Parashat Nasso

Rabino Uri Lam

Parashat Nasso

Faremos e Ouviremos?

Na semana passada, na Festa de Shavuot, tivemos um belo encontro comunitário ao renovarmos a nossa aliança com Deus, quando Ele nos entregou novamente a Torá – e nós a recebemos. Passada a semana, eu me perguntei: que Torá recebemos? Qual é o conteúdo dessa Torá? O que ela nos conta? Será a Torá a Lei de Moisés, como é chamada por muitos? Ou será a Torá um antigo livro de histórias hoje ultrapassadas e superadas pela era da informação? Será que a Torá é um manual de conduta politicamente correta ou o oposto disso, a mais subversiva das obras, fruto de um pensamento transgressor que honra a seguinte afirmação: quando achamos que sabemos todas as respostas, vem Deus e muda todas as perguntas? Será que a Torá é um livro para crianças ou para tratar as pessoas de modo infantilizado, como cordeirinhos? Ou será que a Torá é um livro que fundamenta o judaísmo como uma religião para adultos, pessoas com espírito crítico, como dizia o filósofo Lévinas?

Todas essas questões me vieram à mente quando li o seguinte comentário do rabino Abraham Joshua Heschel, de abençoada memória. Quando Deus decidiu entregar a Torá ao povo de Israel, este respondeu a uma só voz: Naassê Venishmá, “Faremos e Ouviremos”.  Esta passagem dá a entender que os israelitas primeiro decidiram receber a Torá sem questionar e só depois, quem sabe, iriam tentar entender o que nela estava escrito. Então vem o rabino Heschel e sugere que, quando Deus decidiu entregar a Torá, os israelitas responderam com uma pergunta: Naassê venishmá?, “Faremos e Ouviremos?” Devemos mesmo primeiro fazer para só depois entender?

Filho da Mitzvá

Um aluno em preparação para o seu bar mitzvá me perguntou certa vez: rabino, o que é ser um filho da mitzvá? Respondi que ser um filho da mitzvá significa ser livre: pouco antes da entrega da Torá éramos escravos no Egito; depois que recebemos a Torá passamos a caminhar em direção a Israel, nossa Terra Prometida. Ele retrucou: “Mas não é assim. Antes não havia regras, logo eu era livre. Com a entrega da Torá, agora há regras que devo cumprir, logo não sou mais livre.”

Fiquei pensando em como sair desta colocação tão intuitiva daquele menino de 12 anos. Foi com isso em mente que li o que a Torá nos conta esta semana.

É para isso que devemos dizer amen e amen???

Entre os vários mandamentos, a Torá nos conta sobre o que deve se fazer em caso de traição. Melhor dizendo, o que fazer no caso de um marido suspeitar que sua esposa está saindo com outro homem. Ele não tem nenhuma prova disso: não há testemunhas de que sua mulher esteja saindo com outro homem. Ele somente está com ciúmes e desconfia dela. O que fazer?

A rigor, não há motivos para o homem desconfiar de sua esposa. Nada indica que ela o está traindo. É ele quem sente ciúmes, é ele quem suspeita da própria esposa, é ele quem desconfia dela. No entanto, segundo a Torá é a esposa que deve ser submetida a um ritual degradante: ela deve ser levada até o sacerdote, que irá descobrir sua cabeça e lhe dar de beber um poção de águas amargas, misturada com sujeira do chão e na qual seria dissolvido um pergaminho com a seguinte maldição escrita a tinta: se ela for culpada, seu ventre inchará de tal modo que ela não poderá mais ter filhos; se for inocente, nada lhe acontecerá. Ao escutar o modo como seria submetida a este tenebroso ritual, a mulher deveria dizer “Amen e Amen.” É a primeira vez que lemos a palavra Amen na Torá: justamente numa condição tão constrangedora.

E então? É esse tipo de lei que nos torna livres? É para isso que devemos dizer Amen e Amen?

A resposta que dei para o meu aluno de Bar Mitzvá é a mesma que nossos rabinos do Talmud nos deram há dois mil anos. Antes das leis éramos espiritualmente escravos, pois como não conhecíamos as regras do jogo, éramos submetidos àquilo que os outros nos diziam que era o certo. Depois que conhecemos as leis, somos livres para cumpri-las, mas também somos livres para desafiá-las e decidirmos não cumpri-las. Somos livres para transgredir leis que, após reflexão racional e ética, entendemos como inadequadas.

Os rabinos David Levin e Shlomo Fucs, professores de Talmud durante minha formação rabínica, costumavam dizer que os nossos Sábios, de abençoada memória, só escreviam sobre questões que mereciam ser debatidas e confrontadas. O que é certo e claro não requer discussão; somente o que é polêmico merece ser discutido. Um tratado inteiro do Talmud, o Tratado Sotá, foi escrito apenas para discutir este estranho ritual ao qual a mulher deveria ser submetida, segundo a Torá. A conclusão do Talmud é que, antes de qualquer coisa, a questão deveria passar por uma investigação detalhada, de modo a evitar ao máximo que tal ritual acontecesse. Em vez de condenar a mulher a priori, o Talmud, em última análise, afirma que um homem que realmente ama a sua esposa nunca deixará que ela se submeta a um constrangimento como este, pois nunca mais a relação de confiança entre o casal seria restabelecida, pelo temor de que os ciúmes viessem a ocorrer novamente e levassem a consequências ainda mais degradantes.

O sábios do Talmud agem conforme a pergunta de Heschel: ao recebermos a Torá, faremos e ouviremos? Não! Antes devemos discutir, estudar e refletir; depois faremos de um modo que dignifique as relações entre seres humanos e destes com o mundo em que vivemos. Somente assim honraremos a confiança que Deus nos depositou ao nos entregar a Torá.

A benção sacerdotal

A Torá traz, na mesma porção semanal, a benção sacerdotal tão conhecida, que inicia com “Que Deus te abençoe e te proteja”. Os rabinos tentam explicar esta benção: Que Deus te abençoe com riqueza e te proteja dos ladrões. Podemos também acrescentar: Que Deus te abençoe com confiança e amor e te proteja da desconfiança e do ciúme infundado. Que Deus te conceda paz.

Link para o texto aqui

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