Parashiot Mechubarot – Behar-Bechukotai

Rabino Uri Lam – maio 2015

Besser a yid mitun a bord vi a bord mitun a yid.

(Melhor um judeu sem barba do que uma barba sem judeu).

Quando teu irmão empobrecer e encostar sua mão sobre ti, deterás sua queda (Lev. 25:35)

Parashat Bahar
O sabor do yidish é o próprio sabor judaico. O yidish é risonho e tristonho; é politicamente incorreto com sabor agridoce. O yidish compõe a alma imoral judaica. Além de tudo isso, mesmo que eu não domine o yidish, o yidish me domina. Este dialeto tem quase tudo o que considero básico para a vida judaica contemporânea: ele é inclusivo, comunitário, ousado – e tudo isso com um delicioso sabor judaico. Sim, o yidish é, definitivamente, judaico. Tão internalizado na alma judaica que deve ter sido entregue ao povo judeu no monte Sinai junto com a Toire, ops, com a Torá.

***

Eu não sei se um dia o mundo foi diferente ou se o individualismo faz parte inata do instinto humano, mas pelo menos na nossa época, se perguntarmos para as pessoas quais seriam as melhores condições para serem felizes no trabalho, uma parte significativa delas dirá que ser independente, autônomo, empreender sozinho é o que mais almejam e desejam. E por que? “Eu serei dono do meu próprio nariz”, dirão alguns. Outros afirmarão sem medo: “Não aguento mais ter chefe. Onde eu trabalho é ainda pior: tem muito cacique para pouco índio. Melhor seria trabalhar sozinho”. O que está acontecendo? Sempre foi assim? O ser humano sempre almejou dominar outros seres humanos, impor seu ponto de vista de forma muitas vezes violenta e cruel? Ou há outras possibilidades de se viver?

Nesta semana lemos as últimas duas porções semanais de Vaikrá, o Levítico, também conhecido como o Livro dos Cohanim, dos sacerdotes. Começamos com a afirmação de que, lá do monte Sinai, Deus ordenou a Moisés que orientasse o povo sobre as leis do ano sabático e do jubileu: em primeiro lugar, a terra deve ser trabalhada por seis anos e descansar no sétimo – o Shabat da terra, quando os produtos que porventura brotarem dela não devem ser comercializados, mas sim franqueados para todos, igualmente. Não importa se o sujeito é o dono da terra ou o empregado, se homem ou mulher, se hóspede ou estrangeiro: todos são iguais. Cada ciclo de sete anos sabáticos culmina com o ano do jubileu, o Ano 50. Neste ano “cada um voltará à sua posse” (Lev. 25:13).

Um dos pontos centrais das relações de ajuste social realizadas a cada 7 anos e a cada 49 anos com ainda mais intensidade está claramente descrito na Torá: “Não enganareis cada um ao seu companheiro – temerás a Deus, pois Eu sou o Eterno vosso Deus” (Lev. 25:17). A regra, desde o monte Sinai, é: vivemos em sociedade. A construção social, a prosperidade ou declínio de um depende necessariamente da relação com seu próximo.O individualismo, ainda mais aquele exacerbado, não cabe. Não é possível olhar somente para o seu próprio caminho e fechar os olhos para o outro que cair ao seu lado.

O outro, para a Torá, é ninguém menos do que o seu irmão – não o seu irmão judeu, não o seu irmão cristão, não o seu irmão de clube, nem mesmo o seu irmão de sangue: mas sim o seu irmão humano – este é o outro. Se este outro cair, é seu dever e é o meu dever deter sua queda: “E viverá contigo… teu irmão viverá contigo” (Lev. 25:36-37).

Ao mesmo tempo a Torá é enfática sobre o risco da idolatria: “Não fareis para vós ídolos nem levantareis para vós imagens de escultura e monumento de idolatria” (Lev. 26:1). Em geral, quando pensamos em ídolos no sentido bíblico, pensamos em imagens esculpidas, totens, santos em ouro, barro, bronze, do que seja. Em um sentido mais moderno, referimo-nos também aos ídolos do showbiz, do mundo do entretenimento, dos empresários e executivos de sucesso. Outros se apegam a lideranças religiosas que fazem questão de se apresentar como ídolos poderosos, carismáticos, muitas vezes com discurso moderno e divertido. Estes ídolos religiosos, por mais que estejam camuflados por discursos “da hora” e com gestos identificados com os da “galera”, não raro acobertam a mesma posição reacionária e excludente de líderes do passado. São adorados por muitos incautos, idolatrados às vezes – mas rejeitados pela Torá. Pois no fim das contas, todos somos iguais e somente Deus é Eterno, Ele é a Existência.

Quando alguém se apresentar como ídolo, como a única voz da verdade, este não será mais do que isso mesmo: um ídolo. Mas o que a Torá espera de nós? Não que sejamos ídolos nem que sigamos ídolos. A Torá espera que sejamos sejamos mentsch: que sejamos gente!

Na melhor expressão da cultura yidish, que carrega há mais de mil anos o melhor do espírito judaico na forma do questionamento, do sarcasmo, da teimosia e da ousadia, ser mentsch é ousar deter a queda do nosso irmão quando este encostar a mão sobre você pedindo ajuda. Ser mentsch é ousar viver em coletividade sem exigir adoração em troca. Ser mentsch é ser judeu no pleno sentido do termo: é ser aquele que escuta a Voz Divina do Sinai dizendo: “Não engane o seu companheiro! detenha a queda do seu irmão, mesmo que ele seja um estrangeiro”. Porque “Eu sou o Eterno vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito… para ser o vosso Deus!” (Lev. 25:38). Ser mentsch é fazer o que é justo. Ainda que este justo não soe religioso nem politicamente correto.

Aquele que se apresenta como o salvador da pátria e o único detentor da verdade – ídolo – fora! Aquele que estende a mão, ajuda o outro e permite que outros também ajudem; que se deixa ser ajudado quando necessário e reconhece seus erros – mentsch!

Oy vey, aqui está o yidish de novo. Yeder mentsch hot zein peckel, “toda pessoa carrega seu fardo”. Se é para carregar fardos, que seja para erguer seu irmão. Se a vida é dura, que você pelo menos seja um mentsch na vida.

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