Drashá sobre Parashat Korach

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

 

 

 

 

Quinze minutos de fama
Mais um pros comerciais
Quinze minutos de fama
Depois descanse em paz
(Titãs)

Muito já foi dito sobre o sucesso rápido e fácil. Há alguns anos, a banda de rock nacional Titãs lançava um álbum cujo nome era “A Melhor Banda De Todos Os Tempos Da Última Semana”. Uma frase de efeito, uma atitude excêntrica e inesperada atrai muitos olhares e, com frequência,arregimenta muitos apoiadores. Gente que até ontem não sabia quem você era agora morre de amores por você e lhe considera o grande líder: carismático, corajoso, alguém que beira o ideal de sábio, de justo, de santo.
Em contrapartida ao santo midiático, ao justo agora e ao sábio guru – temos Deus. Nos últimos anos, fomosacostumados, no meio judaico, a chamar Deus pelo termo “O Eterno” toda vez que aparecem, em hebraico, as quatro letras Yud He Vav He que representam, juntas, O Nome de Deus. A tradução por Eterno provavelmente vem da mesma inspiração que originou o poema religioso Adon Olam(Senhor do Universo). Quando cantamos “Vehu Haiá, Vehu Hovê, Vehu Ihiê betifará – E Ele foi e Ele é e Ele será por todo o sempre”, é como se reconhecêssemos no Nome Divino que Ele vive eternamente – O Eterno.
Segundo um rabino que admiro muito, Reb Zalman Schachter, que completa 90 anos de vida, nós cometemos um erro ao considerarmos Deus apenas como um Ser. Para Reb Zalman, Deus não é um ser que se desloca no tempo, pois Ele já existia antes mesmo de o tempo ter sido criado. Se reorganizarmos as letras que formam o chamado Nome Inefável de Deus, poderemos entendê-lo como Havaiá, Existência. Deus não é um ser; Deus é a própria existência em todas as suas infinitas dimensões. Deus é a vida em movimento.
Quando tentamos “congelar” Deus num espaço, tornando-o imagem; ou quando tentamos captá-lo num instante de tempo para tentar entendê-Lo como Ser, acabamos por transformá-lo em um objeto e deixamos de nos relacionar com Ele. Se, por outro lado, compreendemos Deus como um processo existencial que extrapola o binômio tempo-espaço, toda a nossa perspectiva pode mudar. Se Deus, que criou o Shabat, é ao mesmo tempo verbo e substantivo, passa a fazer sentido, como dizia outro grande sábio contemporâneo, Abraham Joshua Heschel, que o Shabat seja um Templo no Tempo no qual os momentos sagrados acabam tornando sagrado o local onde estamos. No momento em que tempo e espaço se fundem no sagrado, experimentamos o ponto de êxtase quando compartilhamos, nem que seja por um instante, da Existência Divina.
Você é capaz de imaginar como pode ser significativo substituir, em nossas orações, o termo “O Eterno” por “A Existência”? Vamos a um exemplo prático?

Bendito Seja, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, por extraíres o pão da terra.
Bendita Seja, Existência, nosso Deus, Rainha do Universo, por extraíres o pão da terra.

Sem entrar na discussão de gênero, pouco importa se Deus/a Existência é masculino ou feminino; em português pode estar no feminino, em outro idioma no masculino. Mas no original hebraico, o conceito de Existência Plena também extrapola a separação masculino/feminino.
E se o que se espera do ser humano é se assemelhar a Deus, como Sua imagem – longe de Ser Deus, mas sim existir à Sua imagem e semelhança sem confundir-se com Ele – Moisés sem dúvida alguma foi o seu maior profeta. Certa vez, quando foi chamado por Deus para liderar o povo de Israel, Moisés reagiu negativamente porque considerava que não tinha as qualidades necessárias para liderar a sua gente, retirando-os de um passado escravo para levá-los a umfuturo de liberdade. Ao longo dos anos, porém, Moisés passou por um longo processo de amadurecimento que otransformou no líder que todos nós conhecemos.

