Drashá sobre Parashat Reê

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

A leitura da Torá desta semana carrega em si mesma um desafio para a busca a Deus a partir de lugares diferentes. As perguntas que faço a todos vocês é:
Será mesmo possível cada um de nós sair das suas referências – obtidas na casa dos pais, na sua escola, na sua comunidade, na sua cidade e no seu tempo – e nos encontrarmos para buscar Deus juntos?
Por que às vezes Deus parece estar escondido, como no Livro de Ester ou até mesmo diante de uma tragédia inesperada, como a que levou a vida do candidato à Presidência da República Eduardo Campos e seus companheiros de viagem? Onde está o bom e o justo?

A benção e a maldição
Vejamos o início da nossa leitura da Torá: “Veja, Eu concedo diante de vocês, hoje, a benção e a maldição. A benção caso escutem os mandamentos do Eterno seu Deus que Eu lhes ordeno hoje; e a maldição caso não escutem os mandamentos do Eterno seu Deus, afastem-se do caminho que Eu lhes ordeno hoje e sigam outros deuses que vocês não conhecem.” (Deut. 11:26-28)
Mais adiante lemos: “Se aparecer entre vocês um profeta ou alguém… e disser: ‘Vamos seguir outros deuses que vocês não conhecem e servi-los’, não escute às palavras daquele profeta ou sonhador… Sigam somente o Eterno, seu Deus” (Deut. 13:1-5). Somos advertidos a guardar cada mitzvá, cada mandamento como ele é: não devemos acrescentar nem retirar nada, assim como não devemos seguir outros deuses – senão… isso mesmo, maldição. Esta advertência é repetida diversas vezes na Torá, inclusive no segundo parágrafo do Shemá – que muitos têm o costume de rezar em voz baixa para não “atrair” a maldição.
Mas será que é como rezamos que atrai ou afasta as coisas ruins? Ou é o modo como agimos?
Uma indicação que pode nos ajudar a refletir é o seguinte versículo: “Cuide e escute todas estas palavras que Eu lhe ordeno, para que vá tudo bem para você e seus filhos, porque você fará o que é bom e correto aos olhos do Eterno seu Deus”. (Deut. 12:28)
O que significa fazer o que é bom e o correto aos olhos de Deus? Será que o que é bom é o correto? Será que o que é bom e correto para mim também é para você?

O que diz a Voz Divina interior?
Em um texto com comentários sobre esta parashá, do rabino Shlomo Fucs, que foi meu professor na minha formação rabínica, lemos a seguinte explicação do Rabino Moshe Chaim Efraim de Sadilkov (1742-1800), neto do Baal Shem Tov, conhecido como o “Déguel Machané Efraim” (em Mishne Avot Perek 6: Mishná 2):
Rabi Yehoshua ben Levi dizia: “A cada dia a Bat Kol sai do Monte Horev, declara e diz: “Ai das criaturas que insultam a Torá!”… E o que dizia o meu mestre, o Baal Shem Tov? “É sabido que a Bat Kol leva todos os dias o indivíduo a se arrepender”
A Bat Kol, a Voz Divina, ecoa todos os dias. A pergunta é: será que nós a escutamos? E o que escutamos? Todos nós escutamos o mesmo? E é bom o que escutamos? Ou o é o correto o que escutamos? Será que sempre o que é correto é bom?
Conta-se que Rabi Meir e Rabi Natan, insatisfeitos com a liderança de Raban Shimon ben Gamliel, tramaram derrubá-lo do cargo de presidente do Beit Midrash (casa de estudos), mas o golpe fracassou e Shimon ben Gamliel ordenou que fossem expulsos. No entanto, os dois contribuíam tanto para o bom entendimento da Torá que Rabi Iossei protestou: “A Torá fica do lado de fora e nós do lado de dentro?!” Shimon ben Gamliel decidiu que eles poderiam retornar ao Beit Midrash, mas de agora em diante os ensinamentos de Rabi Meir seriam citados como “Acherim” (Os Outros) e os de Rabi Natan como “Yesh Omrim” (Há Quem Diga) (Talmud Bavli, Horaiot 13b). Foi o modo encontrado para que a Torá de Rabi Meir e de Rabi Natan permanecessem dentro da sabedoria judaica. O certo era deixá-los do lado de fora – mas o bom foi encontrar um modo para deixá-los do lado de dentro.
O poeta israelense Chaim Nachman Bialik, em seu poema “Em um dia de verão, um dia quente” (1897), lida assim com o estrangeiro, o outro que é diferente de nós:
Minha casa, pequena e humilde, sem nada complexo e sem luxo,
É quente, cheia de luz e aberta para o guer (o estrangeiro)
Diante do irmão arde o fogo; e sobre a mesa a vela
Ele se senta comigo e se aquece – o irmão perdido!

Nós somos os outros aos olhos dos outros
Então volto a refletir sobre o início da leitura da Torá desta semana: “Veja – Eu concedo diante de vocês, hoje, a benção e a maldição. A benção caso escutem os mandamentos do Eterno seu Deus que Eu lhes ordeno hoje; e a maldição caso não escutem os mandamentos do Eterno seu Deus, afastem-se do caminho que Eu lhes ordeno hoje e sigam outros deuses que vocês não conhecem.” (Deut. 11:26-28)
A lição que me fica é que nem sempre quem acha que está agindo em nome de Deus sesta agindo em nome do que é bom e correto. Se pudermos unir o correto ao bom, ótimo. Senão, talvez tenhamos que buscar o bom, mesmo que este pareça não ser o correto. Às vezes é através da transgressão aos olhos dos outros (principalmente se estes outros se consideram a referência, o mainstream, o status quo e por aí vai), na busca pelo bem, que se alcança o que é o correto.

A Justiça, a Justiça buscarás
A parashá seguinte afirma logo no início: Tzedek Tzedek Tirdof, a justiça, a justiça perseguirás. (Deut. 16:20) De vez em quando tenho a impressão de que certas lideranças comunitárias e religiosas “estão dentro”, mas a Torá está do lado de fora. Talvez estas tenham perdido a referência do que é bom e correto por estarem por demais preocupadas com seus próprios interesses e não com os interesses coletivos nem com “o que Deus espera de nós”. Mas sempre há tempo de se buscar a justiça. Porque buscar a justiça não é algo que se opõe ao que é bom; ao contrário.

No texto bíblico, a palavra Justiça aparece repetida. Podemos ter muitas interpretações dos motivos desta repetição. A minha interpretação, para o nosso contexto, é que a justiça se realiza somente quando é justa para os dois lados: “A Justiça (para mim) e a Justiça (para você) buscarás”. Somente quando a justiça for correta para ambos os lados é que poderá sair algo de bom. Quando um dos lados busca a justiça somente para si mesmo, a benção se torna maldição para todos. Mas quando buscamos o justo e o bom para os dois lados, ambos podem ser abençoados. No caso de conflito, eu busco o acordo justo, correto e bom. E você, qual será a sua escolha? Diante de você está a maldição e a benção. Cuidado na hora de escolher.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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