Parashat Yitró

Parashat Ytro

Rabino Uri Lam, SIB, fev 2015

Ela é a árvore da vida para os que a ela se apegam; feliz daquele que dela se aproxima. (Provérbios 3:18)

Por que as palavras da Torá foram comparadas a uma árvore?… Para ensinar que assim como uma pequena árvore pode acender uma grande, do mesmo modo pequenos estudiosos podem ensinar os grandes. (Talmud, Taanit 7a)

Só se adquire Torá em grupo (Talmud, Brachot 63b)

 

Primeira Aliá

Ao escutar sobre como Deus tirou o povo de Israel do Egito, Yitró, sogro de Moisés, levou até ele sua esposa Tzipora e seus dois filhos, Guershon e Eliezer. Feliz com o encontro, Moisés cumprimentou o sogro e o beijou, contando-lhe pessoalmente sobre como Deus os livrou do jugo do Faraó. Yitró declarou: “Agora sei que o Eterno é grande, mais do que todos os deuses” – e ofereceu sacrifícios a Deus. Aarão e todos os anciãos de Israel vieram comer com Yitró diante de Deus.

Curioso como Moisés nem se dirige à esposa e filhos, mas somente ao sogro. Homem importante, Yitró ainda desfruta de recepção digna de um grande líder, embora se comporte com humildade diante de Moisés e com extrema gentileza. Yitró atua na retaguarda de Moisés, para que este possa ter condições de levar seu povo a um grau mais alto de espiritualidade.

Interessante também destacar que Yitró não era israelita. Sacerdote de outro povo, sua relação com Moisés sempre foi de acolhê-lo. Yitró é, por assim dizer, a árvore que dá sombra a Moisés e da qual nosso maior mestre extrai os melhores frutos: além de se casar com Tzipora, adquire conhecimento e sabedoria da boca do sogro.

Segunda Aliá

Moisés julga o povo, um a um, sem método, de modo ineficaz. Ao observar a cena, Yitró o aconselha a delegar poder, escolhendo para si homens com as seguintes características: capazes; tementes a Deus; de confiança; e que odeiam tirar lucro.  Somente com estas características alguém poderia servir como parceiro de Moisés para julgar as as causas do povo.

Fico aqui pensando: temos entre nós, em nossas comunidades, gente capaz, gente temente a Deus, gente de confiança e gente que odeia tirar lucro, ou seja, que não suporta tirar vantagem de outros nem aceita qualquer tipo de suborno. O difícil é encontrar uma pessoa que acumule todas estas qualidades.

Vejo em outros lugares por onde passei líderes de dar dó: gente capaz, mas não temente a Deus – pois se fosse não agiria com tanta frieza de injustiça com outros seres humanos e não desrespeitaria a máxima regra da Torá, segundo Rabi Akiva: “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Daqueles mesmos lados conhecemos pessoas tementes a Deus, mas que não inspiram confiança; e ainda pessoas capazes de julgar, mas que não veem mal em aceitar suborno, o que acaba por entortar e por fim destruir a capacidade de justo juízo. Ah, Yitró, que missão difícil você passou a Moisés!

Terceira Aliá

Moisés faz exatamente como Yitró aconselhou e foi bem sucedido. Neste momento ele se despede do sogro, que retorna à sua terra. Alguns dizem que Yitró retornou para contar ao seu povo que o Deus de Israel é maior do que os demais deuses e que é o momento de se integrarem ao povo de Israel – um equivalente à conversão ao judaísmo hoje em dia. O interessante é que esta conversão em massa, aos olhos dos antigos sábios de Israel, teria sido levada a cabo por um não judeu (ou no máximo um recém convertido). Isso me parece contradizer a máxima moderna, nos meios judaicos, de que o judaísmo nunca foi proselitista ou de que escancarar as portas do povo judeu àqueles que desejam ser parte dele não deve ser a nossa prática.

Cada vez mais tenho a impressão de que, ao agirmos do modo como agimos hoje, estamos indo na contramão do que realmente o judaísmo se propõe a ser: uma luz entre os povos. E a luz, ao iluminar, torna aqueles que dela se beneficiam parte de um mesmo grupo. “Só se adquire Torá em grupo” (Talmud, Brachot 63b). Não importa se nascidos de ventre judaico, se descendem de judeus do passado ou  se são parte de outros povos, como o de Yitró. Em algum momento da história parece que mudamos os paradigmas; está na hora de mudarmos de novo, de volta para o passado, para podermos garantir nossa existência no futuro.

