Parashiot Mechubarot – Acharei Mot – Kedoshim

Rabino Uri Lam, SIB, abril 2015

Que a minha língua não envergonhe a vida alheia

Nas duas últimas semanas a Torá se voltou para as transgressões que levavam à tzaráat, doença repulsiva capaz de se espalhar como fogo e contagiar pessoas, móveis e paredes. Não à toa, nossos rabinos a compararam com a fofoca. O “yachne”, o fofoqueiro, não se dá conta de que o seu prazer contamina ao mesmo tempo a vítima da maledicência, aquele que a escuta e a si mesmo. Cedo ou tarde, ele será afastado da comunidade para tratar a Síndrome das Más Línguas.

Nesta semana a Torá retorna para o dia seguinte às mortes de Nadav e Avihu. Aarão ficou mudo diante das palavras de consolo de Moisés pela morte trágica deles. Agora Deus pede a Moisés: “Fala para Aarão, teu irmão, não vir o tempo todo à santidade”. Não é porque Aarão ficou mudo que ficou conformado com o que aconteceu a seus filhos.

A leitura da Torá desta semana é muito pesada. Parece não poupar nada nem ninguém. O momento de dor de Aarão, quando o coração está alquebrado e aberto, paradoxalmente parece ser o mais propício para se advertir sobre o mal que a língua afiada pode fazer a outras pessoas. São ordenados sacrifícios para Deus e para Azazel. O cabrito destinado a Deus será morto, sacrificado para expiar pelos pecados do povo; o outro, destinado a Azazel, será solto vivo, em direção ao deserto. Qual cabrito será sacrificado para Deus e qual será enviado para Azazel é determinado por sorteio, pelo acaso. Quem teve o melhor destino? Afinal, ao cabrito enviado para Azazel parece ter sido dada uma chance de dar meia volta e retornar vivo; ao primeiro não houve chance.

Toda nudez será castigada?A chance de ir em direção ao inferno – e voltar

Aparentemente a Torá muda repentinamente de tema: “Nenhum de vocês chegará ao seu próximo… para descobrir a sua nudez”. Numa leitura literal, são expostos os princípios do que Freud chamaria, no século 20, de Tabu do Incesto. “Não sigam as práticas do Egito nem as de Canaã”, diz Deus a Moisés. Em uma conta de chegar, resta somente o deserto – o mesmo deserto onde foi solto o cabrito em direção a Azazel.

Lemos uma sequência de ordens divinas para não nos aproximarmos do outro a fim de expor a sua nudez. Proponho que esta dura passagem da Torá trata do mesmo tema das duas parashiot anteriores: lashon hará. O pecado não está na nudez, mas em quem expõe a nudez alheia, quem desfruta do prazer de desnudar a vida alheia, que julga, condena e apedreja o outro a priori – prática esta altamente contagiosa. A mesma parashá nos diz: “Ninguém de vocês comerá sangue… porque a alma de toda criatura está conectada ao sangue”. Expor a vida privada de outras pessoas – que na maioria das vezes é mentir, é expor o que se supõe ser esta vida particular – é como lhe tirar o sangue e lhe ferir a alma.

Ninguém está isento de cometer o pecado da fofoca e expor a nudez alheia. Mesmo sem intenção, pode acontecer de fazermos do outro o bode expiatório, sorteado para ir ao deserto e dizermos “Lech Laazazel!!”, ou em péssimo português: vá para o diabo que te carregue. Mas temos a chance de escolher se seguiremos adiante e faremos o inferno da vida alheia – ou se daremos meia volta, cuidaremos de nossas vidas e não da vida dos outros. Infelizmente, por orgulho, arrogância, cegueira em direção ao outro, muita gente criará um mundo fantasioso, fantasmagórico e aterrorizante para enviar o outro para o inferno – sem motivo real. Este pecado – pecado sim, pecado – também ocorre entre nós, do povo de Israel. Parece que quanto mais poderosos alguns se sentem, mais cometem o pecado de enviar os outros para o deserto. Esquecem-se de que, vivo, o tal bode expiatório irá voltar, mais cedo ou mais tarde – para apontar que o antes poderoso rei na verdade está nu. Agora desnudado de poder e descoberto em suas mentiras, será que o rei desejará que sua nudez seja castigada? Enfim, no final das contas, trata-se sempre, sempre, de colocar-se no lugar do outro antes de julgá-lo e condená-lo à revelia.

Lemos após a Amidá este trecho do tratado Brachot: “Meu Deus, impeça a minha língua de falar o mal… e que minha alma esteja calma diante dos que falam mal de mim”. Como é sábia a nossa liturgia. É preciso juízo e contenção para não difamar/destruir/triturar o outro. Mas é preciso calma para não se deixar difamar/destruir/triturar pelas más línguas de gente má. Aquele que firma a paz nas alturas celestiais, evitando fofocas entre os anjos, que Ele estabeleça a paz entre nós e, assim, nos eleve espiritualmente.

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