Reflexões sobre o conflito Israel-Hamas: será a operação israelense “capinar o mato” autossustentável?

Roberto Leon Ponczek

Roberto Leon Ponczek

O Judaísmo está irremediavelmente cercado por dois inimigos ferozes que são, atualmente, o grupo terrorista Hamas( apoiado pelo Irã e Qatar) e o velho antissemitismo mundial, sempre em estado latente, esperando sorrateiramente para mostrar a sua cara milenar. Ambos pretendem destruir o Judaísmo, com a mesma virulência, porem de maneiras distintas. O Hamas quer uma Guerra Santa (Jihad) que culmine com a destruição de Israel, estendendo seus domínios de Bagdá a Espanha, tal qual o Califado de Omar e da Turquia ao Egito como o Sultanato de Saladino nos secs. VII ao XI. Percebem o Ocidente como uma nova Cruzada a ser combatida e derrotada sem piedade e Israel é visto como a ponta de lança desta Cruzada
(vide http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/tag/estatuto-do-hamas/)
Já o antissemitismo, começou nos primórdios da Idade Média, com o surgimento dos primeiros Reinos Cristãos, tendo como ponto culminante a barbárie nazista. Ele continua vivo e virulento, agora camuflado no discurso antissionista , mas nutrido pelo mesmo ódio atávico de origem religiosa, econômica e cultural. O antissemitismo é uma psicopatia social paranoide que vê, em tudo, conspirações judaicas que visam dominar o mundo. O velho panfleto forjado na Rússia czarista chamado de Protocolo dos Sábios de Sião lhe serve de modelo. Enquanto que a guerra do Hamas é localizada em Gaza a guerra do antissemitismo é mundial, se alastrando perigosamente pelos países europeus, especialmente França e Bélgica (vide site:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/08/1497550-com-conflito-em-gaza-antissemitismo-ganha-forca-na-europa.shtml)
Já assistimos estes dois filmes várias vezes, mas, para nossa sorte, no final do enredo nem o Hamas nem o persistente antissemitismo conseguiram lograr seus intentos de nos varrer do mapa seja como nação, seja como povo. Somos de fato resilientes, mas, me pergunto, ate quando? Será que não estamos exigindo demais de nosso D’us bíblico? Já não terá sido a cota de proteção que Ele nos concedeu bastante generosa com a sobrevivência ao Holocausto nazista e a criação de Israel?
A pergunta que não calar é, então, qual seria a melhor estratégia para israelenses e judeus da Diaspóra, combaterem seus dois inimigos mortais?
Contra o antissemitismo mundial Israel nada pode fazer, cabendo às comunidades diaspóricas uma eterna vigilância, cobrando com veemência atitudes legais dos governos dos países em que vivem. Quanto ao terrorismo do Hamas, uma das soluções, para enfrenta-lo, é a que vem sendo adotada pelo atual Governo do Likud ( direita israelense), metaforicamente denominada de “operação capinar o mato”. É essa estratégia de luta que pretendo questionar. No entanto, para entender o que venha a ser a tal operação, e se de fato é a melhor solução, será necessário recuar um pouco no tempo.
Em 2005, quando Ariel Sharon, tido pela esquerda como truculento líder direitista, surpreendeu o mundo, ordenando a retirada de Gaza ,, retirando um a um os colonos judeus que lá se instalaram, esperava com isso que a Autoridade Palestina(OLP), tida como moderada, assumisse o poder estabelecendo um acordo de paz com Israel. Não previu o velho general que o Hamas ,surgido como uma dissidência radical da OLP, em 2007, tomasse o poder pela força expulsando seus adversários moderados. A partir de então o Hamas passou a se armar e rearmar periodicamente obrigando Israel a avançar sobre Gaza para destruir seu grande arsenal de foguetes (e dessa vez, soterrar os tuneis construídos nos últimos 2 anos).Essa tática de “capinar mato” , como a metáfora bem evoca, tem-se repetido logo que o Hamas acumula forças suficientes para um novo ataque, (2009, 2012 e 2014) sempre com muito sofrimento tanto para a população israelense e, em maior escala, para a população civil palestina. Um sofrimento maior é impingido aos palestinos de Gaza devido às táticas suicidas de escudos humanos empregadas pelo Hamas que aumentam exponencialmente o número de mortes e a às táticas defensivas empregadas por Israel que as diminui na mesma proporção. No entanto, a disparidade de numero de vítimas leva a mídia internacional, a considerar a reação de Israel como “desproporcional”, minando-o diplomaticamente na ONU e jogando a opinião pública leiga contra o estado judeu.
Pergunto-me então se a estratégia de “capinar o mato” é a melhor forma de combater o Hamas? Em minha opinião, não! Ela é tão eficiente como enxugar gelo ou capinar erva daninha que cresce muito mais rapidamente que a boa grama. Quem tiver lido ou assistido as matérias sobre a incursão de Israel sobre Gaza ocorrida em 2012, terá a impressão de estar assistindo um deja vu, em 2014. A cada dois anos tudo segue um mesmo roteiro que se repete com regularidade milimétrica : 1 -lançamento de uma enxurrada de foguetes pelo Hamas sobre território israelense( a cada ano os foguetes se tornam mais potentes e atingem lugares mais distantes já alcançando Jerusalém e Tel Aviv),2- sirenes ecoam em praticamente todo território israelense, alertando a população para um a corrida imediata, aos abrigos antiaéreos. 3- Após um prazo de tolerância, seguem-se os bombardeios aéreos a Gaza, e ataques da artilharia fazendo muitas vítimas civis ( decorrentes da tática adotada pelo Hamas de usar escudos humanos para deliberadamente demonizar o conflito).4- tentativas infrutíferas de acordo de paz sistematicamente rejeitados pelo Hamas e 5-concomitantemente uma eclosão de verdades parciais, senão mentiras explicitas com divulgação de falsas fotos e falsas versões na mídia internacional, gerando no fim do processo, uma onda de corrosivo antissemitismo mundial, com a demonização, não só de Israel, mas, em alguns países, do povo judeu como um todo. Enfim, esse macabro roteiro de 5 pontos tem sido recorrente desde 2007.
Voltando à questão central de nossa reflexão, nos perguntamos se esta seria a melhor estratégia de combate ao jihadismo terrorista e à sua nefasta consequência, o antissemitismo mundial, disfarçado agora de antissionismo? A recorrência com as quais se repetem os fatos levam-me a acreditar que a estratégia do “capinar mato”, além de ineficiente recria, a cada vez, um situação futura ainda mais desfavorável a Israel (se desta feita surgiram tuneis, o que poderá vir da próxima vez, armas químicas, armas nucleares?). Penso que num futuro mais próximo do que se possa pensar a situação poderá ficar indefensável para Israel , por quatro fatores que passo a enumerar:

