Parashiot Mechubarot: Vaiakhel-Pekudê – Shabat Pará

Parashiot Mechubarot: Vaiakhel-Pekudê – Shabat Pará

Saímos do espírito de Purim para entrarmos no período de Pessach. Na semana passada nos fantasiamos para comemorar a vitória sobre Haman, que buscava nos destruir porque éramos diferentes. 

Desta vez estamos diante de uma situação diferente: enquanto em nossa comunidade e ao redor do mundo já nos preparamos para Pessach, contar a história do sofrimento dos nossos antepassados e comemorar o Êxodo do Egito, na leitura da Torá estamos um passo além: já saímos do Egito, estamos no deserto, prontos para levantar o templo móvel, a Morada Divina. O estudo da Torá desta semana descreve em minúcias a construção do Mishkán, desde o seu aspecto externo até os mínimos detalhes que o compõem.

Antes da construção, porém, Deus determinou a ordem de trabalho. Não estamos mais no Egito. O trabalho não pode mais ser 24h/7 dias por semana. Há seis dias para construir e um dia para descansar e se reanimar: o Shabat. O trabalho no Templo é uma obra de arte. Obras de arte em geral são feitas a partir da transformação do material bruto em algo que passa a conter em si mesmo a ação das mãos humanas. O fogo é o símbolo da transformação por excelência. Por isso o fogo se torna o ícone do que é proibido no Shabat. Neste dia devemos contemplar a natureza e deixar que ela siga o seu rumo sem a nossa interferência.

Durante a semana o fogo tem um papel central. Com ele forjamos instrumentos de trabalho, iluminamos e aquecemos o ambiente, queimamos o lixo, transformamos materiais brutos e por aí vai.

Entendemos então que, antes que qualquer coisa, a preocupação de Deus era com o bem estar do ser humano: há um tempo para o trabalho e há um tempo para o descanso e o lazer. Isso vale, igualmente, para homens e mulheres.

Na Torá não há qualquer discriminação entre homens e mulheres. Na nossa parashá lemos simplesmente: “Homens e mulheres, doadores voluntários de coração, vieram e trouxeram pulseiras e brincos, anéis, cintos, e todo objeto de ouro…” (Exodo 35:22). O discurso de que a mulher está isenta ou proibida de atuar de forma mais ativa na liderança política e religiosa judaica não se deu na Torá, mas sim posteriormente, no período rabínico. E até mesmo o período rabínico inicial não era tão estreito quanto aquele da Idade Média, que prevalece entre nós até os dias atuais, apesar de ter escolhido as decisões religiosas que eram mais convenientes para uma época que não é mais a nossa. A mesma época em que mulheres não votavam, não usavam calças compridas, não tinham direito ao controle sobre seu próprio corpo nem sobre a natalidade.

Muito foi conquistado ao longo dos tempos. Às vezes de modo trágico, às vezes com final feliz, as mulheres foram conquistando o seu espaço de direito. Hoje as diferenças salariais entre homens e mulheres caiu muito, mas ainda existe.

No meio judaico as mulheres conquistaram e vêm conquistando muito espaço. Já tivemos primeira ministra de Israel, ministras diversas, presidentes de comunidades com grande talento e força política. Num passado mais distante tivemos lideranças como dona Grazia Mendes, que salvou a vida de milhares de judeus na época da Inquisição. Outras mulheres judias de valor deram a própria vida em nome de uma causa. Este é o caso da psicóloga e ativista política Iara Iavelberg. Diferente do que diz a história oficial, esta jovem judia não cometeu suicídio, mas foi assassinada em um apartamento no bairro da Pituba, aqui em Salvador, perto da nossa nova sede. Hoje em dia o nome de Iara significa coragem, amor, dedicação aos direitos humanos. Comunidades como a de Belo Horizonte e de Fortaleza têm mulheres como presidentes; em Salvador mesmo temos mulheres diretoras. Do mesmo modo, as comunidades ARI e Shalom tiveram pela primeira vez rabinas no Brasil. A cantora Fortuna Safdie tem atuado com regularidade como hazanit na comunidade Beth El, em São Paulo. O mesmo já ocorre em Porto Alegre e no Rio de Janeiro.

Em Salvador a resistência à participação mais igualitária da mulher na vida religiosa talvez seja reflexo de um judaísmo supostamente mais tradicional, que valoriza certos aspectos da tradição, mas passa orgulhosamente por cima de outros: a mulher não pode ler na Torá nem dirigir um serviço religioso – por tradition! Mas kashrut, em algum nível que seja, que é uma mitzvá, quantos dos homens e mulheres da nossa comunidade que rejeitam o direito da mulher nos serviços religiosos tem alguma preocupação com kashrut? Muito, muito poucos. Por que falta um maior comprometimento de tantos com a comunidade, seja em presença, seja em termos materiais, mesmo cientes das enormes dificuldades pelas quais estamos passando? Por que não cumprimos com mais afinco a mitzvá, repetida dezenas de vezes na Torá, de gerar maior acolhimento ao guer – aquele/a que opta, voluntariamente, por fazer parte do nosso povo? Poderíamos citar inúmeros exemplos. Já passou da hora de doarmos mais e nos doarmos mais; já passou da hora de fazermos mais e nos vangloriarmos menos, de sermos mais pelo sagrado do coletivo e menos pelo profano do individualismo e do “fui eu quem fez”.

No caso da construção do Mishkan, a Torá nos diz que depois que o povo foi convocado a doar, as doações ultrapassaram em muito as necessidades iniciais. Não há nomes citados de quem doou ou deixou de doar: o coletivo, o povo doou. Ninguém deixou de doar por seu nome não ser citado, por não receber uma homenagem no Templo. As pessoas doam porque acreditam em algo maior.

Um midrash conta que as mulheres se recusaram a entregar seus anéis e brincos para a construção do bezerro de ouro, mas se empenharam em entregá-los para a construção da morada Divina. Mulheres de valor. Mulheres de fibra. Mulheres guerreiras. Hoje e sempre, a eshet chail, a mulher de valor eternizada no final do livro de Provérbios do Rei Salomão – nunca foi submissa. Ela sempre foi multifunção, sonhadora, amorosa, proativa, líder, empreendedora. Já passou da hora desta mulher ocupar um espaço maior em nossa comunidade. E que com ela venham mais alegria, mais entusiasmo, mais música, mais vida.

ken iehi ratzon. Que assim seja.

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