Parashat Tetzavê: O sagrado está na relação

Rabino Uri Lam, fev. 2015

 

Rabi Chanina disse: “Virá o santo e entrará no que é santo, irá se aproximar do que é santo e expiará em favor de todos os santos”. (Midrash Raba: Tetsavê 38, 7)

Impressionante a capacidade de se resumir uma porção da Torá em uma oração. Mais impressionante é como os antigos rabinos sabiam atiçar nossa curiosidade para a leitura da Torá. Afinal, do que Rabi Chanina está falando? Desde quando temos santos no povo judeu?

A questão da santidade é parte integrante da vida judaica. Rezamos todos os dias na Amidá, principal oração dos serviços religiosos, a Kedushá: “Kadosh, Kadosh, Kadosh, Ad-o-nai… – Santo Santo Santo é o Eterno…” (Isaías 6:3). Não é incomum escutarmos de algumas pessoas que seu intuito é ter uma vida santa. Como se faz isso? Um amigo e ótimo hazan me disse uma vez: “Os rabinos têm uma enorme capacidade de criar boas perguntas, mas em geral não têm boas respostas”.

E o que nos conta a Torá? Deus diz a Moisés para ordenar aos israelitas: “Tragam o mais puro azeite para manter acesa a luz no Ohel Moed (Tenda da Reunião)”. Em seguida a leitura se concentra nos kohanim, os sacerdotes. Quais devem ser suas vestimentas, como devem vesti-las, como devem se portar. Tudo parece centrado neles como se coubesse apenas ao líder religioso levar uma vida inspirada pelo sagrado: “E as vestimentas de santidade de Aarão depois serão para seus filhos… e serão consagrados com elas” (Ex.29:29). Alguns hoje em dia realmente pensam que podem e devem delegar a vida religiosa ao rabino: a eles tudo; ao rabino a lei.

Em diversas tradições, o líder religioso é investido pela comunidade de uma condição especial. Alguns o chamam de pastor, outros de homem de Deus, sábio, guru, mestre. Atribui-se a eles uma espécie de poder mágico, a capacidade de intervir junto a Deus em favor dos demais. Também entre nós, no povo judeu, esta prática é adotada, às vezes integralmente, às vezes em parte.

Pois surge Rabi Chanina e diz que ninguém é santo sozinho. O rabino do Talmud estende a condição do sagrado da terra até os céus: “Virá o santo – Aarão; e entrará no que é santo – o mikdash (santuário); se aproximará Daquele que é santo – Deus; e expiará por todos os santos – Israel”. A condição do sagrado não é exclusiva do líder religioso. O sagrado é inclusivo, construído e instaurado nas relações entre o indivíduo, o lugar em que congrega, Deus, e sua comunidade.

No mesmo midrash conta-se que, ao observar o sacerdote no mais sagrado dos espaços e no mais santo dos dias, o Yom Kipur, Deus não se recorda dos próprios méritos nem da santidade do local, tampouco dos méritos do kohen. Deus se recorda dos méritos do povo.

Em seu comentário para a parashá Tetzavê, o livro do Zohar praticamente não se refere aos kohanim. Mas dali escutamos a de Rabi Yitzchak: “A luz do alto e a luz de baixo são uma só – e o seu nome é Tu” (Tetzavê 1). O Zohar se antecipa por séculos à obra de Martin Buber, “Eu-Tu”, ao estabelecer que o sagrado não está em mim nem em você, mas no encontro entre nós, num instante e local precisos. O sagrado está na relação: “Morarei entre os filhos de Israel e serei para ele Deus” (Ex.29:45).

A luz permanecerá acesa enquanto alimentarmos em nossas inter-relações o processo contínuo de construção e manutenção do sagrado.

 

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