Drashá sobre Parashat Balak

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Lá no terreiro o burro vai falar
É o burro sábio ninguém quer acreditar
Ei gente não se espante é o burro falante
Ei gente não se espante é o burro pensante
(Burro Falante, Sítio do Picapau Amarelo, 1983)

“Como são belas as suas tendas, Jacob, as suas moradas, Israel!” (Números 24:5)
Temendo o avanço do povo de Israel, Balak, o rei de Moav, enviou mensageiros até o profeta Bilam, que vivia próximo ao rio Eufrates. A mensagem era clara: “Amaldiçoa para mim este povo, pois é mais poderoso do que eu.” Bilam se consultou com Deus, que respondeu: “Não amaldiçoe.” Então o rei Balak enviou homens mais importantes até Bilam, com promessas de honra e riqueza – sim, suborno, pressão, como fazem alguns reis ou pretensos reis até hoje. O profeta se consultou novamente com Deus, que desta vez disse: “Vá com eles, mas só faça o que Eu disser.” Bilam selou a sua jumenta e partiu em direção ao acampamento de Israel.
Aparentemente contrariado, Deus colocou no caminho de Bilam anjos armados e invisíveis para impedi-lo de chegar ao acampamento e amaldiçoar os israelitas. Os anjos o matariam se fosse preciso, para evitar um mal maior. Mas a jumenta, que enxergava os anjos, desesperadamente se desviou por três vezes para salvar a vida de seu dono. Após apanhar muito – pois Bilam não entendia porque o animal teimava em sair da rota – a jumenta por fim reclamou: “O que eu lhe fiz para você me bater?” Bilam respondeu: “Você zombou de mim!”
Ao reler esta passagem, o que mais me surpreende não é a jumenta falante; nem (infelizmente) o uso descabido do poder por parte de Balak, o rei que se acha tão poderoso por ter poder e fortuna, mas cuja palavra vale menos do que a de uma jumenta; tampouco me surpreende que Bilam se consulte com Deus – afinal, Deus está aí para todos, não apenas para o povo de Israel. O que me surpreende é a naturalidade com que Bilam responde a uma jumenta como se este insólito diálogo fosse algo possível, natural e corriqueiro, mas não responde a Balak por sua maldosa proposta, típica de certas pessoas com o rei na barriga.
Busquei me recordar de quantos animais falantes conheci na minha infância. Como eram muitos, decidi me restringir aos “parentes” da jumenta de Bilam. No Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, o Burro Falante conversava normalmente com Pedrinho e Narizinho – e com Emília, a boneca falante, e com o rinoceronte falante… Entre os Saltimbancos, de Chico Buarque de Holanda, havia o jumento que, além de falar, ainda cantava, protestava e dava conselhos: um burro companheiro.
Pensando bem, a jumenta de Bilam me parece ser um honroso antepassado do jumento de Chico Buarque. À primeira vista, ambas as histórias parecem contos infantis. Mas em uma leitura mais cuidadosa, logo vemos que de infantil não têm nada. A jumenta arriscou a sua vida para salvar a de Bilam, reclamou com razão de seu ingrato senhor e se contrapôs corajosamente à atitude do rei déspota. Após trabalhar a vida inteira como um burro de carga, o jumento se revolta ao ser ferido em sua honra e decide se unir aos outros animais para se livrar do jugo dos homens. A jumenta poderia ser vista como uma mula, uma tonta, um nada perto de Bilam, o grande profeta que vivia à beira do Eufrates. Mas foi ela quem enxergou mais longe e salvou a vida do ilustre cavaleiro.
No final Bilam enxergou o anjo e, no que pode ser visto como uma lição de humildade e sabedoria, disse a ele: “Pequei. Se você acha mal eu seguir, voltarei.” O anjo o mandou seguir em frente. Antes cego pelo suborno e a pressão oferecidos pelo rei Balak, Bilam agora estava pronto para enxergar o povo de Israel como este era.
Quando o profeta finalmente alcançou o acampamento, já não estava mais cego pela fama e soberba, nem pelo poder e dinheiro de Balak. Bilam abençoou o nosso povo não uma, nem duas, mas três vezes. O mesmo número de vezes que teve a sua vida poupada pela visão, coragem e fidelidade de uma jumenta.
Ei gente, não se espante quando conhecer um burro pensante – mas pense duas vezes antes de se encantar com certas pessoas que acham que são reis. Na maioria das vezes ele é incapaz de enxergar o que até uma jumenta vê pela frente.

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