Drashá sobre Parashat Pinchas

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

Aos poucos a Torá passa a nos apresentar uma nova geração de líderes do povo de Israel. Muitas vezes, quando falamos do novo, costumamos projetar muitas esperanças: que o novo seja mais correto, ético, que mire no futuro e nos leve para um tempo de prosperidade e otimismo. Mas nem sempre o novo é progressista. Parece que em todos os contextos e épocas surgem novas forças que mantêm o tênue equilíbrio entre diferentes tendências. Hoje nos acostumamos a chamá-las de direita e esquerda, pacifistas e belicistas, conservadores e liberais. Mas resumir forças opostas de modo binário tampouco reflete a realidade, que é bem mais complexa do que isso. O movimento judaico progressista costuma dizer que há mais de um modo de ser judeu; nada mais judaico: a Torá parece sempre nos dizer que há diversos modos de lidar com os desafios que temos pela frente.

Pinchas, líder por descendência
Uma das novas lideranças do povo de Israel, pouco antes do fim dos 40 anos pelo deserto, é Pinchas ben Elazar, neto do primeiro sacerdote israelita, Aarão. Ao ver o israelita Zimri ben Salu deitar-se com a midianita Kozbi bat Tzur, Pinchas não pensou duas vezes: tomou uma lança e atravessou o casal pelo ventre. Com isso, conta a Torá, não só interrompeu uma mortandade que assolava o Povo de Israel – 24 mil já haviam morrido – como Deus ainda estabeleceu com ele uma aliança de paz.
Há poucos dias um amigo querido, de religião espírita, me encontrou na rua. Conversamos um pouco sobre o recorrente conflito entre israelenses e palestinos. Em algum momento ele me disse: “Meu querido amigo, devemos sempre defender a paz, mas eu sempre digo que, para alcançá-la, precisamos estar preparados para a guerra. Infelizmente, muitas vezes é preciso fazer a guerra para se alcançar a paz”. Olhei para ele com um olhar triste e constrangido. E por quê? Porque ele colocou em cheque minhas convicções de que não deveria ser preciso passar pela guerra para se alcançar a paz – afinal, o mundo ao nosso redor parece sempre dizer o oposto.
Pinchas utilizou a lança para lutar uma guerra religiosa. Ele era um cohen, um sacerdote. O povo de Israel havia sido advertido para não trocar o seu Deus por Baal Peor, divindade então adorada pelos moabitas. Ao ver em seguida um israelita junto com uma midianita (não uma moabita), resolveu cortar o mal pela raiz. Pinchas matou, convicto de que fazia o que era justo contra um povo que deveria ser ferido por vingança: afinal, era o próprio Deus quem afirmava que os midianitas nos enganavam, em especial as mulheres, atraindo-nos para outros deuses e deitando-se com os homens do nosso povo – ou assim eram vistos.
Mas será que uma visão unilateral pode realmente identificar um povo com tanta clareza, se são bons ou maus? Em situações de guerra tendemos a essa posição dual e dúbia: uns veem todos os palestinos como maus, outros veem todo o Estado de Israel como mau. Será que a realidade é tão simples assim? Bandidos e mocinhos? Eu entendo que não. A realidade é muito mais complexa do que isso.
Mas ao falarmos da nossa porção semanal da Torá, tento puxar pela memória: Midian, Midian… de que povo era Yitró, sogro de Moisés? Em outras palavras, a qual povo pertencia Tzipora, filha de Yitró, esposa de Moisés? Bingo: ao povo de Midian. Yitró, que também foi homenageado com seu nome para uma parashá da Torá, foi um homem bom, conselheiro de Moisés. Diz o Midrash que ele se uniu ao povo de Israel e inclusive voltou à sua terra para converter mais gente para as crenças israelitas. E mesmo que nem todos os midianitas tenham se convertido – imagino que muitos não se converteram – se naquela época valesse a mesma regra de hoje quanto à definição de quem é judeu (filho de ventre judaico) os filhos de Moisés seriam considerados midianitas – e no limite, teríamos o absurdo de termos por obrigação afligir e ferir, entre os midianitas, os descendentes de Moisés.
Diante da atitude de Pinchas, Deus decide entregar a ele a Sua aliança de paz e reafirma o pacto de sacerdócio perpétuo com a família de Aarão, “porque zelou por seu Deus e fez expiação pelos filhos de Israel” (Núm. 25:13). Uma possível interpretação: Pinchas, como sacerdote, tinha uma visão unilateral, caolha, do mundo. Pinchas entendia que poderia resolver conflitos pela ponta da lança e assim, como “bom”, exterminar o “mal”. Deus então lhe ofereceu o outro lado da moeda: a paz. Assim como Ele criou a luz e a escuridão, as coisas boas e as coisas más, assim também um líder religioso deve estar preparado não só para a guerra, mas também para fazer a paz. Deus não premiou a beligerância de Pinchas; Ele lhe ofereceu o equilíbrio. Nem senhores da guerra radicais nem pacifistas radicais são a solução para nenhum conflito.

