Drashá sobre Parashat Vaishlach

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

 

 

Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim.
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
e agora eu era um louco a perguntar:
o que é que a vida vai fazer de mim? (Chico Buarque)

 

Jacob finalmente deixa a casa de seu sogro Lavan para trás, mas ao partir é literalmente atingido por mensageiros de Deus. Já na estrada, envia mensageiros até Esaú, que retornam e relatam: “Fomos até seu irmão. Ele também vem na sua direção – e vem muita gente com ele.” Ciente de que, sendo o filho caçula, trapaceou e tomou de Esaú os direitos de primogenitura, Jacob teme a vingança do irmão e sente muito, muito medo, mesmo após tantos anos sem se encontrarem. Não que Esaú tenha lhe feito algo de mau ao longo desses anos. Nem os mensageiros de Jacob dão a entender, objetivamente, que o irmão vem ao seu encontro para atingi-lo. Por enquanto, Jacob só foi atingido mesmo por anjos de Deus. Contudo, certo de que o pior está por vir, Jacob rearranja todo o seu acampamento e o divide em dois. Ileso não escapará, isso é certeza. Seu destino – assim parece acreditar – está nas mãos de Esaú, vingativo, sedento para devolver com juros o dano que ele Jacob, o queridinho da mamãe, lhe causou no passado.

Por que Jacob sente tanto medo? Outra forma de perguntar é: de que Jacob sente tanta culpa? Ele já havia sido atingido pelos mensageiros de Deus ao sair da casa do sogro. Teriam sido estes os mesmos mensageiros que ele próprio enviou em direção a Esaú? Anjos de Deus, enviados à frente para levarem mensagens de paz e amor? E se nem anjos de Deus forem capazes de tamanha proeza? E se Esaú de verdade quiser mesmo é matá-lo e arrancar-lhe a cabeça com os próprios dentes?
Tenho a clara sensação de que Jacob somente projetava em Esaú suas próprias culpas e estava sendo perseguido por suas próprias paranoias. Ele se sente a mais insignificante das criaturas, incapaz até mesmo de, ao fazer suas preces, dizer “Meu Deus”. Deus é o Deus de Abraão e de Isaac, que foram dignos disso, mas não dele, Jacob. “Katonti, Eu me diminuí”, diz. Jacob se dá conta de que seus atos do passado não oferecem ameaça somente a si mesmo nem apenas ao seu patrimônio material, mas também à sua família, aos seus filhos, ao sentido do seu nome e à sua descendência no futuro. “Eu me diminuí dentre todas as bondades e entre toda a verdade que Tu fizeste…” Jacob intui que falhou no aspecto legal, pois não fez o era justo e certo; e no aspecto moral, ao não agir de acordo com o que se pode chamar de bondoso. Jacob, através dos próprios atos, excluiu a si mesmo de dois acampamentos: o da justiça e o da bondade. “Eu me diminuí”.

Há conserto para nossas culpas? Há conserto para os erros do passado, mesmo aqueles cometidos em um passado distante? A resposta é difícil: nem sempre. Há aqueles que simplesmente deixam para lá, na esperança de que as lembranças sejam aos poucos apagadas pelo tempo. Há aqueles que, conscientes ou não, dirigem suas vidas por caminhos que, mais cedo ou mais tarde, os levarão ao encontro com pessoas a quem atingiram no passado – e tanto temem o encontro quanto o aguardam. E há aqueles que se dão conta de que há dois acampamentos nos quais o acerto de contas com o passado precisa ser travado; no mundo externo e no mundo interno.

Conta-nos o Midrash: “[Jacob] os fez cruzar o rio” (Gênesis 32:24) – ele fez de si mesmo uma ponte que pegava daqui e entregava ali” [Bereshit Raba]. No caminho em direção a Esaú, Jacob fez de si mesmo uma ponte entre seu passado e seu futuro; entre o reconhecimento da culpa diante de Deus e diante de seu irmão; entre o reconhecimento e o enfrentamento da culpa; entre os tempos de irresponsabilidade e os de assumir a responsabilidade por seus atos.

“O mundo inteiro é como uma ponte estreita: o principal é não ter medo”, dizia Rebe Nachman de Breslav. Jacob teve um rio caudaloso de muitos medos, mas fez de si mesmo uma ponte, cruzou o rio e os enfrentou. Ele saiu ferido, é verdade. Mas foi assim que Jacob tornou-se Israel: aquele que enfrentou seus medos diante de Deus e dos demais seres humanos – e os venceu.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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