Parashat Ki Tissá

Parashat Ki Tissá

O bezerro de ouro a luz que resplandece dentro de nós

Rabino Uri Lam, março 2015

Moisés rogou às faces do Eterno seu Deus e disse: Por que, Eterno, se acenderá o Teu furor contra Teu povo? … E o Eterno arrependeu-Se do mal que falou em fazer a Seu povo. (Êxodo 32:11,14)

Ao se aproximar do acampamento e ver o bezerro e as danças, o furor de Moisés acendeu-se e jogou as tábuas de suas mãos, quebrando-as aos pés do monte. (Êxodo 32:19)

Entre tantos temas importantes tratados na leitura da Torá desta semana, destaco o episódio do Pecado do Bezerro de Ouro, um dos mais conhecidos. A história é conhecida: depois de testemunharem maravilhas e milagres, como a abertura do Mar Vermelho, o alimento/maná cair do céu para alimentar cada um conforme a sua necessidade e tantos outros o maior de todos: o evento da entrega da Torá no Monte Sinai, bastou Moisés ficar 40 dias longe do povo para que os israelitas aparentemente mudassem de ideia. Eles imploraram ao seu irmão Aarão que lhes confeccionasse um deus para andar diante deles, “porque a este Moisés… não sabemos o que lhe aconteceu” (Êxodo 32:1). Costumamos ver o bezerro de ouro como uma divindade de inspiração egípcia a substituir o Deus de Israel. No entanto, o versículo citado dá a entender que o povo não queria substituir Deus, mas sim a liderança que os dirigia pelo deserto: Moisés. Deus não havia desaparecido, mas Moisés, “não sabemos o que lhe aconteceu”.

Enquanto isso, Moisés estava mais do que entretido, no alto do Monte Sinai, recebendo a Torá e suas mitzvot, seus preceitos. Segundo esta parashá, o último deles corresponde à oração Veshamru, que cantamos em todos os serviços de Shabat: “Veshamru bnei Israel et Hashabat… os filhos de Israel guardarão o Shabat para fazer do Shabat uma aliança perpétua por suas gerações. Ele é um sinal entre Mim e os filhos de Israel para sempre, de que em seis dias o Eterno fez os céus e a terra e no sétimos dia estabeleceu-se e reanimou-se” (Êxodo 31:16-17)

Foi então que Moisés recebeu de Deus as tábuas do testemunho, escritas com o dedo de Deus.

Sim, Moisés estava ocupado recebendo as leis, histórias, costumes e práticas que moldariam a vida judaica e influenciariam o modo de vida no mundo inteiro, especialmente no mundo ocidental, ao longo de milênios. Mas para quem estava lá embaixo, o líder estava ausente por tempo demais. O que Moisés fazia era fantástico, mas ele também cometia um pecado grave: o pecado da falta de comunicação. Quando alguém está ansioso por uma informação que demora a sair, na falta de perspectivas, após algum tempo este ou estes buscarão inexoravelmente outras fontes, outras lideranças que lhe devolvam a sensação de segurança. Era isso o que significa o bezerro de ouro: o novo líder, o substituto de Moisés no contato com Deus – e não o substituto de Deus.

Essa parece ter sido a posição de Nachmânides, o Ramban: que aqueles que serviam ao bezerro não o viam como uma alternativa a Deus, mas sim como uma alternativa a Moisés.

Na mesma linha, quando foi avisado por Deus que o povo adorava o bezerro e que por isso o Sagrado bendito seja pretendia consumir o povo em Sua ira, Moisés procurou acalmá-Lo – e conseguiu: “O Eterno arrependeu-Se do mal que falou em fazer a Seu povo” (Êxodo 32:14) Mas quando Josué, seu braço direito, advertiu-o de que o povo dançava ao redor do bezerro, foi a vez de Moisés ficar furioso e lançar as tábuas aos pés do Monte Sinai, quebrando-as. Conforme o Méshech Chochmá – comentário da Torá pelo rabino Simcha Hakohen de Dvinsk (1843-1926) – Moshe Rabêinu quebrou as tábuas por temer que se as entregasse ao povo, estes substituiriam o bezerro de ouro por ela e… passariam a adorá-la como se fosse uma divindade.

Portanto, se Nachmânides busca “limpar a barra” do povo judeu ao dizer que jamais usaram o bezerro de ouro como fonte de idolatria, mas sim como tentativa de criar uma nova referência de liderança, para o Rav Simcha Hakoheân de Dvinsk Moisés temia, sim, que o povo se afastasse de Deus e praticasse a idolatria. Não importava se o foco da idolatria era um bezerro de ouro ou a própria Torá – qualquer objeto ou pessoa que substituísse Deus levaria o povo a cometer avoada fará (idolatria), até mesmo a Torá.

O bezerro de ouro está dentro de nós

O que fez Moisés? Após quebrar as tábuas, fez com que o bezerro de ouro fosse moído e transformado em pó, misturou-o às águas e deu de beber aos filhos de Israel (Êxodo 32:20). De algum modo o objeto da idolatria saiu do mundo externo e entrou para o mundo interno dos indivíduos. Podemos nos voltar diretamente para Deus ou podemos nos voltar para Ele sob as lentes e a influência dourada e robusta do bezerro de ouro que há dentro de nós. Em outras palavras, Deus permanece sempre o mesmo, mas o nosso olhar para Deus pode ganhar cores divinas ou idólatras, com todas as variantes entre uma e outra.

Novas Tábuas do Testemunho, o Véu de Moisés e a Luz da sua face

Moisés foi chamado por Deus a confeccionar novas tábuas, sobre as quais Deus escreveu o que antes estava escrito nas tábuas agora quebradas. Moisés esteve com Deus por 40 dias e 40 noites sobre o Monte Sinai e ali escreveu nas novas tábuas as palavras da aliança. Ao descer do Monte Sinai, as faces de Moisés resplandeciam tanto que ele teve que cobrir o rosto com um véu. É muito interessante esta imagem: um homem, Moisés, com o rosto coberto por um véu, para que pudesse ser encarado por seus semelhantes. Moisés só tirava o véu ao falar com Deus. Geralmente estamos habituados a imaginar o rosto de uma mulher, e não o do homem, coberto com um véu. Em geral a justificativa está no recato, no que se chama de tzniút. No caso de Moisés, porém, é como se sua pele fosse uma pele de luz e não de couro. E hebraico, a palavra luz e a palavra couro soam idênticas: or. No entanto, luz se inicia com a letra hebraica álef e couro se inicia com a letra hebraica áin. É como se a pele de couro de Moisés estivesse translúcida a ponto de revelar toda a luminosidade de sua alma, em decorrência do contato com Deus.

Lembro-me de que, no dia em que fui ordenado rabino no Hebrew Union College (HUC-JIR) em Israel, o querido rabino Levi Kelman me deu uma crachá que jamais esquecerei: ele pediu a Deus que eu tivesse uma pele mais grossa. Pele de couro que cobrisse melhor minha “pele de luz”. Como se dissesse: “querido Rav Uri, você precisa desenvolver uma pele mais grossa para suportar aqueles que irão tentar lhe ferir ao longo do seu caminho”. Ele tinha toda a razão. Véus e pele grossa são necessários para nos proteger dos maldosos. Por baixo dos véus, a luz da inspiração, do amor pelo povo de Israel e pela humanidade deve continuar a brilhar com toda a intensidade. No encontro íntimo com Deus e diante de uma comunidade acolhedora, os véus tornam-se desnecessários. Então a luz pode resplandecer a vontade e se espalhar por aí.

 

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