As filhas de Tzelofchád – ou de como até Deus pode rever Suas decisões
Machla, Noa, Hogla, Milka e Tirtza eram filhas de um homem que morreu sem filhos homens, numa época em que havia sido determinado que a herança de terras na futura Terra de Israel seria transmitida para filhos homens. Mas as filhas de Tzelofchad exigiram de Moisés que verificasse a possibilidade de elas, mulheres, serem herdeiras legítimas, na falta de irmãos. Moisés levou o caso para Deus, que concordou com estas mulheres e mudou as regras de herança: se um homem morrer e não tiver filhos, a herança deve ser transferida para as filhas. Daí em diante há uma sequência hierárquica: na falta de filhas, a herança vai para os irmãos; na falta destes, cabe aos tios; e se também não houver tios, vai para o parente mais próximo (Núm. 27:6-11).
Assim como no caso de Pinchas, quando Deus entrega ao jovem sacerdote a paz como ponto de equilíbrio para a guerra, as filhas de Tzelofchad fazem com que o próprio Deus amplie a Sua visão e ofereça alternativas à falta de filhos homens para a transferência da herança. Esta mudança aumenta as perspectivas bem como a complexidade de organização do povo de Israel. Assim deve ser: a realidade que desponta no horizonte, de deixarem a vida peregrina pelo deserto para se estabelecerem em uma terra, exige soluções criativas e mais flexíveis para o que hoje chamamos de coexistência. Assim, podemos enxergar nas filhas de Tzelofchad verdadeiras lideranças, agentes de mudança em uma sociedade que está ainda nos seus primeiros passos. E hoje em dia? Quais mudanças são necessárias para que as mulheres sejam parte atuante na herança espiritual de Israel? Não terão também elas as bênçãos de Deus para tais mudanças? Estou convicto de que sim, elas já têm as bênçãos de Deus. E devemos seguir o exemplo de humildade de Moisés, que consultou Deus e não decidiu sozinho que tradição é tradição e não deve ser mudada.

Josué, líder por mérito
Josué e Caleb foram os dois olheiros que retornaram da sua visita a Canaã e que, ao contrário dos outros dez, afirmaram que os israelitas poderiam viver na Terra Prometida, apesar dos perigos. Eles exemplificam a crença na capacidade do grupo para alcançar seus objetivos, mesmo que suas posições sejam as de uma minoria dentro do mesmo grupo. Josué não fazia parte da tribo de Moisés e Aarão (Levi) – ele pertencia à tribo de Menashê, filho de José. Diferente de Pinchas, que era sacerdote por descendência, Josué destacou-se naturalmente como um líder – e Deus o apontou para Moisés como seu sucessor. Segundo o Talmud, Josué tinha 42 anos quando do êxodo do Egito. Agora, às vésperas da entrada em Israel, tinha por volta de 80 anos. Moisés, que se aproximava dos 120 anos, foi avisado de que somente veria a nova terra, mas não entraria nela – em vez disso, seria reunido ao seu irmão Aarão, ou seja, morreria antes de cruzar o Jordão. Neste momento Moisés foi ordenado a impor suas mãos sobre Josué e empossá-lo, diante dos sacerdotes e de todo o povo, como o novo líder.

Em resumo: a Torá esta semana nos aponta três novas lideranças: Pinchas, líder por descendência, a quem Deus busca suavizar o zelo excessivo – que hoje seria identificado com as posturas religiosas fundamentalistas – através da concessão de um pacto pela paz; as filhas de Tzelofchad, que fazem com que Deus aperfeiçoe as leis de herança de terras e nos oferecem a reflexão sobre o papel atual das mulheres na herança espiritual do povo judeu; e Josué, líder por mérito, que assume a enorme responsabilidade de suceder Moisés na nova fase da vida do Povo de Israel.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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