Um judeu na Bahia

Roberto Leon Ponczek em 1985

Por Roberto Leon Ponczek*

Em 1985, vindo do Rio de Janeiro, mudei-me definitivamente para Salvador-Bahia, que ainda tinha ares de uma agradável província. Poucos carros, as pessoas se falavam nas ruas, poucos prédios altos e viam-se quase sempre as mesmas pessoas nos poucos bares, cinemas e teatros da cidade e, portanto quase todos se conheciam. Tentei viver como um baiano, ou seja, ia à praia, bebendo muita cerveja com peixe frito e lambretas nas barracas de praia e dançava atrás de pequenos Trios Elétricos, durante os velhos Carnavais da década de 80 que naqueles tempos tocavam frevos e marchinhas. Ainda se podia dançar e cantar tranquilamente nas ruas o “Pombo Correio” e a “Nega do Cabelo Duro”. Aprendi a tocar vários instrumentos de percussão como agogôs, pandeiros e atabaques, tocando em festas de rua e manifestações populares. A partir de 1985, quando já morava na Bahia, fiquei afastado de qualquer atividade religiosa, bem como, comunitária judaica. Afastei-me do Judaísmo tentando apagar da minha memória tudo o que me causava dor, e eu não podia dissociá-la do Holocausto e do sofrimento dos meus pais. Fiz de tudo para abandonar o Judaísmo, mas o Judaísmo não quis me abandonar. Como isso pôde acontecer? Como explicar que, alguns anos mais tarde o Judaísmo ressurgiu em minha vida, ao mesmo tempo, como um fantasma e como redenção?
Tentei encontrar durante toda a minha vida um justo equilíbrio entre o estoicismo judaico e o hedonismo baiano-brasileiro; entre um longo passado histórico e um presente contingente e fugaz. Eu perseguia um lugar situado entre a memória e a vida presente, de modo que na fragilidade do presente eu pudesse reencontrar a estabilidade das minhas raízes étnicas e religiosas. Lutei a cada segundo contra o sofrimento dos meus pais, sobrepondo-lhe a alegria da cultura afro-baiana. Marquei os compassos do concerto para violino de Mendelssohn – que ouvia junto com meu pai durante toda a infância – 
com os ritmos de tambores. Cantei Lili Marlen – que minha mãe cantou
para um oficial da Gestapo para salvar sua vida e a de meu pai1 – com o ritmo do samba porque Lili Marlen salvou a vida dos meus pais contra o mal nazista e o samba salvava diariamente a minha vida contra a tristeza e a depressão!
Mendelssohn, Mahler, Cartola; Paulinho da Viola e Martinho da Vila cantavam em uníssono, com a mesma intensidade, dentro da minha alma.
Dorival Caymmi é o compositor que melhor descreve uma Bahia mística e antiga povoada por orixás africanos, baianas de acarajé, sereias, igrejas antigas, pescadores e coqueiros que habitam a Cidade Velha e as maravilhosas praias da Bahia. Caymmi pintou o retrato musical mais fiel da velha Bahia, e sua música me fascinou tanto que – juntamente com os romances de Jorge Amado – foi um forte fator estético que influenciou a minha vinda para a Bahia, na década de oitenta. Motivado por sua música gostava de caminhar pelo centro histórico da cidade e sentar-me nas pequenas biroscas do Pelourinho para tomar uma “cachaça de folha” e então conversava com feirantes, ambulantes, baianas de acarajé, tentando entender o que me diziam em baianês. Algumas expressões eram incompreensíveis para mim como “de hoje que não chove”; “vou ali e já volto”, “há 1 hora de relógio” , “de hoje a 8” , “Deus é mais!” , “Ixi minina!”,”disjunto”, “vc se lascou!”, “não se avexe”, “vou me picar!” etc etc que só muito tempo depois vim a entender o que significavam…2

A diferença essencial entre um baiano típico e um judeu é que o primeiro ri alto esquecendo-se de suas mazelas enquanto que o judeu ri amargamente pensando nelas. Defino-me, então, como um judeu borderline cultural, transplantado para os trópicos, que recebeu asilo na Bahia, e que quer afastar a tristeza atávica através da alegria do sincretismo musical brasileiro-baiano! Tento, com certa dificuldade, seguir o que Mestre Caymmi nos recomenda para sermos felizes:

Dorival Caymi

*Roberto Leon Ponczek é professor de Epistemologia e Metodologia da Ciência na Universidade Federal da Bahia. É carioca e seus pais são sobreviventes do Holocausto nazista.

1 Leia o episodio “Judeu, abaixe as suas calcas!”  no Sib e News de duas semanas atrás.

2 “de hoje que não chove” significa “há muito tempo que não chove”

“vou ali e já volto” quando um baiano lhe diz isso é que  quer se livrar da sua presença, pois ele irá embora,  mas certamente não voltará!

“de hoje a 8”,  é como o baiano se refere à  1 semana  , ou seja, “ semana que vem”

“1 hora de relógio” significa “exatamente há 1 hora”

“Deus é mais!” é uma exclamação que tem o mesmo efeito de “Nossa!” ou “puxa vida que coisa hein! ”

“Ixi minina! ”pode ser traduzido para “Caramba!” ou  “que coisa menina!”

“dijunto”- significa  “perto de”  Ex: a farmácia fica dijunto da Igreja, significa que a farmácia fica pertinho da Igreja.

“você se lascou!”-  significa que “você se ferrou!” ou “você se deu muito mal”.

“não se avexe não” –  quando o baiano lhe diz “não se avexe não” está lhe dizendo para que você “não tenha pressa”

“vou me picar”- quando ele lhe diz “vou me picar” está querendo lhe dizer que “vai cair fora”.

DISCOGRAFIA DO SAMBA

Para ouvir sambas magníficos de Paulinho da Viola: https://www.youtube.com/watch?v=G6oCMkNohss

Ouça o maravilhoso  samba “Juizo Final”de Nelson Cavaquinho:

Ouça Cartola,  outro grande  sambista. Acesse o álbum completo de Cartola em:

“Preciso  me encontrar”:  https://www.youtube.com/watch?v=fUjOfsoBhMY&index=7&list=RDEflJ67AAZFc

“Tive sim :

Para ouvir o samba muito melódico e cheio de lirismo de Jorge Aragão:

http://www.vagalume.com.br/jorge-aragao/

Para um samba delicioso chamado de  “Partido Alto”,  típico do  Rio de Janeiro,  ouça  Martinho da Vila:

Existem também excelentes versões de samba cantados em hebraico por Noa Peled:

Juizo Final :

Pressentimento:

Antonico:

Uma  entrevista com Noa Peled:

Para ouvir Caymmi:

Ouça “Saudades da Bahia” cantado pelo próprio em:

O triste e nostálgico “Saudades de Itapoan”em:

O álbum completo “Caymmi” em:

Pescaria:

O LP Canções Praieiras:

(Link para o texto, aqui)

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Um pensamento sobre “Um judeu na Bahia

  1. Como você descreve bem a minha Bahia, no tempo que havia poesia no AR. Esta foto com Vladi em Pituaçu mostra como ainda o Parque era preservado, e infelizmente hoje está cercado por arranha-céus e invasões, que em alguns lugares já ultrapassaram o limite da cerca. Mais uma vez parabéns pelo excelente texto.

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