Parashat Vaetchanan – Shabat Nachamu

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Levante seus olhos para o Oeste, para o Norte, para o Sul e para o Leste e contemple com seus olhos – porque você não passará este Jordão. Ordene a Josué, anima-o e fortaleça-o, porque ele passará na frente deste povo… (Deut. 3:27,28)

Segundo o Midrash Devarim Raba, Moisés foi avisado por dez vezes que não passaria o Rio Jordão e não entraria na Terra de Israel. Logo ele, Moisés, que liderou a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito; recebeu a Torá no Monte Sinai; teve que refazer as Tábuas da Lei por ter se irritado com o povo, que na sua ausência relevou o Eterno e chamou um bezerro de ouro de Eterno; conduziu o povo pelo deserto por longos quarenta anos – agora Moisés não pode entrar em Israel? Por quê? Será que Deus, conhecido como Todo Justo, Todo Misericordioso, agiria de forma tão injusta com o maior dos profetas do nosso povo?
Conta o Midrash que Deus disse a Moisés: “Graças a você, dezenas de milhares de pessoas saíram do Egito. Eles foram enterrados no deserto; e você irá entrar com outra geração? Então dirão: ‘A geração do deserto não tem lugar no Mundo Vindouro!’. Por isso, fique ao lado deles”.
Ao longo dos 40 anos, a Geração do Êxodo do Egito deixou a terra da escravidão, morreu no deserto e deu origem à Geração da Entrada em Israel. Um grande homem, Moisés, foi o responsável por levar adiante a transição entre a vida de escravidão e a vida de liberdade. Antes de Moisés, o Povo de Israel vivia como que apartado de Deus e do mundo espiritual. Depois de Moisés, este mesmo povo foi acolhido novamente pelo Deus de seus antepassados, recebeu Dele a Torá e encaminhou seus filhos para uma nova vida em uma nova terra.
No entanto, Moisés fazia parte da geração anterior. Ele cresceu com eles, afastou-se por um tempo, uniu-se novamente à sua gente e os liderou por toda uma geração. Seria justo Moisés abandoná-los e seguir adiante com a nova geração? Deus entendeu que não. O justo seria continuar ao lado deles para sempre, na vida e na morte.
Conta ainda o Midrash que Moisés pediu a Deus que anulasse a decisão de não permitir que o povo de Israel entrasse em Israel, bem como anulasse o decreto de que ele próprio não passaria o Jordão. Disse Moisés: “Por favor, perdoe o pecado deste povo conforme a grandiosidade da Sua bondade” (Núm. 14:19). Deus então permitiu que a nova geração entrasse, mas não voltou atrás na decisão de impedir Moisés de entrar. E por quê? Segundo o Midrash, Deus justificou assim a Sua decisão: “Perdoei conforme as suas palavras” (Núm. 14:20). Vamos voltar: Moisés pediu que o pecado do povo fosse perdoado, não o seu próprio.
Moisés insistiu novamente: ele queria entrar em Israel. Deus lhe respondeu: “Moisés, se você decidir que eu lhe faça passar o Jordão, cancelarei o decreto de perdoar o povo; mas se você decidir que eu devo perdoar o povo, não lhe farei passar o Jordão”. A decisão estava nas mãos de Moisés – e o profeta decidiu que deveria morrer, ainda que houvesse outros cem como ele; mas que Deus não fizesse mal algum aos filhos de Israel prestes a entrarem na Terra Prometida. Moisés finalmente entendeu que fazia parte de uma geração que já havia cumprido o seu papel.
Sempre que me deparo com estes momentos de decisão por parte de Moisés, pedindo para a Deus para seguir em frente – e Deus insistindo que não – penso em quanto Deus foi bondoso e justo com Moisés. Você pode me perguntar: Como assim? Deus decide que Moisés morrerá e não entrará na terra para a qual teve o mérito de conduzir todo o povo de Israel e você me diz que o Eterno está sendo bondoso com ele?
Sim. Digo isso inspirado em alguns dos últimos versículos da Torá, quando lemos: “Moisés tinha 120 anos ao morrer, mas a sua vista não se enfraquecera nem se apagara o esplendor de seu rosto… jamais se levantou em Israel profeta algum como Moisés” (Deut. 34:7,10). Moisés viveu na plenitude de suas forças e no auge de sua capacidade de discernimento. Após os 120 anos, ele iria enfrentar dois desafios: um pessoal, do envelhecimento natural, quando sua vista iria se enfraquecer a ponto de perder o discernimento e seu rosto iria perder o esplendor diante de seu povo. O outro desafio seria encarar uma realidade totalmente diferente: Moisés foi a melhor pessoa possível para nos liderar no deserto; mas agora, quando iríamos viver de modo fixo na nossa terra, ele teria que enfrentar uma realidade completamente nova para a qual talvez não fosse o melhor líder.
Em outras palavras: Deus, em Sua bondade, retirou Moisés da história do nosso povo no auge. Se tivesse seguido na liderança após a entrada em Israel, talvez cometesse erros que ficariam guardados em nossa memória e não fariam justiça à sua trajetória. Um grande líder também é reconhecido por saber o momento de sair de cena.
Mas voltemos à nossa parashá da semana. Ainda inteiro e lúcido, Moisés repetiu ao Povo de Israel as Dez Falas (Dez Mandamentos) e enfatizou como elas nos foram entregues por Deus em meio ao fogo, à nuvem e às trevas, com uma grande voz incessante, num só fôlego. Que eles não se desviassem nem à esquerda nem à direita do caminho que lhes havia sido ordenado pelo Eterno, para que seus dias fossem longos na terra que iriam herdar.
Um pouco mais adiante, Moisés declarou aquela que se tornou a nossa afirmação de fé primordial: “SHEMÁ ISRAEL, Escuta Israel! O Eterno é nosso Deus, o Eterno é UM!” (Deut. 6:4).
Quando tivessem filhos na nova terra e estes perguntassem o que significam os testemunhos, estatutos e juízos que o Eterno nosso Deus os ordenou, deveriam responder: “Fomos escravos do Faraó no Egito, mas o Eterno nos tirou do Egito com mão forte… para nos trazer e nos dar a terra que jurou aos nossos antepassados” (Deut. 6:20-23).
Moisés e a Geração do Êxodo tiveram, assim, garantido o seu lugar no mundo vindouro e na consciência coletiva do povo judeu. De geração em geração a sua memória será lembrada, para sempre, como aqueles e aquelas que tiveram coragem de deixar o mundo servil e construíram o caminho para que as gerações seguintes pudessem ser livres. Que a lembrança destes heróis e heroínas permaneça para sempre como uma lição de fé e de otimismo e seja uma benção para nós, de geração em geração.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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