Quarta Aliá

Passaram-se três meses desde que o povo de Israel deixou o Egito. Em meio ao deserto, junto ao Monte Sinai, Deus diz a Moisés para transmitir Suas palavras: “Se vocês ouvirem atentamente Minha voz e guardarem Minha aliança, serão para Mim o tesouro de todos os povos, porque toda a terra é Minha! Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e um povo santo” (Êxodo 19:5-6)

No meio do deserto. Nem Egito, nem Israel. Nem somente tribos de Israel, mas sim povo de Israel: formado por gente das tribos, por gente trazida por Itró, por membros de outros povos que saíram conosco do Egito. Toda a terra é de Deus – o tesouro de todos os povos não é aquele pertencente a uma etnia, mas sim formado por gente de toda a terra que decidiu fazer o que Deus falou, decidiu firmar uma aliança com Deus e cumprir os mandamentos que fazem parte desta aliança.

A mensagem ancestral da Torá soa anacrônica aos ouvidos tradicionalistas, soa libertária a outos ouvidos, soa revolucionária até. Quase podemos escutar Ben Gurion dizendo: “Quem for louco o bastante para se afirmar judeu já é bastante judeu para mim”.  Afirmar-se judeu não me parece suficiente; mas agir como judeu me parece a maior parte do caminho a ser trilhado. Ao sermos um reino de sacerdotes, destruímos todas as hierarquias, pois nos tornamos todos iguais. Portanto, sejamos todos cohanim! Somos todos iguais, homens e mulheres, filhos de quem formos.

Quinta Aliá

Ao escutar de Moises o que Deus queria que escutasse, o povo respondeu: “Tudo o que o Eterno falou, faremos!” Começam as preparações para a Entrega da Torá: em três dias o Eterno descerá aos olhos de todo o povo sobre o Monte Sinai. Logo pela manhã, trovões e relâmpagos, um som de shofar ensurdecedor e uma nuvem pesada sobre o monte prenunciavam os Dez Pronunciamentos. O Monte Sinai fumegava quando Deus apareceu sobre ele em fogo. Moisés subiu o monte. O povo, proibido de subir, observava o grande evento a uma distância segura, embora apavorante.

Sexta Aliá – Os Dez Pronunciamentos
Moisés desceu ao povo e lhes disse as palavras de Deus. Conhecidos como Dez Mandamentos, o primeiro deles é: “Eu sou o Eterno, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa dos escravos” (Êx. 20:2). O segundo mandamento é: “Não terás outros deuses diante de Mim…pois Eu sou o Eterno teu Deus…” (Êx. 20:3-6).

A Guemará (Talmud) ensina que os israelitas escutaram estes dois primeiros mandamentos diretamente de Deus. A questão se torna ainda mais interessante quando, levando-se em conta a convenção de que a Torá compreende 613 mitzvot (mandamentos), verificamos que as letras hebraicas da palavra Torá, a Lei de Moisés, somam 611 (Tav 400 + Vav 6 + Reish 200 + Hei 5 = 611). Os dois primeiros mandamentos/pronunciamentos, ditos diretamente por Deus ao povo, somam-se aos demais 611 para formar as tradicionais 613 mitzvot.

Sétima aliá

Atordoado, o povo via trovões, assim como as tochas, o som do Shofar e o monte em fogo. Com muito medo, pedem que Moisés sirva de intermediário entre Deus e eles. Moisés responde que não precisam ter medo, mas sim temor – para que não pecassem. Qual é a diferença entre medo e temor? Este tema merece uma longa discussão, mas em poucas palavras espera-se daqueles que estabeleceram uma aliança com Deus que a mantenham não por medo da punição, mas por respeito e reverência ao acordo firmado.

Costumamos ler em muitas sinagogas, na entrada ou com dizeres sobre a Arca Sagrada: “Saiba diante de quem você está”. Quando uma pessoa nos diz algo assim ou dá a entender que devemos saber “diante de quem estamos”, isso é arrogante e asqueroso. Pode ser a arquiteta que busca intimidar o guarda de trânsito ou pode ser um dirigente religioso tentando intimidar um fiel ou outro membro da comunidade, ancorado simplesmente no cargo que ocupa. A tentativa de intimidação de um ser humano por outro deste modo é lamentável.

Por outro lado, quando estamos diante de Deus, devemos saber que estamos diante Daquele com quem estabelecemos uma aliança e Sua Presença nos lembra do nosso papel no acordo. Não devemos ter medo de Deus; mas devemos, sim, respeitá-lo.

É assim que eu, particularmente, me vejo temente a Deus: no sentido do respeito, da reverência, não do medo. Deus não me bota medo. Tenho medo dos supostos poderosos que agem de modo inconsequente e irresponsável com base no poder que acreditam ter. Não tenho medo de Deus porque acredito que Ele é um Rei justo e um pai misericordioso.

Deus não se chama Joel, Miriam, Moisés, Jorge ou o nome que for, nem é diretor, faraó ou ministro. Deus é o Eterno, a Existência, a Fonte da Vida à qual devemos respeito., não medo: “Não terás outros deuses diante de Mim; não temais” (Êxodo 20:3,17).

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