  1. Fator demográfico. A população palestina cresce com o dobro da taxa da população israelense em media, e a população religiosa ortodoxa judaica cresce com uma taxa maior que a população secular israelense. O que significa que na próxima década poderá haver uma guerra entre radicais islâmicos e religiosos judeus. Seria a luta de dois livros, a Torah contra o Alcorão, lidos com radicalidade, inviabilizando qualquer possibilidade de um diálogo racional (já difícil hoje).
  2. Fator internacional. Com as fontes alternativas de energia como xisto, Israel deixaria de ser uma prioridade estratégica para os Estados Unidos, e portanto deixaria de ser um aliado incondicional.. Por outro lado, a juventude judaica norte-americana já não tem os mesmos laços de ancestralidade e solidariedade com Israel que tinham seus pais e seus avós sobreviventes do Holocausto. Um fenômeno semelhante se dá no Brasil e nas comunidades judaicas mundiais. A assimilação cada vez maior das novas gerações tem enfraquecido a identidade nacional judaica que tem em Israel a sua força motriz. Os jovens estão se globalizando e perdendo suas identidades nacionais e religiosas, e os judeus não fogem a essa regra.
  3. Fator militar: é impossível um exercito nacional derrotar uma guerrilha terrorista que se escuda na população civil sem que haja um verdadeiro banho de sangue. Como exemplo, lembro que os Estados Unidos não conseguiram derrotar os vietcongs, a França foi expulsa da Argélia e Portugal de sua colônias africanas. Com a radicalização religiosa do conflito não seria absurdo pensar numa catastrófica tomada da Cisjordânia pelo Hamas,( e não o inverso como previra Sharon quando se retirou de Gaza).e, desta feita, os foguetes estariam sendo apontados para Jerusalém de plataformas situadas a apenas 12 km de distancia.
  4. Fator político local: a inexistência ou inviabilização de um acordo de paz entre Israel e a OLP de Abbu Abbas, tende favorecer a radicalização de ambas as partes levando o risco, cada vez maior não só de o Hamas tomar a Cisjordânia, como, por outro lado, favorecer o embrutecimento da sociedade israelense com uma forte guinada para a extrema direita, colocando-a na contramão do que idealizaram os grandes pensadores humanistas do Sionismo kibutziano e socialista. Segundo Amos Oz, em sua grande autobiografia De Amor e Trevas a riqueza da sociedade israelense reside em sua multiplicidade de tendências políticas e religiosas, num cenário democrático em que todos podem externar suas diferenças. A radicalização do conflito poderá transformar a sociedade israelense num monolítico uníssono de direita.
    (vide Oz Amós, de Amor e Trevas, S.P. Companhia das Letras, 2008),

