Drasha sobre Parahat Mishpatim

Parashat Mishpatim

Rabino Uri Lam, SIB

Nossos antigos rabinos dividem as mitzvot em três categorias:

Mishpatim: sentenças legais ditadas pela razão, cujas regras para cumprimento, ainda que estejam registradas na Torá, podem ser alcançadas por outros meios. Exemplos: leis que regulamentam a punição para crimes de assassinato e roubo.

Eduiot: preceitos que nos ordenam comemorar eventos como descansar no Shabat, comer matzá e não comer chametz em Pessach ou sentar-se na suká em Sukot. A comemoração ritual destes eventos faz com que entremos em contato com uma dimensão mais espiritual em nossa relação especial com o divino e com a própria história do nosso povo.

Chukim: decretos divinos que nos obrigam a cumprir preceitos cuja razão está além de nossa compreensão.
Na porção de leitura da Torá da semana passada entramos em contato com mandamentos da ordem do racional (não matarás), da ordem do ritual (lembra-te do dia do Shabat) e, podemos ver deste modo, da ordem do suprarracional: (Eu sou o Eterno teu Deus… não terás outros deuses diante de mim). Claro, tudo isso está sujeito a discussão e a diferentes visões espirituais.

Mot Yumat – sentenças “racionais” que condenam à morte morrida

Um episódio hilário do seriado humorístico israelense “Haiehudim Baim” (Os judeus estão chegando) coloca judeus religiosos diante do Kotel, o Muro das Lamentações, cantando passagens da nossa porção semanal em tom de heavy metal e gritando “Mot Yumat”, que bem poderia ser traduzido como “morrerá de morte morrida”, ou seja, quem comete determinado delito recebe sentença de morte sem nenhuma dúvida.

O programa de humor coloca em discussão justamente as  mitzvot conhecidas como mishpatim, sentenças lógicas, ditadas pela razão. Contudo, ao lermos com mais cuidado, o que é considerado racional para uma época pode ter se tornado inadequado para outra. Exemplo: “Aquele que ferir um homem e o matar certamente será morto” (Êx. 21:12). Hoje em dia, o estado que decidir levar uma sentença dessas ao pé da letra será considerado muito cruel. Quem ferir e matar, em geral será levado a julgamento e cumprirá algum tipo de pena; mas não necessariamente a pena de morte. Em geral, aqueles que defendem pena de morte são considerados fundamentalistas, ou seja, presos literalmente a fundamentos religiosos sem levar em consideração o contexto histórico em que vivemos. Até mesmo em países considerados desenvolvidos, como nos EUA, a pena de morte ainda vigora em certos estados, refletindo visões religiosas ainda impregnadas na cultura local. O fundamentalismo, portanto, não é “privilégio” de grupos terroristas desta ou daquela nação ou religião.

É possível ser fundamentalista e ser racional?

Não, não e não e mais uma vez não! Certa vez fiquei pasmo, ao escutar de um dirigente comunitário, que ser fundamentalista não significa necessariamente ser um religioso radical. Para ele, em termos gerais, depende dos fundamentos aos quais o grupo religioso se baseia. Assim, por exemplo, um grupo religioso poderia ser denominado fundamentalista e ainda assim conectado com os tempos modernos, pois seus fundamentos seriam, por exemplo, direitos iguais entre homens e mulheres. Se por um lado fiquei constrangido por alguém dito “liberal” dizer algo deste teor, por outro fiquei aliviado em ver que meu constrangimento se uniu ao estupor de boa parte dos presentes. No final, a afirmação que se pretendia inteligente e liberal foi colocada de lado, diante do nível mais elevado dos debates que ocorriam.

Pois até mesmo se este fosse o fundamento, dependendo de como o indivíduo ou grupo se aferra a esta igualdade, sua postura com quem pensa um pouco diferente que seja pode ser na prática tão fundamentalista quanto a de outros grupos presos a valores medievais. O radicalismo do discurso acaba se traduzindo em uma agressividade idêntica à dos grupos mais violentos, apenas travestida de modernidade – assim como certos grupos defensores de “direitos humanos” e da “democracia” agem de forma tão agressiva quanto outros que se dizem contrários aos “direitos humanos” e a favor de regimes totalitários.

Não oprimir o guer: o convertido. Isso é Lei, meu amigo!

Por duas vezes a parashá Mishpatim alerta para não oprimirmos o guer, antigamente considerado o peregrino; hoje identifica-se o termo com aquele que se converte ao judaísmo e passa a fazer parte do nosso povo. Quem tem experiência com guerim (convertidos) sabe que, em boa parte, são pessoas determinadas a viver o judaísmo de modo pleno, com grande senso de kavaná (intenção e direcionamento). Acontece que muitas vezes estes carregam consigo um modo de falar ou de agir que recorda sua vivência anterior entre outros grupos religiosos; e mesmo que tenha estudado e praticado as leis e costumes judaicos, muitas coisas lhes escapam – pois só serão ganhas com o tempo de convivência. Por outro lado, é comum em diversas comunidades que tenhamos pessoas incomodadas com a presença destes “novos judeus”. Este não é um privilégio da minha comunidade nem de outras, no Brasil, em Israel ou no resto do mundo.

Provavelmente por experiências como estas serem muito antigas e comuns em outros lugares, a Torá insiste, duas vezes esta semana e mais outras dezenas de vezes ao longo de seu texto, que não devemos oprimir o guer nem fraudá-lo; “porque fostes peregrino na terra do Egito… pois conhecestes a alma do peregrino, porque fostes peregrino na terra do Egito” (Êx. 22:22, 23:9).
Naassê venishmá! Faremos e Ouviremos – a boa comunicação

Por fim, a Torá nos conta outra versão da entrega da Torá a Moisés no Sinai diante do povo de Israel. Moisés foi e contou ao povo todas as palavras e leis de Deus e o povo respondeu em uníssono: “Faremos todas as palavras que o Eterno falou!” Moisés então escreveu todas as palavras de Deus, tomou o Livro da Aliança, leu aos ouvidos do povo que respondeu, confirmando o que já haviam dito antes: “Faremos e ouviremos tudo o que o Eterno falou!”

A Torá foi transmitida de diversos modos: oralmente, por escrito, lida. Hoje em dia a Torá segue sendo transmitida de diversos modos diferentes. Somado aos clássicos já citados, hoje aprendemos Torá pela internet, através de vídeos e podcasts; em linguagens adequadas a jovens, crianças, adultos, religiosos e não religiosos. Também o teatro, o cinema e as artes em geral são instrumentos modernos para ensinar Torá. A boa comunicação alcança nossos diversos sentidos em diferentes momentos. Assim a Torá nos envolve e passa a fazer parte das nossas vidas e da nossa identidade. Então vamos continuar: faremos e ouviremos e faremos e ouviremos, continuamente.

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