Parashat Emor

Todo homem da descendência de Aarão, o sacerdote, que tiver qualquer defeito… não se aproximará para oferecer o sacrifício do seu Deus. (Levítico 21:21)

Uma mesma lei será para vós, tanto para o peregrino quanto para o natural, porque Eu sou o Eterno vosso Deus. (Levítico 24:22)

 Protesto judeus etiopes em Tel Aviv

Quem é santo? Exclusão e Inclusão
Rabino Uri Lam, maio de 2015

Essa semana presenciei uma cena muito triste. Eu estava sentado, bebendo um café em companhia de um amigo querido que não via há muito tempo quando, na mesa à minha frente, atrás do meu amigo, dois senhores judeus que estavam sentados juntos começaram a discutir aos gritos e palavrões. Um deles gritava: “Fora daqui! Você não vai falar mal do meu povo! Você não é judeu!” e o outro retrucava: “Eu não estou falando nada, são os jornais! Saiu no jornal!”. O primeiro levantou-se, punhos fechados, pronto para a luta: “Seu desgraçado, antissemita, você não tem esse direito!” e o outro preparou-se para a luta: “Você não pode me tratar assim, só repeti o que está nos jornais!”

Eu e meu amigo fomos em direção aos dois para tentar acalmar a situação. Outras pessoas se aproximaram. Ao conversar com a cuidadora de um deles, a senhora me comentou: “Eles são amigos, sempre se sentam na mesma mesa para tomar café – e quase sempre discutem; mas sempre voltam”. Ao percebermos a situação controlada, dentro do possível, eu e meu amigo seguimos o nosso caminho.

O tema da discussão era uma notícia nos jornais a respeito da manifestação de milhares de judeus etíopes nas ruas de Tel Aviv clamando por respeito, direitos iguais e contra o racismo. Comentei com meu amigo que, infelizmente, estas coisas também acontecem em Israel. Ele retrucou: “Será? Conheci muitos israelenses etíopes e eles pareciam viver bem por lá!”.

Os etíopes estavam protestando porque, aparentemente, os outros viam neles um “defeito” que dificultava a sua integração plena na sociedade israelense. Oras, justo em Israel, país que há mais de 30 anos começou a levar para o seu estado milhares de judeus etíopes, muitos deles passavam por graves dificuldades em seu país de origem. Hoje em dia a comunidade judaica etíope em Israel é marcante, com seus membros integrados, sim, à sociedade. Mas até que ponto?

Nesta semana encontramos uma leitura que fala justamente desse tema: a exclusão. Nem todo descendente de Aarão, o primeiro cohen de Israel, estava apto a exercer suas funções. Os motivos para a exclusão podem soar absurdos – e realmente são absurdos – para os dias atuais. Um homem era considerado inapto para exercer o papel de cohen se fosse: cego, coxo, tivesse nariz achatado, membros diferentes um do outro, um pé ou uma mão quebrados, sobrancelhas muito crescidas, catarata, um traço no meio do olho, sarna, uma doença de pele ou testículos triturados (Lev. 21:17-20). Se não tivesse nenhum desses defeitos, este mesmo homem seria considerado inapto se casasse com uma mulher viúva, divorciada ou que não fosse virgem.

Eu fico pensando em nossas comunidades. Por um lado, a Torá coloca como meta que sejamos um povo de sacerdotes. Se assim formos, teremos que seguir as regras acima? Como diriam os americanos: really? ou os israelenses: beemêt?? ou nós mesmos, brasileiros: jura mesmo???

Eu estaria apto por quase não ter sobrancelhas… mas já tive um dedo da mão quebrado. Ops, estou fora. Um homem sábio seria excluído por ter catarata ou estar coxo? E nos tempos atuais, excluiríamos uma mulher ou um homem por serem homossexuais? Negros? Autistas? Sem o dedo mindinho na mão? Que use óculos?

Em seguida a todas estas exigências para quem é da casta sacerdotal, a Torá passa a discorrer sobre os principais feriados do povo de Israel, festas solenes: o Shabat, Pessach, o período de sete semanas do Omer até o dia que, mais tarde, ficou conhecido como Shavuot ou Matan Torá.  Na sequência Rosh Hashaná e Yom Kipur e, finalmente, Sukot.

Após passarmos, juntos, por um ano inteiro cujos festivais marcam períodos agrícolas e guardam a memória de momentos marcantes na história do nosso povo, em meio a vitórias e crises, chega o momento em que, finalmente, passamos a entender que uma mesma lei vale para quem já nasceu parte do povo e para quem passou a fazer parte por opção. A vida real, os conflitos, os desafios falam mais em favor da inclusão do que da exclusão. O sacerdote exclusivo e excludente deve dar lugar a um povo de sacerdotes, cada um com suas características. Pois somente juntos e cientes de que todos têm qualidades e defeitos, seremos capazes de admitir que cometemos erros graves – que levam nossos irmãos etíopes e clamar por igualdade social. Ao enfrentarmos nossos defeitos, em vez de exclui-los, estaremos fazendo o nosso papel para tornar o povo de Israel mais forte justamente por sua diversidade: “Uma mesma lei será para vós, tanto para o peregrino quanto para o natural, porque Eu sou o Eterno vosso Deus.” Que assim seja.

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