Drashá sobre Parashat Chukat

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

A Confiança na Existência
O que as cinzas de uma vaca vermelha, as águas de uma rocha e uma serpente de bronze têm em comum?
Miriam, Aarão e Moisés. Eis os irmãos que criaram as condições para que o povo de Israel realizasse a travessia do Egito a Israel, da escravidão para a liberdade. Miriam, a profetisa das águas, salvou a vida do pequeno Moisés ao acompanhá-lo pelas águas do Nilo até que este chegasse, são e salvo, às mãos da filha do Faraó. Aarão, que viria a se tornar o primeiro sacerdote do Povo de Israel, foi o interlocutor de Moisés junto ao povo escravo e na tensa negociação com o Faraó para libertar a nossa gente da servidão. Moisés, o maior dos profetas do Povo de Israel, foi lançado e resgatado das águas; teve que conviver duramente com a própria falta de paciência e a língua pesada; e apesar das dificuldades, soube pedir perdão a Deus pelas falhas de seus liderados e calar-se diante das próprias fraquezas.
Quase quarenta anos se passaram desde que o Povo, liderado pelos três irmãos, deixou o Egito. Pouco mais de 37 ou 38 anos haviam decorrido desde que Kórach e 250 outras lideranças desafiaram Moisés e Aarão – e acabaram soterrados vivos. O que aconteceu entre um momento e outro? Não sabemos. Mas de uma coisa sabemos sim: mesmo depois de passado tanto tempo, o povo de Israel continuava o mesmo povo reclamão. As queixas basicamente seguiam sendo as mesmas: falta de água, comida insossa, medo da morte por fome ou pela guerra.
Uma geração havia se passado – e é de se imaginar que também as lideranças estivessem no momento de abrir espaço para o novo. No entanto, o novo, para muitos, sempre é tão estimulante quanto aterrorizador. Quando tinha que lidar com as grandes lideranças já conhecidas, bem ou mal o resultado era conhecido. Mas como iria ser a vida diante de novos líderes, em novas condições? Como lidar com o novo?

A vaca vermelha
Ao longo de quase quatro décadas, conviver com a morte fazia parte do dia a dia. Está claro que a morte trazia consigo o risco de contaminação de um modo pouco compreensível à consciência da época, o que pode ter gerado a necessidade da criação de rituais de purificação que acompanhassem as possíveis profilaxias – o conjunto de medidas cuja finalidade é prevenir ou atenuar as doenças, suas complicações e consequências. Talvez um modo de lidar com o incompreensível fosse criar um ritual tão incompreensível quanto.
No caso, Deus instrui Moisés e Aarão a orientarem o povo para entregar uma vaca vermelha ao sacerdote Elazar – filho de Aarão – diante de quem o animal seria sacrificado e queimado. Junto com galhos de cedro, hissopo e lã carmesim queimados e misturados em água, a poção seria aspergida duas vezes por uma pessoa ritualmente pura sobre aquele que estivesse impuro por ter tocado em um cadáver: no terceiro e no sétimo dia. No sétimo e último dia, após o ritual de cura, a pessoa deveria ainda lavar suas roupas, banhar-se na água e só então, no final do dia, seria considerada novamente pura.
De todos os ingredientes, parece-me que o poder curativo da água e do hissopo eram os elementos principais para evitar doenças decorrentes do contato com os mortos. O hissopo é uma planta medicinal considerada anti-inflamatória, antisséptica, cicatrizante e sedativa, entre outras qualidades medicinais. Já as cinzas da vaca vermelha… bem, é provável que o maior efeito curativo desta venha de um elemento poderoso: a capacidade humana de acreditar. Podemos até usar plantas medicinais, remédios de última geração ou uma alimentação saudável. Mas se não houver elementos que nos façam acreditar que tudo isso pode ter algum efeito, é possível que os resultados não alcancem o efeito desejado.
Em comentários passados, sugeri que as quatro letras que compõem o Nome de Deus – que nas traduções bíblicas mais recentes de orientação judaica é traduzido como O Eterno – podem ser reorientadas para revelar o termo Havaiá: Existência. Confiar na Existência que envolve nossas relações com o desconhecido é um passo importante para qualquer processo de cura.