Moisés não se tornou líder de uma hora para outra. Tornar-se líder é um processo que exige trabalho duro, dedicação, paciência, teimosia, otimismo, boa lábia, resiliência, resistência física e emocional, e por aí vai. Nada disso se adquire de uma hora para outra. Tudo isso só se adquireexistencialmente, no processo de liderar, quando o sujeito vai além de si mesmo de forma consistente – renovando-se constantemente e influenciando de modo positivo as pessoas e o meio ao seu redor.
Quando Kórach apareceu e desafiou Moisés, ele surgiu como um salvador da pátria, populista e midiático: “Somos todos santos!”, dizia ele. Rapidamente conquistou a simpatia de 250 lideranças que até ontem não haviam se manifestado. Provavelmente obteve a simpatia do povão, que sempre gostou, em todos os tempos, de slogans fortes do tipo “somos todos santos”. Kórach parecia vir com tudo pronto. O que ele não havia entendido era que a liderança não é algo dado instantaneamente. A liderança se constrói num processo de muita dedicação, ao longo do tempo e num espaço determinado.

Numa bela cena, Moisés e Aarão deram um dia para Kórache seus seguidores refletirem e, quem sabe, voltarem atrás. Eles não o fizeram. Então foi proposto um desafio: seriam dadas varas aos líderes de um lado e a Aarão por outro. A que florescesse, este seria o vencedor. Ora, todos nós sabemos que uma flor não nasce de uma hora para outra. Goethe, um dos maiores artistas, escritores e filósofos dos tempos modernos, desenvolveu todo um método orgânico de observar o processo de desenvolvimento das plantas em si mesmas. A cena do florescimento me parece outra lição que Moisés e Aarão davam em Kórach e seus seguidores. Assim como as plantas, a liderança precisa passar por um processoorgânico no tempo e no espaço para florescer e se desenvolver.
O sucesso, portanto, não é instantâneo. O sucesso de um empreendimento vem de uma sequência de eventos, de umacontinuidade de atitudes. Kórach dizia “somos todos santos”. Deus dizia “vocês serão santos”. Kadosh Kadosh Kadosh: Santos (no passado), Santos (no presente), Santos (no futuro) – assim diz o Eterno; ou melhor, a Existência.
Este deveria ser, a meu ver, o parâmetro para a construção de uma vida mais plena, na qual os aspectos espiritual e material, de tempo e espaço se integram em algo que conhecemos como Vida. Nós vivemos no tempo e no espaço. Como judeus, preferimos estar em busca do Messiase permanecermos existentes e atuantes para a construção de um mundo melhor do que vivermos num tempo em que o Messias já existiu. Alguns dizem “Nós queremos o Mashiach agora!”. Eu quero a Existência sempre. Eu acredito na revelação constante da sabedoria da Torá mais do que em um texto pronto e entregue de uma só vez.Acredito que a Torá não está no céu nem cai do céu, masestá muito perto de cada um, em todos os tempos e espaços – e exige de cada um de nós a dedicação concreta para que aconteça e se realize na prática.
Em nossas rezas, particularmente na Kedushá da Amidá, dizemos, como que insistindo: Kadosh Kadosh Kadosh. Afirmamos três vezes a santidade da Existência – não que esta tenha 3 dimensões, mas a tríplice repetição como forma clássica de se confirmar a afirmação. E sobre nós, o que Deus diz? Kedoshim tihiu. Sejam Santos.
Vamos seguir em nossos caminhos e processos, como indivíduos e comunidade, para nos tornarmos pessoas melhores. Vamos nos esforçar, com o pouco tempo que temos, para terminarmos, especificamente em Salvador, o edifício da nossa nova sede, que dará espaço e tempo paranós, nossos filhos e amigos, parentes e visitantes. Porque um prédio não é, não surge do nada. Um prédio se constrói no tempo e no espaço. Não cai do céu nem vem de Deus, mas vem dos nossos esforços, dos nossos bolsos, da nossa energia.
Se fôssemos Kórach, diríamos: “Estamos prontos! Quem são vocês para estarem na liderança? Nós podemos fazer melhor do que vocês”. Se nos inspirarmos em Moisés, escutaremos, cada um de nós: “Estaremos prontos, mas cada um de nósprecisa fazer a sua parte.”
A minha meta pessoal é que possamos entrar de vez na nova sede da Sociedade Israelita da Bahia em julho e inaugurá-la no máximo até os Dias Intensos, entrando no ano de 5775 na nova casa. Nós podemos fazer isso. O resto continuaremos a construir no espaço, com tempo e com a nossa presença. Assim é a vida, assim é Deus – assim existimos.

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