Parashat Bamidbar

Rabino Uri Lam, SIB, maio 2015

Mitzpeh Ramon Israel

No final do século 19, a partir da visão de Theodor Herzl em “O Estado Judeu” surgiu o projeto de se criar uma base comum entre os diversos grupos étnicos e religiosos judaicos a ponto de se imaginar que, uma vez estabelecidos na Terra de Israel, estes se fundiriam em um só povo para uma só terra: o Novo Judeu no Novo Estado Judeu. Hoje em dia, bastam alguns dias circulando por Israel para se perceber que nem o povo é homogêneo, nem a relação com a terra é a mesma para todos. Para não falar da diversidade entre os judeus na Diáspora.

Poucos anos antes de alcançar a Terra Prometida, lemos na Torá que o projeto divino era que “os filhos de Israel acamparão um diante do outro, cada um baseado em sua bandeira; segundo as referências de seus antepassados acamparão ao redor da Tenda da Reunião” (Números 2:2). Formava-se não um Estado único, mas uma confederação de tribos, cada uma com seus símbolos e histórias particulares, ao redor não de uma única lei estabelecida no Monte Sinai, mas sim da Tenda da Reunião. O espaço de encontro entre Deus e Moisés poderia vir a se tornar um parlamento com representantes de cada uma das tribos, cada uma com sua própria história, seus próprios costumes e modos peculiares de manter o pacto com Deus.

A Torá conta que quando Abrahão temia não ter filhos com Sara, Deus o fez sair e disse: “Olha para o céu e conta as estrelas, se é que pode contá-las…”. Mas de longe é difícil contar as estrelas – e mais difícil ainda é distinguir seus brilhos, os eventuais planetas em volta de cada uma delas, como cada estrela se relaciona com as demais e assim por diante.

Segundo o Midrash Bamidbar Rabá, a situação se compara a um homem a caminhar sem encontrar cidade, pousada, árvore, água ou criatura alguma. Então no décimo dia ele vê uma árvore, aproxima-se e percebe que junto dela tem um córrego. Aos poucos se satisfaz com as frutas, a sombra e a água fresca. Nos dias seguintes encontra pessoas, pousadas e cidades. Quando nos aproximamos, há uma diversidade de bênçãos tão incontável como as estrelas. Com uma diferença: são bênçãos sobre objetos palpáveis.

Vista de longe, a vida pode parecer homogênea, monótona e sem vida. De longe, o povo judeu parece um só e a Terra de Israel uma só. Tornamo-nos então alvo fácil da idealização – o povo escolhido, a terra prometida – e da demonização: somos todos ricos, todos religiosos, todos pão duros, todos comunistas, todos capitalistas, todos fechados. Somos todos, igualmente, alguma coisa. Só que não.

Escutei por boa parte da minha vida que cada um deve procurar o seu igual. Mas ao procurarmos entre nós os diferentes e nos reunirmos com eles, descobrimos que se ousarmos avançar com nossas bandeiras e valores de casa e nos reunirmos a outros grupos com suas próprias bandeiras e valores, seremos capazes de permanecer todos ao redor da mesma Tenda da Reunião. Para além do deserto árido e sufocante de uma única forma de lei para um só povo e uma só terra, podemos nos beneficiar do convívio com diversas ideologias religiosas e nos beneficiarmos dos valores dos demais habitantes da Terra de Israel em toda a sua diversidade.
(Foto: Mitzpeh Ramon, Israel)

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