Comentário Especial de Pessach – abril 2015

Matzah

Rabino Uri Lam, SIB

Bendito seja, Eterno, por ter me feito filha da liberdade

A essência do guet (divórcio): você tem permissão para se casar com qualquer indivíduo… Você é filha da liberdade; você pertence a si mesma. (Mishná, Guitin 9,3)

Nissan é conhecido na Torá como o mês em que nossos antepassados escaparam da escravidão no Egito. A partir de então a liberdade se tornou um dos pilares do modus-vivendi judaico. De acordo com esse espírito, temos consciência de que ser livre não é que vale tudo, vale o que vier – mas um valor ético.

De acordo com os livros de orações judaicos ortodoxos, reza-se pela manhã sheló assáni áved: “Bendito seja, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, por não ter me feito escravo”. Já nos sidurim liberais nós rezamos sheassáni be/bat chorin: “Bendito seja, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, por ter me feito filho/filha da liberdade.” Agradecemos por sermos livres porque sabemos o que é estar em cativeiro. Estivemos no Egito, Mitzráim, não o país, não o império do Faraó, mas o espaço físico, emocional e espiritual estreito, opressor, injusto. A liberdade tem um valor imensurável. Temos essa enorme responsabilidade de conquistá-la, garanti-la e preservá-la.

Durante o seder de Pessach cantamos com alegria que ontem fomos escravos, mas hoje somos livres. Lemos também na Hagadá sobre os quatro filhos: o sábio, o malvado, o simples, e aquele que nem sabe o que perguntar; na nossa hagadá e em tantas outras hagadot contemporâneas, também falamos das quatro filhas. É de se refletir que ainda precisemos chamar a atenção para a inclusão das mulheres, seja na hagadá, seja entre as que leem a hagadá.  Nenhum filho e nenhuma filha deve faltar à mesa; mas alguns estão ausentes. E entre as mulheres, algumas estão ausentes por estarem cativas, emocionalmente e haláchicamente algemadas.

A falta de liberdade para estar no seder de Pessach que desejar atinge hoje em dia centenas de milhares de mulheres judias no mundo inteiro: as agunot – as ancoradas, acorrentadas, algemadas. A aguná está presa ao marido que não lhe concede o guet, o documento de divórcio. Difícil imaginar a angústia que ela sente ao ler na Hagadá: “Hoje somos escravos; mas no próximo ano seremos livres.” Por não depender dela,  aguná não pode cogitar de estar livre nem este ano, nem no próximo. Ou pode? E nós, o que podemos para mudar essa situação ou, no mínimo, para não sermos cúmplices por omissão?

Ciente da triste condição destas mulheres, a escritora Shelley Frier List compôs uma oração que se tornou símbolo da luta pela libertação das agunot:

Criador dos céus e da terra, que seja a Tua vontade, com a plenitude da Tua piedade, libertar as esposas de Israel do cativeiro de seus maridos e das amarras de suas ketubot quando a santidade e o amor já tiverem deixado seus lares. Afaste delas este fardo amargo e amoleça os corações daqueles que as mantêm cativas. Libere-as da angústia e envie Tuas filhas para onde possam livremente constituir um novo lar entre o povo de Israel, criar filhos com amor e tranqüilidade, em paz e fraternidade.

Faça com que nossos juízes voltem a ser como antes, aconselha-os como no início e conceda aos seus corações o espírito de sabedoria e coragem. Faça com  que exerçam a autoridade para retirar o poder das mãos do opressor e resgatar a mulher do seu cativeiro. Bendito seja, Eterno nosso Deus, Rei do Universo, por libertar as cativas.

Por mais doloroso que seja, um guet significa, para a mulher, a liberdade de dizer: “Ontem fui escrava, hoje sou livre”. Minha professora de Talmud, a Dra. Ruchama Weiss, expressa de maneira poética o que deve ser esta sensação de liberdade:

Você tem permissão para se sentar em uma escadaria de pedras frias, em meio ao calor das montanhas que vem sobre você, vestida com roupas de escritório. Você tem permissão para não sentir saudades, para sentir dor, para ficar só… Você tem permissão para pegar os lápis de cor da escrivaninha das crianças, pintar sobre o corpo, desenhar sobre a parede. Você tem permissão para não pensar em estética, para colar, recortar, rasgar. Você tem permissão para adorar o que faz. Você tem permissão para ser você mesma.

Que neste Pessach todos nós possamos agradecer por sermos filhos e filhas da liberdade.

Chag Pessach Sameach.

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