Parashat Devarim: Moisés, de chefe a líder – um homem de palavras

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam


Só quem vive uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto, da espécie de que vive.
(“A Abelha”, Fernando Pessoa)

A porção semanal de abertura do livro de Devarim (Deuteronômio) contém em si mesma uma particularidade intrigante: desde que Moisés assumiu a liderança do povo de Israel, desta vez não escutamos uma única vez a afirmação “E o Eterno falou para Moisés dizer…”. O último livro da Torá inicia com “E estas são as palavras que Moisés disse a todo o [povo de] Israel”.
Estamos no 40º ano, o último ano de peregrinação. Um livro inteiro da Torá é dedicado aos ensinamentos de Moisés neste último ano de caminhada de um povo e no último ano de vida do nosso maior líder e profeta.
Lemos em um midrash: “‘Estas são as palavras de Moisés’. Será que Moisés não profetizou nada além destas palavras somente? Não foi ele quem escreveu toda a Torá, inteira, conforme está escrito ‘E Moisés escreveu esta Torá’? O que significa então ‘Estas são as palavras de Moisés’? Isso ensina que estas são palavras de repreensão”. (Sifre 1,1)
A expressão “Estas são as palavras” aparece em outros livros da Bíblia Hebraica. A expressão em hebraico também significa “Estas são as coisas”. Como exemplo, temos:
“E guiarei os cegos pelo caminho que nunca conheceram, farei com que caminhem por veredas que não conheciam; diante deles tornarei as trevas em luz e endireitarei as coisas tortas. Estas são as coisas lhes farei, e nunca os desampararei.” (Isaías 42:16)
“Estas são as coisas que vocês devem fazer: Digam a verdade cada um para o seu próximo; com verdade e sentença de paz julgarão em seus portões”. (Zacarias 8:16)
Assim, podemos depreender daqui que “estas são as palavras/coisas” se refere a guiar as pessoas pelo caminho do bem, mesmo que elas não os enxerguem; levar luz – entendimento, clareza – para que saibam onde estão pisando e, agora dotadas de compreensão, busquem endireitar o que está errado em um trabalho de tikun olam, de consertar o mundo. Dizer a verdade e julgar com espírito de paz, buscando sempre a harmonia.
Moisés e o povo de Israel haviam acabado de passar por uma série de guerras com diversos povos; os últimos haviam sido os emoreus e reino de Bashán. É chegada a hora de entrarmos em Israel para herdar a terra prometida aos nossos antepassados: Abraão, Isaac, Jacob e suas famílias.
Mas o povo não se limita mais a umas poucas famílias. Somos já milhares de milhares. Como se faz para liderar um povo como este? “Tomem para vocês homens sábios, inteligentes e conhecidos por suas tribos e os coloquem como seus líderes” (Deut. 1:13). O povo concordou.
Como estes líderes deveriam governar? Moisés esclareceu estas palavras: “Não conheçam as faces no juízo; escutem do mesmo modo o pequeno e o grande, não temam homem algum, porque o juízo é de Deus” (Deut. 1:17).
Vivemos em um tempo em que algumas pessoas ainda se consideram mais importantes do que outras. Os motivos são muito conhecidos por todos nós. Alguns entendem que, por sua privilegiada situação econômica, podem ter mais voz do que outros na tomada de decisão. Outros acreditam que, por se considerarem mais estudados ou por entenderem que, por um motivo ou outro, detém algum tipo de autoridade e usam de todo tipo de subterfúgio para manterem uma posição de vantagem diante de um julgamento. Ainda há aqueles que usam da agressividade, nos atos ou mesmo na voz, para tentarem impor suas posições diante do grupo.
O que a Torá nos ensina sobre isso? Que para se fazer justiça não deve se levar em conta a posição do indivíduo no grupo. Pessoas mais ricas e mais pobres, com uma formação educacional mais sofisticada ou mais básica, com capacidade de argumentação mais simples ou mais elaborada, com voz mais suave ou mais agressiva – todos devem ser escutados com o mesmo peso. Não se deve temer ninguém, não se deve favorecer alguém no julgamento. Isso valia para o povo de Israel na época de Moisés – quanto mais deve valer hoje em dia, em nossas comunidades.
Mas nem sempre Moisés teve esse discernimento. No início, Moisés sentia-se inseguro da missão que tinha pela frente: “Eu Lhe rogo, Senhor, não sou homem de palavras… pois tenho a fala lenta e a língua trêmula” (Êxodo 4:10), ao que Deus respondeu: “Agora vá, Eu estarei com a sua boca e lhe ensinarei o que você deve falar” (Êxodo 4:12). E assim foi. Deus dizia a Moisés as ordens que ele deveria transmitir ao povo. Moisés era então, talvez, mais chefe do que líder.
Durante quase quarenta anos Moisés colaborou para a transformação de um bando de gente distribuída em tribos em um povo, sempre sob a orientação direta de Deus, quando os israelitas construíram laços de confiança e escreveram uma história juntos. Nesta jornada coletiva nossos antepassados lutaram contra inimigos externos e enfrentaram disputas internas, durante as quais viram morrer líderanças como Kórach e seus aliados – que se consideravam autoridades com mais direito de opinião do que os demais; bem como Miriam e Aarão. Nosso povo viu surgir também novas lideranças, como Yehoshua bin Nun – que sucedeu Moisés – e o polêmico Pinchas, neto de Aarão. Com gente mais adepta ao diálogo e outros propensos ao poder pela força, levamos uma vida juntos, em que a liderança aos poucos foi sendo delegada de Deus a Moisés, e deste para milhares de outros líderes preparados para atender às necessidades do povo.
Em outro midrash (Devarim Raba 1) Rabi Shmuel bar Nachman interpreta a palavra “devarim” (palavras/coisas) como “devorim” (abelhas) e nos conta: “Disse o Sagrado, Bendito seja: Meus filhos se comportaram no mundo como abelhas nas mãos dos justos e dos profetas”. Era e é um grande desafio, este, o de liderar pessoas doces como mel, que trabalham em equipe, mas também com aqueles sempre prontos a desferir o seu ferrão com o intuito de alcançar o poder pelo constrangimento e a dor alheios.
O povo amadureceu, e assim também Moisés. O “chefe” de língua pesada, cuja boca “era de Deus”, tornou-se o líder capaz de falar ao povo com suas próprias palavras de modo ágil e preciso. Como bom educador, Moisés recordou ao povo os lugares por onde passaram, as dificuldades e os desafios vencidos. Ele próprio passou por um rigoroso processo de autoconhecimento, envelheceu com distinção e tornou-se, segundo o sábio rabino Maimônides (1135-1204), um profeta e líder sem termos de comparação com qualquer outra liderança. Com suas palavras, Moisés levou o povo até o seu destino. E suas palavras continuam até hoje a nos orientar, ensinar e guiar em direção aos nossos próprios destinos como povo.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s