Por essas razoes, e varias outras que ainda podem ser levantadas, a continuação da estratégia de desarmar o Hamas a cada 2 anos, não será mais sustentável em breve. Israel deve buscar urgentemente uma mudança de paradigma para sua sobrevivência autossustentável. Somente um diálogo, ainda que sofrido e difícil com, a parte que representa dos males o menor, a OLP, é que poderá trazer algo de novo nesse complexo tabuleiro de xadrez. A direita likudiana argumenta que isso já foi feito anteriormente por governos de centro esquerda como os de Ehud Barak e Olmert, que tentaram trocar territórios pela paz sem resultados. Lembro-lhes que o interlocutor palestino era então o demagógico Yasser Arafat que pregava a paz em inglês e a guerra em árabe. Por outro lado, podemos contra argumentar que Manahen Begin e Anuar Sadat firmaram um duradouro acordo de paz, entre Israel e Egito, com a devolução do Sinai. Por que então fracassaria um acordo com o moderado Abbas? Dizem também certos setores likudianos que Abbas preferiu uma coalização com o Hamas inviabilizando um diálogo com Israel. O argumento parece-me falho, pois com fortalecimento de seu rival moderado, o Hamas, que se alimenta da guerra, ficaria isolado no governo, extinguindo-se naturalmente com uma paz que o tornaria inviável. É preferível, e estrategicamente correto, terceirizar a guerra ao Hamas incumbindo a OLP dessa espinhosa tarefa! Enfim, deixemos que o Islã resolva por si só suas imensas contradições. (vide a Síria e Iraque onde varias facções do Islamismo se digladiam sem que Israel precise dar um único tiro.)
No entanto, o acordo de paz com OLP não será simples e certamente obrigará às partes fazer penosas concessões. Para nós seria dolorosa a partilha de Jerusalém, bem como a devolução de alguns assentamentos que inviabilizam a continuidade do território palestino. O retorno dos refugiados palestinos é também uma questão espinhosa. Já os palestinos teriam que reconhecer seu secular arqui-inimigo como nação e renunciar vez por todas de seu desvario islâmico de tornar Israel um waqf, isto é, terra que deve ser libertada dos infiéis, Teriam que se contentar com os 22 % da terra e renunciar vez por todas aos 100% que queriam ter em 1947. Finalizo afirmando com ênfase que é preferível pagar o preço de ter OLP como vizinha controlando Gaza do que ter o Hamas na Cisjordânia batendo às portas de Jerusalém!

*Roberto Leon Ponczek é MD em Física pela PUC-RJ e Doutor em Educação pela UFBA. Atualmente é Professor Permanente do Doutorado Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento (DMMDC), onde leciona Epistemologia e Seminários de Tese e orienta vários alunos de Doutorado. É membro- pesquisador da ANPOF sobre aa Filosofia de Baruch Spinoza.
Dados acadêmicos:
Curriculum Lattes http://lattes.cnpq.br/7889784035115356
Blog: http://www.spinoza-einstein.blog.com

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3 pensamentos sobre “Reflexões sobre o conflito Israel-Hamas: será a operação israelense “capinar o mato” autossustentável?

  1. Roberto,
    Li com muita atenção seu artigo.
    Ele consolidou minha posição pró-Israel.
    O artigo muito bem escrito e com clareza . Uma aula de história.
    Este artigo deveria ser divulgado em outros meios de comunicação para que algumas pessoas não sejam influenciadas
    pela mídia, condenando Israel e santificando os palestinos.
    Mais uma vez, PARABÉNS!!
    Beijos
    Eliana

  2. Realmente, Roberto, estamos numa encruzilhada e como popularmente se fala, numa verdadeira “sinuca de bico”. É o tal negócio do “se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”… Que seja então, dos males, o menor. Pelo menos, aquele que nos garanta a segurança e a sobrevivência dos nossos irmãos e do Estado de Israel. Que aí neste caso, como você mesmo falou, seria a tentativa de negociação com a OLP do tal acordo de paz, ainda que para isso, seja preciso pagar o preço de algumas concessões e de ter a OLP como vizinha e no controle de Gaza. É a melhor solução, reconheço, não só para os israelenses, mas para os judeus do mundo todo, pois estamos sofrendo demais com os ataques do antissemitismo que cresce assustadoramente por toda a parte. Muitas vezes faz-se necessário perder alguma coisa, para se ganhar outra muito mais importante. Concordo totalmente com você.

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