Parashá Vaishev

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

Quanto vale um sonho?
Quanto sonhamos e quanto deixamos de sonhar por conta dos compromissos diários ou da cobrança de outros para que tenhamos os pés no chão? Quanto é preciso abdicar dos sonhos para seguirmos vivendo? E quanto é possível seguir vivendo com os sonhos?

Irmãos… nem sempre é o que você imagina
Costumamos considerar os irmãos como mais do que amigos. Irmãos de sangue deveriam ser realmente pessoas nas quais poderíamos confiar plenamente e sempre contarmos com elas. Há comunidades religiosas e organizações beneficentes que tratam seus membros como irmãos, no mesmo sentido de serem parte de um grupo no qual se pode confiar.
No entanto, sabemos que nem sempre é isso o que significa ser parte de uma família e nem sempre aqueles que se dizem nossos irmãos são nossos melhores amigos. Há algum tempo uma pessoa que me parecia confiável lamentava, ou aparentemente lamentava, que eu não pude estar junto à nossa “família” em um grande encontro comunitário. Aquele que um dia me soava ser, com seu sorriso e abraço, um modelo de bondade, hoje se me apresentava como o representante de uma espécie de máfia: se eu não correspondesse àquilo que ele e seu grupo queriam de mim, mesmo que isso significasse desviar-se de tudo que eu acredito ser ético, eu deveria ser lançado ao poço. Contar meus sonhos a eles, em vez de apontar para a construção de um mundo de tikun olam, de um mundo melhor, significava a exclusão, a expulsão da família. Este “irmão” me dizia isso com palavras amenas e um olhar terno, um sorriso de muitos dentes e um discurso raso. Ah, esses irmãos… desde a época de José há irmãos como estes.

José e seus irmãos
José tinha 17 anos, onze irmãos e uma irmã. Israel o amava mais do que todos os demais – o que fez os demais irmãos o odiarem mais do que tudo. Enquanto trabalhavam no campo, José sonhava; ao sonhar, atraía ainda mais ódio, antes mesmo de revelar o conteúdo dos sonhos; pouco importava, aliás, o conteúdo dos sonhos: vindos de José, os irmãos os consideravam dignos de condenação por definição.
Em geral os sonhos são sonhados independentemente da nossa vontade. Ao contrário da vida consciente, o sonho se revela, não é revelado. E um sonho que se revela e não se conta é como uma carta aberta e não lida.
José era um sonhador, mas seus irmãos não o odiavam por ele sonhar. Eles o odiavam mesmo que não sonhasse. Passaram a odiá-lo mais por sonhar, mas o odiariam com a mesma intensidade se por acaso ousasse não sonhar: “Passaram a odiá-lo ainda mais, por seus sonhos e por suas palavras” (Gên. 37:8). O ódio não tem motivo. O ódio é estúpido porque, por não ter motivo de ser, inventa motivos, mente, calunia e gera mais ódio. No caso de José, este seria odiado por seus sonhos e por suas palavras, ou quem sabe, simplesmente porque era amado pelo pai. Aquele que odeia, odeia o amor ao outro que pensa que deveria ser seu, mais do que tudo.
Mesmo odiado, José continuava a sonhar. O sonho é involuntário, mas o ato de contar o sonho não é. José insistia em contar seus sonhos para quem quisesse e para quem não quisesse escutá-los – mesmo que quem os escutasse fossem seus inimigos, ainda que chamados de irmãos.

Embora sabendo que suas histórias despertavam tudo menos paz, Israel ordenou que o filho fosse até onde estavam os irmãos para saber se estavam em paz: era como enviar a presa direto para as garras do predador. José providencialmente perdeu-se no meio do caminho, mas o destino já estava traçado: dificilmente poderíamos dizer, como nos salmos, que seria muito bom e agradável os irmãos estarem novamente reunidos.
Os irmãos de José não estavam onde era esperado que estivessem – e por um instante poderíamos imaginar que o jovem de roupas longas e belas, protegido por Deus, escaparia de um destino cruel. Mas não; apareceu-lhe um homem sem nome e lhe apontou o local para onde seus irmãos foram. José foi ao encontro deles; ele iria onde quer que eles estivessem.

