Drashá sobre Parashat Bô

Rabino Uri Lam, SIB janeiro 2015

Envia meu povo ou Deixe meu povo ir?

Uma canção tornou-se famosa na voz do grande Louis Armstrong, no melhor estilo gospel americano: Let My People Go. Dizia a letra (em tradução livre):

Desça Moisés, desça à Terra do Egito e diga a todos os Faraós: Deixe meu povo ir!
Quando Israel estava no Egito (Deixe meu povo ir!) Tão oprimido que mal podia suportar (Deixe meu povo ir!)
Então Deus disse: Desça, Moisés, à terra do Egito. Diga a todos os Faraós: Deixe meu povo ir!
Então Moisés foi ao Egito (Deixe meu povo ir!) E fez com que todos os Faraós entendessem (Deixe meu povo ir!)
Sim, o Eterno disse: Desça, Moisés, à terra do Egito.
Diga a todos os Faraós: Deixe meu povo ir! Assim falou o Eterno e Moisés enfatizou (Deixe meu povo ir!)
Senão ferirei seu primogênito de morte (Deixe meu povo ir!)
O Eterno Deus disse: Desça, Moisés, à terra do Egito. Diga a todos os Faraós: Deixe meu povo ir!

Há alguns dias acompanhei uma discussão em que um rapaz desdenhava da canção ao dizer que a expressão “Deixe meu povo sair” não era a letra da Torá. E de fato não é. Na Torá está escrito “Shalach amí, Envia meu povo para que Me sirva” (Êxodo 10:3). No entanto, não deixa de ser o mesmo. A famosa canção é uma interpretação fiel ao texto bíblico. Mais do que isso: a canção de autor desconhecido diz que Moisés foi ordenado a falar com todos os faraós para que deixassem o seu povo sair. Mas Moisés estava diante de um único Faraó. E agora? E agora que a canção inspira-se no texto bíblico para denunciar todo tipo de opressão contra todos os povos, por todos os faraós de todos os tempos.
 
A negociação

Há situações na vida que pedem por uma negociação. Quando duas pessoas negociam algo, cada um se propõe a ceder um pouco até que alcancem um acordo satisfatório para ambos. Mas há situações na vida que não permitem negociação. A liberdade é uma delas. Não existe mais ou menos livre. Moisés diz ao Faraó: “Envie meu povo!” o Faraó responde que permite somente que os homens saiam para servir ao seu Deus no deserto. Moisés responde – e bem: “Iremos com nossos jovens e com nossos velhos; com nossos filhos e com nossas filhas; com nossos rebanhos e com nosso gado”. (Êxodo 10:9) O Faraó se recusa a deixar os israelitas partirem.

Assim são todos os faraós. Chefes que se consideram líderes, mas não passam de chefes. Chefes que se consideram deuses, mas não são mais do que chefes. Gente que considera razoável manter outra gente em condição servil, que pensa que pode mandar e desmandar, que pode ganhar o outro com elogios superficiais e cínicos e que pode punir caso sinta-se desobedecido. Faraós há em toda cultura. Egito, Mitzraim, é a metáfora para a estreiteza de instituições ultrapassadas e endurecidas com seus dirigentes arrogantes, enfurnados em suas salas e em seus pensamentos delirantes, mas sem contato com a realidade lá fora.

Moisés olha para todos os faraós e diz: com você não há o que negociar. Você não quer ceder em nada. “Não notaste que o Egito está perdido?” (Êxodo 10:7). Liberdade não se negocia. E assim veio a oitava praga, a dos gafanhotos, que devoraram o patrimônio do Egito.

Em seguida veio a nona praga, a escuridão. Ninguém via ninguém a um palmo de distância. O Faraó, que já era cego à realidade que o cercava, agora não enxerga nem mais a si mesmo. E faz nova proposta a Moisés: podem partir os homens e as crianças, mas os animais ficam. Moisés se recusa a aceitar: “Não ficará um casco!” (Êxodo 10:26). Furioso, o Faraó expulsa Moisés e o ameaça de morte. Moisés não se intimida e segue adiante.

Hoje em dia poderia haver gente que condenasse Moisés. Como assim Moisés? Enfrentando o Faraó? Que lhe tratou tão bem? Você é ingrato ao Egito, Moisés! Nós lhe demos tudo! Agora você parte assim e quer levar todos os seus consigo? Todos os que são da “diretoria do Faraó” condenam Moisés. Muitos deles certamente conviveram com ele nas cortes egípcias e alguns o admiravam ou se consideravam seus amigos. Mas entre o gago Moisés e o poderoso Faraó, os “amigos” ficaram com o Faraó. E Moisés ficou com seus valores e com seu povo.

Finalmente veio a décima praga. Morrem todos os primogênitos do Egito, incluído o filho do Faraó, seu provável sucessor no cargo. Faraó deve ter ensinado ao filho a arrogância do poder, do cargo. Deve ter dito ao garoto que perder é vergonhoso, que nesta vida só se deve vencer, mesmo que através da opressão, do engano e do jogo sujo. Este garoto agora está morto.

Moisés sai com todos: homens e mulheres, jovens e velhos, pessoas e animais.

“Deus falou a Moisés e a Aarão… Que este mês seja para vós o princípio dos meses; seja ele para vós o primeiro dos meses do ano” (Êxodo 12:2). O mês da liberdade é o primeiro mês do ano bíblico. Não o mês da criação do ser humano, nem o mês agrícola, tampouco o mês fiscal ou da criação do gado. O primeiro mês, inegociável, é o mês da liberdade. Na lua cheia do mês da liberdade irá se comemorar Pessach. No mês da primavera. Porque as flores não pedem para sair e florescer; elas simplesmente florescem.

“E quando teu filho amanhã te perguntar dizendo: Que é isso? Dirás a ele: Com mão forte o Eterno nos tirou do Egito, da casa dos escravos” (Êxodo 13:14). Com mão forte inicia-se o mês da liberdade, o mês da primavera. E quanto ao Faraó? É como cantou Louis Armstrong: “Diga a todos os Faraós: Deixe meu povo ir!” Porque o que tem de Faraó ainda por aí… mas graças a Deus, também há muitos e muitas Moisés.

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