Parashat Toldot: A herança dos patriarcas

Abrão foi chamado de Abrahão… Isaac foi chamado de Abrahão. Jacob foi chamado de Israel… Isaac foi chamado de Israel” (Bereshit Raba, Seder Toldot 63).

Quando nos deparamos com os patriarcas do povo de Israel, é comum colocarmos ênfase em dois deles: Abrahão e Jacob; Isaac costuma ser visto como um personagem de transição entre um e outro. O fato de Abrahão e Jacob receberem novos nomes ao longo de suas histórias, ao contrário de Isaac, aponta para uma transformação do caráter e papel daqueles em virtude de um desenvolvimento pessoal que influenciaria a história de todo um povo. Já Isaac parece não mudar: Isaac permanece sendo apenas Isaac.
Nossos Sábios não deixaram de notar essa discrepância. Será que Isaac também não teria passado por um processo de transformação pessoal e espiritual? Ou será que encarna a Síndrome de Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim”?
O início da nossa parashá parece indicar exatamente isso: “Estas são as gerações de Isaac filho de Abrahão. Abrahão gerou Isaac” (Gên. 25:19). Aparentemente, Isaac sempre foi passivo: ao contrário do pai, que fez a própria circuncisão para estabelecer o pacto com Deus, Isaac foi circuncidado com o mesmo fim. Enquanto Abrahão encontrou sua esposa Sara, Isaac se beneficiou da ajuda do servo de seu pai para encontrar sua esposa, Rebeca. Já no fim da vida é ela e não ele quem define qual filho deve herdar sua herança material e espiritual. De nada adiantou Isaac preferir Esaú, se Rebeca amava Jacob; mesmo sendo o mais jovem, foi Jacob quem recebeu a benção do pai (enganado e a contragosto) e, mais tarde, já chamado de Israel, deu o nome ao nosso povo.
Por outro lado, os antigos rabinos apontam que Isaac também foi chamado de Abrahão e, mais tarde, de Israel. Qual é o sentido disso?

Isaac é Abrahão
Assim como seu pai, Isaac teve o pacto com Deus registrado na Torá. Assim como Abrahão teve dois filhos, Isaac teve dois filhos. Assim como, na época da seca, Abrahão foi morar entre os filisteus em Guerar, cujo rei era Avimélech, e apresentou sua esposa como se fosse sua irmã para salvar a própria pele – com medo de ser morto para ficarem com sua mulher – assim também Isaac, na época da seca, foi viver em Guerar e apresentou sua esposa ao rei Avimélech como se fosse sua irmã, com medo de ser morto para ficarem com sua mulher.
As semelhanças, porém, param por aqui. Enquanto Avimélech foi advertido por Deus em um sonho que Sara era esposa de Abrahão, no caso de Isaac o rei soube que havia sido enganado ao vê-lo “brincando” com sua esposa. E diferente de Abrahão, que recebeu bens e dinheiro do rei antes de partir, Isaac teve que trabalhar na lavoura e no gado para formar seu patrimônio e só partiu porque sua prosperidade causou inveja aos filisteus. Isaac mudou-se para as redondezas e tornou-se um homem rico e poderoso, a ponto de o rei ir na sua direção para estabelecer um acordo de paz, após um conflito por poços de água.
Mas o que mais identifica Isaac com seu pai está registrado em duas diferentes passagens da Torá. Na primeira Isaac recebe de Deus a mesma benção dada a Abrahão: assim como este foi chamado de “pai de multidões”, também foi prometido a Isaac que “Eu estou contigo e te abençoarei e farei multiplicar tua descendência” (Gên. 26:24). Na segunda passagem, lemos: “E Jacob disse: Deus de meu pai Abrahão e Deus de meu pai Isaac…” (Gên. 32:10). Ora, Jacob não tem dois pais; logo, vê Abrahão e Isaac como a mesma pessoa; ou ambos com as mesmas características.

Isaac é Israel
O midrash justifica que Isaac é Israel a partir de uma leitura criativa do início do livro do Êxodo: “Estes são os nomes dos filhos de Israel que vieram ao Egito com Jacob” (Êx. 1:1). Segundo os nossos sábios, Jacob não vinha liderando os filhos de Israel, mas sim era parte dos israelitas. Logo, se Jacob é filho de Israel, Isaac, seu pai, é Israel.
Mas se fica óbvio que Isaac repete muitas ações de seu pai, a comparação com seu filho não é assim tão clara, ao contrário: Isaac preferia Esaú, o filho mais velho; era Rebeca quem preferia Jacob. Esaú, o caçador, o homem viril e impulsivo, parece ser tudo o que Isaac não era. Por sua vez, Jacob era mais caseiro, “morava em tendas”. O que torna Isaac identificado com Jacob?
Assim como Isaac era o segundo filho de Abrahão e, apesar disso, foi considerado seu sucessor, do mesmo modo Jacob era o segundo filho de Isaac e, ainda assim, foi considerado seu sucessor. Assim como Isaac quase morreu sacrificado por seu pai no Monte Moriá, mas sobreviveu, do mesmo modo Jacob quase morreu em uma luta noturna contra um homem, mas sobreviveu – e foi depois disso que passou a ser chamado de Israel. Portanto, Isaac se identifica com Jacob por também ter passado por uma experiência de quase-morte, o que o torna digno de também ser chamado de Israel.

Somos bnei Avraham, bnei Yitzchak e bnei Yaakov – somos bnei Israel
Como bnei Israel, filhos de Israel, poderíamos supor que herdamos somente a herança espiritual de Jacob; mas se assim fosse, deveríamos rezar apenas para o Deus deste patriarca. Porém em nossas orações – mais especificamente na Amidá – declaramos que o nosso Deus é o mesmo que o Deus de Abrahão, Isaac e Jacob. Como é rica e diversificada a nossa herança! Carregamos em nossos genes espirituais os erros e acertos não de um, mas de três patriarcas que, se somados às vivências de nossas matriarcas Sara, Rebeca, Lea e Raquel (além de Bilá e Tzilpá, de quem também descendemos), nos oferecem uma profusão de combinações que talvez possam explicar tantas tradições que insistem em não ter uma única fonte.
Isso faz de nós o Povo dos Debates, das discussões apaixonadas, do sem número de opiniões, costumes e práticas a partir de um mesmo tema. Esta é a herança que devemos passar aos nossos filhos. Assim, mesmo que eles não nos digam “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” e escolham viver de modo diferente do nosso – estará tudo bem. Uma geração ser diferente da outra é justamente o que nos identifica e nos faz judeus.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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