A trama para livrar-se de José
Antes que os alcançasse, a maioria dos assim chamados irmãos tramaram matá-lo – depois inventariam uma mentira qualquer para justificar a morte do jovem; com o tempo eles mesmos acreditariam na própria mentira, como costumam fazer certos grupos de “irmãos”. E o culpado pela própria morte seria o próprio José. José, o suicida; os irmãos, uns santos.
Um dos irmãos, porém, não se contentava em matar. Ele tinha mentalidade empresarial, talvez se considerasse um gênio enquanto pensava: que proveito haverá em matar José? Melhor simular sua morte, vendê-lo aos ismaelitas! José não faz o que esperamos dele? Vamos nos livrar dele e ainda faturar em cima, por que não? Ainda diremos que ele é que nos deve uma indenização – daí que o pagamento por vendermos o garoto como escravo é melhor recompensa do que deixarmos o garoto morrer no fundo de um poço qualquer. Assim age um suposto líder entre os “irmãos”… que bela família esta! Vamos imaginar: “José, ainda ontem estivemos todos nós, a nossa grande família, congregados e reunidos com alegria e danças. Que pena que você não esteve conosco, José, fiquei tão triste! Mas veja bem José, pare de sonhar, deixe de fazer o que você acha correto e faça o que a família acha que você deve fazer – assim esqueceremos o mal que você nos fez e tudo ficará bem!”
Mas José nunca deixou nem deixaria de sonhar. Com uma família como essa, até um poço seco seria mais seguro. Pelo menos ficaria livre das cobras, lagartos e demais espécies peçonhentas na superfície.
Os irmãos venderam José. Sim, José foi traído – esta é a verdade, o resto é conversa. Um dos irmãos, o mais bonzinho, contrariado, rasgou suas roupas em sinal de luto ao se dar conta do que os demais fizeram com o sonhador; mas ficou por isso. Como se diz em inglês, too little too late, fez muito pouco e já era tarde.
Ao saber da fraudada morte do filho, Jacob entrou em luto profundo. Com todo o cinismo, os demais “irmãos” e respectivas esposas foram consolá-lo – aliviados com o sumiço de José. Alguém assistiu ao musical “José e Seu manto Technicolor?” É lembrar-se da cara de cinismo dos irmãos cantando que “há mais uma estrela no céu”. Por eles, melhor mesmo seria que José sumisse de vez, morresse.

Mas José não morreu
Mesmo traído por seus irmãos e vendido para o chefe dos carrascos do Faraó, José tinha Deus ao seu lado e prosperou, apesar das óbvias limitações de sua situação: “A benção do Eterno estava em tudo o que ele tinha, na casa e no campo” (Gên. 39:5). Assim como sua mãe Rachel, José era belo de porte e de rosto. Sua inteligência e integridade lhe valeram a confiança de seu senhor, mas também atraiu os desejos da esposa do Potifar. Recusada, ela o acusou de assédio; mais uma vez José tinha o ônus da prova invertido. Mais uma vez o sonhador teria que reverter uma situação injusta.
Mesmo uma vez exilado e agora encarcerado, José seguiu fiel a seus valores. Continuou sonhando e, mais do que isso, aperfeiçoou-se e foi ainda mais longe: agora era capaz de interpretar os sonhos de outros e demonstrava liderança por onde quer que passasse. José era hábil em compreender o contexto em que se encontrava, o que provavelmente garantiu sua sobrevivência. Ao salvar a pele do copeiro do Faraó, imaginou conquistar um amigo, um irmão de verdade; mas assim que se viu livre do cárcere e retomou seu posto na corte do Faraó, “o chefe dos copeiros não se lembrou de José e o esqueceu” (Gên. 40:23).

Os irmãos e José – ou Caim e Abel?
A história de José pode nos apontar uma realidade dura: nem sempre aqueles que são nossos irmãos – nossos irmãos de fé, irmãos de um mesmo povo, de uma mesma congregação, de uma mesma organização – são de fato nossos irmãos. Alguns deles se consideram mais poderosos, mais experientes, mais qualquer coisa. Dizem ser nossos irmãos, mas alguns deles não pensam duas vezes em vender os Josés entre nós e ainda culpá-lo por seu próprio destino, sem nem limparem as bocas para dizer, em seguida, que um irmão não pode ir contra outro irmão; Caim acusando Abel.
Se a história parasse nesta porção semanal da Torá, eu diria que não há motivos para otimismo, ao contrário. Estamos falando de filhos de Israel voltando-se contra um de seus irmãos porque este foge ao esperado, rejeita e acusa o establishment e parece merecer o fundo do poço – ou melhor, merece ser vendido. Lembra-me a dura história rabínica de Kamtza e bar Kamtza, quando Bar Kamtza, mesmo humilhado por um destes que se consideram muito poderosos, encontrou entre seus pares nada além do silêncio e da omissão.
No entanto, nós conhecemos como a história avança. Um dia José irá se reencontrar com os “irmãos”. Poderia tratá-los como mereciam, mas irá preferir mudar o rumo da história. É o sonhador, e não os “irmãos”, quem redime a história de Israel.

Rabino Uri Lam
SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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