Drashá sobre Parashat Ékev

Amor e temor
Eu me lembro de que, durante os meus anos em Israel, tive a oportunidade de participar de inúmeras palestras de temática judaica com estudiosos e rabinos de todas as linhas religiosas. No fim de uma delas, que falava sobre amor e temor a Deus, um senhor me questionou a queima roupa: “Então, você teme a Deus?” A pergunta me pegou de surpresa. Temer a Deus, Eu?! Não, é claro que não!!, respondi. “Eu respeito Deus, eu me interesso por Deus, eu O reverencio e O amo como lemos no Shemá: de todo coração, de toda a minha alma e com todas as minhas forças. Mas eu não tenho medo de Deus!”
Naquele momento me lembrei do meu bar mitzvá, em 1982, há 32 anos. Naquele Shabat o rabino perguntou: “Meninos, qual é a primeira palavra do Shemá?” Silêncio. Pensei comigo: Não vou dizer Shemá, o rabino não faria uma pergunta tão fácil. Respondi: “Veahavtá, e Amarás.” E ele me respondeu: “Não. A primeira palavra é Shemá. Sabe por que, Uri? Porque só depois de escutar é que é possível amar.”
Só depois de escutar é possível amar. Isso ficou gravado na minha memória e foi fácil de entender. Mas entre escutar e amar, não me recordo de ter encontrado o verbo temer.
E de repente, de volta a Jerusalém 2010, me vem aquele senhor judeu e me diz que teme a Deus acima de todas as coisas. Eu retruquei: “Eu não tenho medo de Deus.” E ele me disse: “Quem falou em medo? Eu também não tenho medo de Deus”.
Ôxi – como se diz em Salvador – ele teme a Deus, mas não tem medo de Deus??

Afinal, o que Deus espera de nós?
Se formos nos basear na leitura da Torá desta semana, Deus é bem prático: Ele espera que nós escutemos as regras, que as incorporemos e as coloquemos em prática. Se fizermos isso – por amor ou por temor, tanto faz, desde que a gente faça – Deus ficará feliz.
Mas eu continuo em dúvida. Não é difícil entender que Deus espera ser amado. Amado de coração, de alma, através de ideias, pela ação, pela emoção, por vibração, por dedicação, e através de tantos outros modos de expressarmos o nosso amor a Deus. Mas por que Deus esperaria que eu tivesse temor por Ele?
Aquele homem me disse: “Eu também não tenho medo de Deus – mas eu o temo.” Se for assim, mesmo quando dizemos que Deus é norá, temível, isso não significa que devemos ter medo Dele. Deus não é um bicho papão. Deus não é um ditador. Ninguém pode me obrigar a amar por medo. Nem mesmo Deus.
O livro do Zohar diz que cada um de nós tem duas asas: a asa do amor e a asa do temor. Se uma delas falhar, não temos como voar com uma asa apenas; e sem as duas asas não temos como nos aproximar de Deus.
Começo a ter medo de não saber o que é temer. Se o temor é uma das asas que nos eleva a Deus, esta não pode ser a asa do medo, porque o medo nos afasta de Deus. A asa do temor tem que voar em harmonia com a asa do amor.
Mas então o que é ter medo? Temos medo de algo que nos ameaça, que imaginamos que possa nos fazer algum mal. A reação humana ao medo é evitar, afastar-se, fugir. Mas se na tradição judaica Deus é temível e devemos ter temor a Deus, então temor não pode ser medo!! Pelo menos era assim pensava o rei David, ao escrever nos salmos que feliz é aquele que teme a Deus. E essa também era a convicção do rei Salomão, quando dizia no livro de Provérbios que o temor a Deus é a Fonte da Vida.
Amor e temor a Deus, nossas duas asas. Se amamos e tememos, nos elevamos até a Fonte da Vida. Se amamos e não tememos, não saímos do lugar. Se tememos e não amamos, também não saímos do lugar.
O primeiro parágrafo do Shemá começa com Veahavtá, “você amará”. Devemos amar a Deus de todo modo possível. Este amor deve estar em nossos corações, para que possamos transmiti-lo aos nossos filhos e filhas sempre que houver oportunidade. Não se fala dos motivos nem das consequências de se amar a Deus. É amor pelo amor. Bonito não é? Mas prá que serve na prática?
Talvez a resposta esteja no segundo parágrafo do Shemá, escrito na leitura da Torá desta semana. Nós nem sempre o lemos, ou lemos em voz baixa. Talvez porque não seja tão agradável de ler. Talvez por nos dar medo. Por quê? Porque diz que se amarmos a Deus, vai chover na nossa horta. Mas se este amor for desviado para outras divindades – hoje em dia poderia ser o amor ao poder, ao dinheiro, à fama, a, a, a… – Deus ficará irado e não só não vai chover na nossa horta, como a horta e nós vamos sumir do mapa.
Amar um Deus assim, ciumento, possessivo, capaz de matar caso seja abandonado por outro, é de dar medo. Não é possível que rezemos por um amor assim duas vezes por dia!
No entanto, este segundo parágrafo do Shemá, assim como o primeiro, também diz que estas palavras devem estar em nossos corações, para que possamos transmiti-las aos nossos filhos e filhas sempre que tivermos oportunidade. E mais: para que tenhamos uma vida longa sobre a terra que Deus nos deu.
No Talmud, Rabi Shimon ben Eliezer diz que rezar por amor a Deus tem uma duração muito maior, porque seus efeitos se enraízam na alma humana. É possível rezar por outros motivos: por respeito, por obrigação; mas o efeito não chega nem perto de rezar por amor.
Rabi Meir, por sua vez, diz: “O temor a Deus vem do amor a Deus.”, ou seja, o temor não existe por si só: só quem ama a Deus pode temer a Deus. O Talmud de Jerusalém nos diz que quem ama não odeia. Eu diria também que quem ama não tem medo. Mas quem ama, pode temer.
Conta-se que um discípulo do Kotzker Rebe perguntou: “Rabino, o que é o temor a Deus?” E o rabino respondeu: “Você já olhou para um lobo?”, “Sim”, respondeu. “Então – isso é temor a Deus”.
Os termos em hebraico para os verbos temer e olhar são muito parecidos. Não temos como olhar Deus, mas temos como olhar o mundo, as criaturas, as pessoas. Uma boa definição de temor a Deus pode ser: olhar e se maravilhar com cada ser no mundo, como sugerem os rabinos A.J. Heschel e Zalman Schachter-Shalomi, de abençoadas memórias. Mas encarar um lobo também deve dar medo. Então podemos redefinir o temor a Deus como: maravilhar-se com o Seu mundo, mas com uma pontinha de medo. Como diria Woody Allen: um dia o leão e o cordeiro dormirão lado a lado, mas o cordeiro se deitará com um olho aberto.
A melhor relação que encontrei entre amor e temor está em outra historia sobre o Rebe de Kotzk. Desta vez ele perguntou a um discípulo: “Moishe, você me teme?” Moishe olhou para o rabino, mas não respondeu. “Moishe, você me teme?” Perguntou de novo o rabino, e de novo Moishe ficou em silêncio. O Kotzker Rebe perguntou pela terceira vez: “Moishe, você me teme?” E Moishe respondeu: “Rabino, eu só temo que o amor entre nós diminua”.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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