Falar com as paredes? A rocha que jorra água
Miriam é a primeira dos irmãos a morrer, quando o povo passava pela região de Kadesh, onde ela foi enterrada. Assim que Miriam partiu deste mundo, o povo passou a reclamar com Moisés e Aarão da falta de água e dos mais variados frutos. Os irmãos se prostraram e Deus orientou Moisés a falar com uma rocha para que esta desse suas águas.
Opa! Falar com uma rocha? Isso soa tão implausível quanto acreditar que as cinzas de uma vaca vermelha têm poder curativo. Nesse momento Moisés perde a paciência com o povo, chama-os de rebeldes e, em vez de falar com a rocha, golpeia-a duas vezes. As águas correm em profusão e saciam pessoas e animais; porém Deus entendeu que faltou confiança a Moisés e Aarão, pois estes não controlaram a ira e acabaram agindo de modo agressivo. As águas que saciaram o corpo não curaram a alma: Deus as nomeia de “águas da disputa”, porque os israelitas brigaram com Deus por conta delas.
E se a esta altura, prestes a entrarem em Israel, Moisés e Aarão eram incapazes de se conter diante das mesmas reclamações de sempre por parte do povo, Deus entende que eles seriam também incapazes de seguir na liderança quando se estabelecessem em seu próprio pedaço de terra.
Nem Moisés nem Aarão reclamaram do destino – simplesmente seguiram em frente. Aarão foi o segundo a morrer: ele subiu em um monte ao lado do filho Elazar e de Moisés, entregou suas roupas ao filho (passou o bastão) e foi “recolhido ao seu povo”, na bela expressão da Torá que assim une Aarão aos grandes antepassados do povo judeu.

Serpentes que matam e serpentes que curam
Mais adiante, após passarem ao largo da terra de Edom, os israelitas voltaram a se impacientar, e com isso passaram mais uma vez a falar mal de Moisés e de Deus. Desta vez, em vez de oferecer comida ou água, é a vez de Deus perder a paciência, por assim dizer: Ele envia serpentes cujas picadas deviam queimar feito brasa. As pessoas começaram a morrer aos montes. Assim como um dia Moisés pediu a Deus para que curasse Miriam, agora ele pede que o povo seja curado. Mais uma vez, Deus oferece a cura através da crença no imponderável. Ele ordena que Moisés faça uma serpente de bronze e a pendure no alto de um poste. Quem quisesse ser curado das picadas de cobra deveria olhar para a serpente – então seria curado.
A serpente no poste lembra o símbolo da medicina conhecido como Bastão de Asclépios (do grego Asklépios). Segundo a mitologia grega, Asclépios era filho de Zeus com uma mortal. Durante a gravidez ela foi assassinada. Zeus arrancou-lhe o filho do ventre e o entregou ao centauro Quiron para que ensinasse ao filho Asclépius a arte de curar. O menino tornou-se tão hábil que, diz a mitologia, podia curar inclusive os mortos.
Em todos os casos – o da vaca vermelha, da rocha que jorra água quando se fala com ela ou da serpente que cura quando vista – está uma qualidade que ultrapassa os limites da natureza e da qual o ser humano foi dotado, mas às vezes se esquece dela: a capacidade de confiar. Seja no caso de uma doença grave, ao enfrentar desafios profissionais ou mesmo lidar com todas as questões de uma relação afetiva, confiar é um elemento essencial para que as coisas deem certo. De nada adianta extrairmos os elemento curativos de uma planta como o hissopo, a saciedade e limpeza oferecida pela água ou um tratamento por um médico capaz se não confiarmos que a cura pode ser alcançada.
Em última análise, através de uma chuká, “uma lei incompreensível aos seres humanos”, a Torá nos convida a confiar. O que parece impossível de se superar – a morte, a sede, a fome, a doença – por fim acaba sendo superado se confiarmos que isso é possível. Mesmo em uma relação afetiva entre duas pessoas, toda demonstração material e comportamental de carinho, respeito, amor e admiração de nada valerá se não houver confiança no imponderável – que podemos chamar de confiança na Existência, um outro nome para Deus.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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