Um Casamento na Cracóvia Ocupada

Roberto Leon Ponczek*

Em junho de 1941 os alemães invadiram a zona soviética da Polônia, inclusive a pequena Stanislawov, onde meu pai Tadeusz (Tewel) Ponczek, minha tia paterna Nacha e seu marido Willi Mendelssohn viviam. Eles fugiram para Cracóvia, que também estava sob ocupação nazista, mas onde eram menos conhecidos. Nacha e Willi mudaram-se munidos de falsos documentos passando-se por Conde Jan Marian Zamojski e Condessa Janina Victoria Zomojska (sic!), tentando iludir a Gestapo. Isso é que podemos chamar de  Chutzpah! (Termo ídiche que significa aproximadamente um misto de ousadia e petulância, necessária para a sobrevivência em condições limite).  

O casal Mendelssohn-Zamojski falava fluentemente o alemão e o polonês, sem sotaque ídiche, o que muito os ajudou na representação de seus novos papeis de Conde, conseguindo por algum tempo iludir tanto os alemães como os polacos. Eles foram cruciais não só para a sobrevivência de meus pais, mas também para seu encontro e casamento. Meus pais se conheceram no apartamento dos Zamojski, em Cracóvia em 1942, no auge da perseguição aos judeus, quando a solução final já estava estabelecida nos guetos judeus e estes estavam sendo transportados para os campos de concentração, para ser gaseificados nas câmaras de gás de Zyclon B. Através da indicação de um amigo em comum, minha mãe foi até apartamento dos Zamojski implorando refúgio para ela, sua irmã Irena e sua mãe Pani Marilka (Miriam Goldblum).

Willi e Nacha Mendelssohn, disfarçados como os falsos Condes Zamojski, eram pessoas muito solidárias e generosas e sem pestanejar deram abrigo às três mulheres. Começaram a viver juntos, compartilhando o pequeno apartamento em Cracóvia. Neste ambiente, como se estivessem em um palco, ensaiaram uma estranha representação teatral. Por gestos sutis e palavras rápidas proferidas, quase que inconscientemente, eles poderiam reconhecer-se como judeus, mas ainda assim representavam firmemente seus papéis de cristãos poloneses.

Quando meu pai viu a jovem garota morena Wanda que estava em seus vinte e dois anos, transbordando de encanto e beleza, ele se apaixonou por ela à primeira vista. Totalmente apaixonado, mas muito confuso, meu pai pediu um conselho para sua irmã e seu cunhado:

– O que devo fazer?  “Ela não é judia, mas eu quero me casar com ela?!

No contexto da guerra, a situação limite -borderline condition- entre a vida e a morte fazia com que muitas vezes as pessoas apressassem suas decisões. Willi que era mais velho e um homem experiente, disse ao meu pai:

– O que isso importa?! O que você está esperando? Hoje estamos vivos amanhã podemos estar todos mortos, e você está preocupado em ela não ser judia? Vocês se amam, casasse com ela amanhã! ”

 

Wanda Ponczek aos 20 anos

Wanda Ponczek em seus vinte e poucos anos.

E assim foi feito, algumas semanas depois eles se casaram no apartamento do Zamojskis, com uma cerimônia familiar simples.

De uma forma estranha, talvez ate inconsciente, as duas famílias suspeitam mutuamente de que eram todos judeus, mas jamais qualquer pergunta fora feita. A intimidade e convívio diário entre aquelas pessoas permitiu-lhes baixar a guarda e abrir seus corações para algum tempo depois, confessarem-se mútua e coletivamente como sendo judeus! Isso finalmente aconteceu no dia seguinte ao casamento, quando as duas famílias foram à igreja para registrar o casal recém- casado.

Em certo momento, o sacerdote perguntou a meu pai em que igreja ele tinha sido batizado. Sua mente ficou em branco e assim a de todos. Ninguém conseguia sequer inventar um nome! Houve um longo silêncio até que Pani Marília salvou a situação dizendo que foi na “Igreja São José”. Quando saíram da igreja eles começaram a rir tão histericamente que as pessoas chegavam a parar na rua para olhar. Neste exato momento, eles poderiam deixar de atuar em seus papéis cristãos, cuidadosamente ensaiados, porque ficou claro que eles eram todos judeus que não sabiam dizer até mesmo um nome de uma igreja!

 

Foto de casamento de Tadzo e Wanda Ponczek
A foto de casamento de Wanda e Tadeusz em Cracóvia, 1942.
Nina and Willi Ponczek

Nacha e Wolf (Willi) Mendelssohn como  “Conde” e “Condessa” Zamojski

Roberto Leon Ponczek

Roberto Leon Ponczek

*Roberto Leon Ponczek é professor de Filosofia e Metodologia da Ciência na UFBA e CIMATEC. É membro da SIB e do Chabad Salvador. Seus pais Tadeusz e Wanda Ponczek sobreviveram ao Holocausto e emigraram para o Brasil depois da Guerra.

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