Sob a tenda de Sara

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Quantas vidas vivemos? Se vivemos como gostaríamos, ótimo; caso contrário, o que nos impede de viver como desejamos? E se o nosso destino foi traçado independentemente das nossas escolhas, qual é o sentido disso? O que fazer: procurar se adequar ao que parece ser o nosso destino ou tentar reescrevê-lo?
E o que dizer quando uma história de vida começa a ser contada a partir da sua morte? Somos informados pela Torá que Sara viveu 127 anos e morreu em Kiriát Arba – também conhecida por Chevron ou Mamré. Abrahão, seu marido, veio de algum lugar para velar e chorar a sua morte – e a vida continua.
Vida que segue
Qual vida continua, quais vidas? Aquelas que seguem sem a presença física de Sara, mas certamente sob a influência de suas ações enquanto viveu. Sara continuou vivendo nas vidas de Abrahão e de Isaac, filho do casal e, no limite, nas vidas de todos nós, seus descendentes, por seus exemplos e pelos resultados de suas decisões na vida. Assim são as vidas de todos nós. Além da vida de nossos dias, nossas vidas se prolongam nas de nossos familiares e amigos e, dependendo do caso, de um círculo muito maior de gente, de terras, quem sabe até de nações inteiras.
Sara teve dois homens na vida: Abrahão, seu marido, e Isaac, seu filho. Do primeiro foi mulher, esposa, cúmplice, companheira de viagem e de aventuras, mãe de um de seus filhos, disposta a todos os desafios que pudessem enfrentar juntos pela vida. Do segundo foi mãe, apesar de demorar a aceitar que isso fosse possível; amamentou, depois provavelmente brincou e se deliciou ao vê-lo sorrir, crescer, começar a andar, a falar – a viver.
Conta um midrash que Abrahão veio direto do Monte Moriá, da quase-morte de Isaac – quando por pouco não sacrificou o próprio filho – para velar e chorar a morte de Sara. Outro midrash conta que Sara morreu no mesmo instante em que Isaac estava para ser sacrificado no Monte Moriá, ao ser informada por Satã que seu filho havia sido morto de fato.
As vidas de Sara
Ao longo dos anos Sara deu a vida para viver ao lado do marido e com ele gerar um filho, com a expectativa de que este um dia se tornasse um povo; no fim, segundo o midrash, deixou a vida ao saber que seu filho não vivia mais – e com ele um mundo inteiro, o mundo judaico, potencialmente deixava de existir. Isso não aconteceu por um triz – estamos aqui, afinal de contas – mas foi por pouco, muito pouco. Isaac sobreviveu. Abrahão seguiu a vida. Sara partiu.
Quando jovens, Abrahão e Sara deixaram sua terra natal e suas famílias para trás – para onde não mais voltariam – e partiram em busca da Terra Prometida. Muitos anos depois, Abrahão faz seu servo jurar ir àquelas terras do passado para trazer uma moça da sua própria família que se casasse com Isaac, mas o servo levantou uma questão: e se a moça não vier, posso levar Isaac até lá? Posso levar o seu filho para conhecer as raízes da sua família? Abrahão respondeu com um veemente não: “Se ela não vier, você está livre da sua obrigação”, disse Abrahão ao servo. Trazer a moça da velha terra e de um passado distante para a nova terra do presente, sim; voltar àquela terra e ao passado, não. O passado pode e deve viver no presente, mas o presente não pode viver no passado nem do passado.
Esta também me parece ser a mensagem inerente às vidas de Sara. Conforme a Torá, ela viveu 100 anos, mais 20 anos, mais 7 anos. Cada uma das fases da vida nos enriquecem e são lembradas com carinho, mas não voltam. A vida passada de Sara se atualiza nas vidas presentes do marido e do filho. Principalmente Isaac, que vive com Rebeca um encontro que se reflete na vida de todos nós, condensado como parte dos ritos do casamento judaico. Rebeca ergue os olhos, vê o futuro marido, cobre-se um xale e põe os pés na terra. Isaac a leva para a tenda que era de sua mãe, expressa seu amor por ela, que por sua vez se torna sua esposa. O amor pela mulher que decide deixar sua terra e a casa de seus pais – como antes fizera Abrahão – para viver ao lado do marido é o maior amor que Isaac poderia ter após a morte de sua mãe. Sob a tenda, sob a proteção, sob as bênçãos das vidas de Sara, o povo de Israel será gerado.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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