Parashat Shoftim: Juízes e policiais, reis tiranos e feiticeiros em geral

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Não se desvie da sentença que lhe disserem, nem à direita nem à esquerda (Deut. 17:11)

Estamos no início da campanha eleitoral no Brasil, para a escolha de um(a) presidente, governadores e legisladores em geral. Entre os candidatos encontramos, por atacado, mensagens de esperança, de mudança do que está aí, de um olhar otimista para o futuro. Mas a linguagem utilizada tem, muitas vezes, tons que parecem destoar um tanto da realidade em que vivemos. Há quem diga que gostaria de dormir e acordar no mundo ideal preconizado pelos candidatos e candidatas.

Talvez experimentada com o mundo político, a Torá nos leva, esta semana, a uma situação na qual são apresentados juízes e policiais, reis e feiticeiros, astrólogos e adivinhos, agoureiros e profetas. Não me parece ser ao acaso que todos estes personagens apareçam juntos numa mesma porção semanal de estudos. Pode ser porque algumas vezes o potencial governante pode se ver a si mesmo como um salvador da pátria, com poderes sobrenaturais para resolver todos os problemas de um estado ou nação? Ou será que o povo muitas vezes deposita no seu candidato uma esperança que extrapola a noção de realidade?

Seja o que for, a Torá estabelece, antes de mais nada, a necessidade de termos juízes que estabeleçam a lei de modo mais do que justo e policiais que coloquem as leis em prática. As leis devem valer para todos, desde as pessoas do povo até o governante.

Aliás, em se falando de governantes – quem existe para quem: o governante é necessário para o povo ou o povo é necessário para o governante? Nós vivemos em sociedades nas quais a presença necessária de um rei, presidente, governador ou o nome que queira se dar é tida como fato consumado. Não é assim para a Torá. Nós lemos que somente se o povo disser “Porei sobre mim um rei, como o fazem todas as nações…” (Deut. 17:14) então Deus concordará que o povo de Israel tenha um rei. No entanto, este rei deve cumprir diversos requisitos: ser israelita; não multiplicar para si mesmo bens materiais; escrever duas cópias da Torá tendo os sacerdotes-levitas por testemunhas e não se desviar dos seus mandamentos nem para a esquerda nem para a direita, se é que pretende que o seu reinado tenha vida longa.

Um pouco mais adiante, a mesma parashá da Torá nos adverte para que não aprendamos a agir conforme as “abominações daquelas nações”. Em seguida lemos que um filho do povo de Israel não deve se submeter a adivinhos, astrólogos, feiticeiros, necromantes – “seja confiante Nele e então estarás com o Eterno seu Deus” (Deut. 18:13). Ei fico me perguntando se esta advertência também se estende ou não aos candidatos a um cargo público: no quanto estes não se apresentam como pessoas capazes de ler o futuro ou manipular a natureza das coisas, o que os levaria a prometer mundos e fundos aos seus eleitores. Dá para confiar? Tenho a impressão de a Torá, que é explícita sobre a proibição do uso dos serviços de adivinhos e congêneres, deixa nas entrelinhas o cuidado que devemos ter com nossos representantes políticos e com as esperanças que depositamos neles.
Maimônides, o grande rabino do século 12, entendia que Deus criou a Natureza e tudo o que há nela – e não mais do que isso. Portanto, para ele tudo o que é chamado de sobrenatural só existe na mente dos crédulos e, do ponto de vista objetivo, estas são expressões de avodá zará – “serviços estranhos” ou idolatria – e não devem ser levados em conta. O Rambam não se baseia apenas na tradição judaica e na Torá, mas justifica sua posição ao dizer que também os sábios gregos e persas viam estas práticas como mentirosas.

Por outro lado, outro grande sábio, Nachmânides, que viveu duas gerações após Maimônides, reconhece não só que estas práticas existem, mas que muitos sábios do povo de Israel acreditavam nelas, bem como em feitiços e em demônios – mas também que a Torá proibia o uso destas coisas, pois as pessoas que soubessem fazer uso destas forças sobrenaturais poderiam agir contra as leis naturais determinadas no mundo espiritual – e portanto, iriam contra os mandamentos de Deus.

De fato, Maimônides parece ser mais a exceção do que a regra no que diz respeito à crença nas forças sobrenaturais dentre os sábios do povo de Israel, seja na antiguidade, seja na Idade Média. Ainda hoje em dia não faltam rabinos nem figuras exóticas no mundo judaico – a exemplo do que acontece entre outros povos – que buscam manipular supostas forças sobrenaturais, muitas vezes de maneira profissional e em favor próprio.
Neste sentido retornamos às semelhanças entre governantes e pessoas que dizer portar poderes sobrenaturais. O que a Torá adverte, antes de tudo, é que suas ações se pautem pela justiça: “Tzedek Tzedek Tirdof – a Justiça, a Justiça você buscará” (Deut. 16:20) e que não acumulem riquezas em demasia. O governante ou pessoa que se considera detentora de um poder acima dos demais mortais, que governa em causa própria ou faz uso de seus dons paranormais ou econômicos em benefício próprio certamente não é uma pessoa que busca a justiça. Daí para buscar subornar os juízes, externar seu poder econômico como forma de influência ou ainda um suposto poder suprassensorial para alcançar seus objetivos não é preciso nem um passo. O governante e o dirigente corrupto e sem nenhum pudor e enganadores em geral da boa fé pública exigem, em princípio, uma sociedade com juízes honestos, que não façam distinção entre as pessoas, que não aceitem suborno, que não fiquem cegos diante dos encantos e encantamentos dos poderosos, para que não se subvertam as palavras justas.

Por fim, encontramos uma posição um tanto conciliatória no que diz respeito às forças sobrenaturais: o Gaon de Vilna (1720-1797) reconhece que estas forças existem – e ele se fundamenta nas fontes encontradas no Talmud, no Midrash e em muitas lendas judaicas – apesar da proibição bíblica do seu uso. O grande rabino, no entanto, entende que no caso específico de doenças, “simpatias” e medicamentos inspirados nestas forças podem ser utilizados para tratamento e cura desde que a pessoa enferma acredite que estes podem ajudá-la na sua recuperação. Afinal de contas, a Torá insiste na máxima “uvacharta bachaim”, “Escolha pela Vida”. Por outro lado, não me parece haver crença humana suficiente que nos permita ficar imunes nas mãos de reis, governantes e dirigentes desonestos, sejam eles de direita ou de esquerda. Para estes não há mágica que funcione – somente o voto bem usado – e confiar na honestidade dos nossos juízes e policiais. Para que a justiça e somente a justiça seja feita.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s