Parashat Vaikrá – Shabat HaChódesh

Alef2

O Pequeno Alef

Rabino Uri Lam, SIB, março de 2015 / Adar 5775

“Quando abri os olhos, vi o Álef”.

“O Álef?” Eu repeti.

“Sim, o único lugar no mundo onde estão todos os lugares – vistos de qualquer ângulo, cada um claramente, sem qualquer confusão ou mistura. Eu mantive a descoberta para mim mesmo e voltei lá a cada chance que tive”.

(Jorge Luis Borges, O Álef)

Iniciamos o terceiro livro da Torá, Vaikrá, o Levítico. Conhecido também como Torat Kohanim, este livro relata principalmente as leis sacerdotais, em boa parte a respeito das korbanot, as oferendas levadas ao Mishkan, à Morada Divina. Por ser um ato sagrado, as korbanot foram traduzidas como sacrifícios – ofícios sagrados. A conexão com Deus ocorria não apenas através de uma oração, mas sim por meio de todo um movimento: a disposição para a aquisição de um animal, levá-lo até um lugar determinado para entregá-lo ao sacerdote, que por fim o levaria para ser sacrificado no altar do Mishkan. Parte da carne era queimada, parte era destinada para o consumo dos sacerdotes. O oferenda de animais e eventualmente de pratos “vegetarianos” perpassava todo o povo, individualmente e coletivamente. Nesta primeira porção semanal, por exemplo, lemos sobre as korbanot que deveriam ser oferecidas pelo Sumo Sacerdote e pelos líderes, passando por sacrifícios em nome do povo e em nome do indivíduo comum, em decorrência de pecados ou transgressões cometidos inadvertidamente. Em seguida lemos como deveria se pagar por desvios de conduta cometidos deliberadamente.

Quando abrimos a leitura no rolo da Torá, as pessoas mais atentas notarão que a última letra da primeira palavra do Levítico está escrita com um álef pequeno. Qual é o motivo? Estilo do escriba? Algum erro? Na Torá?

Conta-se que, quando Deus disse a Moisés para escrever a palavra Vaikrá – E Ele Chamou – Moisés recusou-se a escrever o álef no fim da palavra, por não se considerar à altura de Deus dirigir-se somente a ele. A palavra que restou, vaikar, parece vir do verbo hebraico “ocorrer”, como se por acaso tivesse ocorrido de Deus passar por Moisés e então lhe dirigir a palavra. Mas não! Deus o chamou intencionalmente, com kavaná. Não foi um encontro fortuito no qual Ele aproveitou a oportunidade para dizer a Moisés como orientar o povo a se conectar com o Divino.

Como um grande líder deve ser, Moisés não queria ser visto como mais importante para Deus do que as demais pessoas; afinal, todos somos iguais diante de Deus. Mas o Todo Poderoso insistiu que aquele álef fosse colocado no final da palavra e que a palavra fosse “E Ele Chamou”. Teimoso, Moisés cumpriu a ordem, mas escreveu o álef menor do que as demais letras. Que fantástico! Permaneceu a vontade Divina, mas também permaneceu a posição humana.

O Alef

Para o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), O álef poderia ser um lugar perdido num sótão de Buenos Aires onde estavam todos os lugares do mundo, sem confusão. Em um livro de ensino básico de hebraico, encontramos o desenho de uma criança israelense de uma escola Waldorf na qual o álef representa o ser humano de braços abertos para o mundo. O álef inicia a palavra ani, eu; mas também inicia a palavra echad, um. O alef inicia a palavra Adam, o arquétipo do ser humano; também o nome do primeiro patriarca do povo de Israel, Abrahão. Mas o alef também inicia diversos nomes relacionados a Deus, como Ad-o-nai e El-ohim.

Surpreendentemente, a primeira letra do alfabeto hebraico, não inicia o texto bíblico; foi suplantada pela segunda letra, o beit. Tradicionalmente, os tratados do Talmud, a magnífica obra a inúmeras mãos e mentes que retrata a complexidade da tradição oral judaica, não iniciam com a página alef, mas sim com a página beit.

Ser chamado por Deus como “O Álef” pode subir à cabeça. Aliás, nem precisa ser chamado assim por Deus; quando outras pessoas insistem em lhe chamar de o primeiro, o melhor, o maior, que não há outro como você – é o momento de agir como Moisés: aceite a responsabilidade, mas não permita que tais elogios soem muito “grandes”, porque simplesmente não são! Ou melhor, você não é tão grande como parece ser aos olhos ou à expressão – ou à intenção – dos outros.

No que tange à relação com Deus: se você aceita que é “O Alef” ou “A Alef” com A maiúsculo mesmo, autossuficiente, tão poderoso/a – não haverá espaço nem para Deus nem para outras pessoas ao seu lado. Um líder sem pessoas com quem se relacionar não é líder de nada. Um líder religioso sem Deus se torna um líder “desligioso”, desligado do Divino.

Concretos ou simbólicos, os atos de oferecer sacrifícios pessoais e coletivos a Deus em nome de pecados e transgressões desenvolvem no indivíduo o senso de humildade. Ao reconhecer seus erros, o indivíduo ou grupo reconhece que é falho e tem muito ainda a aprender. Está aberto o movimento de teshuvá, de retornar do erro e começar de novo: do álef. Do pequeno álef. Assim como no Álef de Borges, ao começarmos de novo, todas as oportunidades, todos os lugares, todas as chances estão novamente dispostas na mesa, ao nosso alcance. Sempre é tempo de começar  – não do zero, mas do álef.

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