não entrou em Israel. Hoje em dia nós também esperamos dos membros de nossas congregações que mantenham viva a chama do judaísmo, seja nas sinagogas, escolas e centros culturais.

A Torá também leva em conta a vida pública e particular. Diante de tamanha dedicação, Moisés foi criticado tanto em público quanto na vida privada. Miriam e Aarão o questionaram porque ele se casou com uma mulher etíope. Deus não os perdoou: imediatamente Miriam ficou branca como a neve, como se estivesse morta. O Midrash Sifre Bamidbar (99) nos conta que a mulher etíope era de uma beleza excepcional. E mesmo que ela não fosse tão bonita, a vida particular de Moisés não dizia respeito a ninguém além dele e de sua esposa.

Miriam estava errada. Mas todos nós estamos sujeitos a cometer erros. Am Israel entendeu e parou no meio da estrada, porque se recusaram a deixar Miriam para trás. Dada a comoção geral, Moisés proferiu um prece dolorosa. Nada faz sentido se Miriam não for curada, não importa se ela estava certa ou errada. El Na, Deus, por favor, cure-a, por favor! Miriam foi curada. O povo se reuniu para recebê-la como uma grande família.

Cada um de nós é responsável pelo outro e devemos agir de acordo com essa responsabilidade. Vamos ser otimistas, arregaçar as mangas – e seguir em frente. Como sempre fizemos.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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