Parashat Tzav

Rabino Uri Lam – março 2015

Qual é a Torá?

“Esta é a Torá – para a olá (sacrifício de elevação), para a minchá (sacrifício de oblação), para a chatáat (sacrifício de expiação), para a ashám (sacrifício de delito), para os miluím (consagrações) e para os sacrifícios de shlamim (sacrifícios de pazes) – que o Eterno ordenou a Moisés no Monte Sinai.” (Lev. 7:37-38)

“E esta é a Torá que Moisés colocou diante dos filhos de Israel.” (Deut. 44:4)

Na sequência da leitura de Vaikrá, na semana anterior, a porção semanal Tzav continua a discorrer sobre sacrifícios feitos no altar do santuário. Mas há uma diferença marcante: Nesta semana, quando se fala dos sacrifícios, antes se fala de Torá. a expressão “esta é a Torá” se repete diversas vezes ao longo do texto, entre os capítulos 6 e 7 do livro de Levítico (Vaikrá). Ah, não encontrou na sua tradução? Isso porque a maioria das traduções em nossas mãos traduzem aqui o termo Torá por Lei. Assim, por exemplo, na passagem que traduzi e citei acima vocês leem “E esta é a lei…” (Lev. 7:37) na maioria das traduções da Torá de que dispomos em português. Traduções são maravilhosas, porque mais gente tem acesso a textos que, de outro modo, ficariam restritos a quem compreende o idioma original. Por outro lado, as traduções costumam trair o texto original ao restringirem seu significado mais profundo e múltiplo a apenas um significado.

O grande e controverso rabino de Israel, da época do Talmud, Resh Lakish, dizia a respeito desta passagem da Torá: “Por que está escrito ‘Esta é a Torá – para a olá (sacrifício de elevação), para a minchá (sacrifício de oblação), para a chatáat (sacrifício de expiação), para a ashám (sacrifício de delito), para os miluím (consagrações) e para os sacrifícios de shlamim (sacrifícios de pazes)’? Para ensinar a você que todo aquele que se ocupa da Torá é como se estivesse oferecendo sacrifícios de elevação, de oblação, de delito e de pazes”.

Já Raba, um grande sábio do período do Talmud que vivia na Babilônia, foi ainda mais longe: “Todo aquele que se ocupa da Torá não precisa nem de sacrifício de elevação, nem de oblação, nem de delito”.

O que estes dois grandes rabinos da antiguidade parecem querer nos dizer? Que estudar Torá e colocar seus valores em prática é o modo de servir a Deus – e não o oferecimento de animais e outras oferendas para Deus. Os sacrifícios provavelmente eram o modo mais usual de se buscar a conexão com Deus entre os diversos povos da região em que vivia o Povo de Israel no passado retratado pela Torá. Mas considerar o foco no sacrifício e não na conexão entre o ser humano e Deus transforma o serviço divino em um serviço estranho – ou literalmente em hebraico, Avodát Hashem, servir a Deus, pode facilmente se transformar em Avodá Zará, traduzido comumente como idolatria.

Se os sacrifícios fossem assim tão essenciais para a vida judaica, é de se imaginar que o povo judeu iria rapidamente se extinguir após a destruição dos Templos Sagrados, especialmente após a destruição do Segundo Templo de Jerusalém, no ano 70 da era comum. Mas não foi o que aconteceu: nós continuamos servindo a Deus de formas mais sutis, continuamos a cumprir mitzvot, os mandamentos divinos; continuamos a rezar – e em nossas rezas muitas vezes incorporamos o relato dos sacrifícios que ficaram no passado e, em vez de substituí-los, colocamos nossas energias e o nosso foco na conexão entre o ser humano e Deus através das palavras, da concentração e da meditação, do movimento corporal. Ouso dizer até que nossas orações não ocuparam o lugar deixado pelos sacrifícios, mas sim puderam alcançar Deus de modo mais direto, mais espiritualizado, nem a necessidade tão materializada de carnes, gorduras, ossos e outros elementos queimados para o Divino; são os sacrifícios que deixaram de ocupar o espaço próprio das orações, das palavras que deixam os lábios em murmúrios ou cantos, dos pensamentos, conscientes ou turvos, que ganham formas cada vez mais delicadas através da meditação silenciosa e do compasso dado pelo coração e pela pulsação.

Se no passado todo o movimento para a realização de um sacrifício criava as condições para a conexão com a Existência, com o Eterno – hoje em dia temos outros canais para isso. No entanto, parecem fazer falta para pessoas mais grosseiras, menos espiritualizadas, que têm enorme dificuldade para se conectar com Deus por não se darem ao direito de ter alguns minutos por dia para silenciar a razão, as ideologias, o lugar comum e “sacrificá-los para Deus”, deixando espaço para a oração, a meditação, a kavaná, valores espirituais. O sabor judaico não está no sabor nem no aroma da carne do sacrifício, mas sim nas palavras que vibram no tempo-espaço e alcançam o divino a cada respirar-expirar-inspirar.

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