Drashá sobre Parashat Miketz

Rabino Uri Lam

Rabino Uri Lam

A festa acabou,  a luz apagou,  o povo sumiu,  a noite esfriou,

e agora José?  E agora você?

(…) Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar,

sem cavalo preto que fuja do galope, você marcha, José! José, para onde?

(Carlos Drummond de Andrade)

 

José, ah José. O menino de muitos sonhos e feliz, que saía aos campos para contá-los aos irmãos. Jacob admirava-se tanto com os sonhos de José que o presenteou com um manto de algodão cheio de listras. Seriam coloridas, como as de José e Seu Manto Technicolor?

José, o jovem hebreu cujos sonhos provocaram a reprovação de seu pai e a ira dos irmãos. Por conta de seus sonhos, José foi jogado no poço e por muito pouco não morreu de sede, ou devorado por um animal selvagem. Vendido como escravo pelos próprios irmãos, José logo deu a volta por cima e se tornou o braço direito do chefe dos carrascos. José, o sonhador, aprendia a ser carrasco.

Foi então que José foi lançado ao inferno pela segunda vez. Acusado de assediar a insinuante mulher de Potifar, seu chefe, José foi preso, mas também lá se tornou o homem de confiança dos carcereiros. Lá deixou de ser sonhador para se tornar intérprete de sonhos. Interpretando sonhos, salvou a vida do copeiro acusado de tentar matar o Faraó. Inocentado, o copeiro deixou a prisão – e esqueceu-se de José. Tão comum.

E agora, José? Será o fim da história?
A volta por cima

Hoje é dia de falar dos sonhos do Faraó. O que perturba o sono do homem forte do Egito, que seus magos não ousam contar, nem seus sábios dizem algo que valha a pena? O Faraó dorme, sonha e desperta sobressaltado. Sete vacas saudáveis saem de dentro do Nilo e pastam tranquilamente no prado. Mas logo são devoradas por sete vacas magras. O que isso significa? Faraó que é Faraó não liga para sonhos. Mas aí vem um novo sonho: sete espigas boas, apoiadas numa única haste, são engolidas por sete espigas magras, que vieram carregadas com o vento, de todo lugar, de lugar algum. Quando sábios e magos egípcios falham em explicar, vem o chefe dos copeiros, até há pouco acusado de traição, esperando a morte chegar. Pois o copeiro se aproxima com humildade e diz: “Caro Faraó, meus pecados faço lembrar hoje!” e conta sobre como José, o hebreu, salvou sua vida, e de como ele foi ingrato e o esqueceu na escuridão da prisão. José é resgatado, lhe dão roupas novas. Nada ingênuo como uma túnica de algodão cheia de faixas dada por seu pai. José se apresenta ao Faraó. E agora José? O que dizer ao Faraó? Talvez dizer a verdade signifique a morte, como propõem alguns midrashim. Mas dizer a verdade pode significar a única chance de sobreviver como José, de continuar a ser o José que sonha com as estrelas.

José interpreta os sonhos de modo econômico: sete anos de fartura irão se desfazer em sete anos de seca. O governo egípcio irá entrar em crise econômica se não se preparar para a época de vacas magras. Este é o sentido dos sonhos, diz José. A interpretação poderia ter sido outra. José poderia dizer que a fartura dos príncipes egípcios contrastava com a pobreza dos súditos, e que em sete anos haveria uma revolução popular que acabaria com os tempos de vacas gordas. Mas José não disse isso, talvez porque nossa história se passa há mais de 3.500 anos no Egito, e não na França do século 18.

José, o sonhador, havia morrido. Em seu lugar surgiu José, o sobrevivente. José interpretou os sonhos do Faraó de um modo que o tornou não o queridinho do papai, nem o mordomo do chefe dos carrascos, mas sim o segundo homem forte do Egito. José deixou as grossas roupas de algodão com faixas no passado e vestiu as finas roupas de linho egípcio, adornadas por um enorme colar de ouro no pescoço. José perdeu até o nome: José agora era o temido Tsafnat Panêach. E agora José? José, para onde?

Estamos em plenos dias de Chanuka, quando recordamos a dura luta dos macabeus para manter a identidade judaica diante da opressão da cultura helenista. Nesta mesma época lemos na Torá como o hebreu José se tornou praticamente um egípcio. Sua esposa era egípcia, seus filhos eram egípcios. Seu novo nome era egípcio.

Foi quando, devido à fome, os seus irmãos desceram ao Egito. José os reconheceu – e os maltratou, por tudo o que passou nas mãos deles e por causa deles. Mas no momento em que os escutou conversando não no idioma egípcio, mas na sua língua materna, quando seus irmãos falavam de teshuvá, de arrependimento, algo tocou o coração de José. José os entendeu. E José chorou. O José que sonhava com as estrelas, que usava roupas grossas e coloridas como as dos hippies dos anos 60 e 70, o José que gostava de caminhar pelos campos, que foi jogado no poço por conta de seus sonhos, José que aprendeu a interpretar a realidade nos momentos mais duros – José que se tornou um homem de coração de pedra como o do Faraó – José começou a trilhar o caminho de volta.

Conta uma história que, ao ser questionado do que tinha mais medo ao morrer e ter que prestar contas de sua vida, Rabi Zuzia respondeu: “não tenho medo que me perguntem por que não fui como Moisés, ou por que não fui como Abrahão, ou por que não fui como rabi Akiva: tenho medo que me perguntem: Zuzia, por que você não foi simplesmente Zuzia?”

E agora, José? Chegou a hora de voltar a ser José.

Chag Urim Sameach, feliz Festa das Luzes, que todas estas datas festivas venham a nós para o bem e somente para o bem.
Rabino Uri Lam

SIB – Sociedade Israelita da Bahia

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