Parashat Shelach Lechá

Parasha

Rabino Uri Lam

“O que é tzitzit?” Esta tem sido uma pergunta recorrente dos meus alunos e alunas de bar e bat mitzvá quando lhes mostro o talit, o xale de orações com o qual nos envolvemos para as rezas diárias, especialmente pela manhã.

Basicamente, as tzitziot eram franjas que deveriam ser colocadas nos quatro cantos das roupas de homens e mulheres do Povo de Israel: pequenos fios brancos, entre eles um de cor azul-celeste. O conceito é simples: ao vermos estas franjas nas bordas das nossas roupas, devemos nos lembrar de cumprir as mitzvot – os mandamentos divinos – e cuidarmos para não seguir o que nos salta aos olhos, levando-nos muitas vezes a errar.

Nós lemos o Shemá Israel em nossas orações pelo menos duas vezes ao dia. Há uma terceira vez: o Shemá antes de dormir, a ser dito na cama. Nossos rabinos de antigamente reuniram três passagens da Torá como parte desta que se tornou a maior afirmação da fé judaica:

Shemá Israel, Ad-o-nai Elo-h-enu, Ad-o-nai Echad 

Escuta Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um

Reb Zalman Schachter-Shalomi, de abençoada memória, conhecido rabino que inspirou o Renewal Judaism, um vibrante movimento de renovação judaica ao redor do mundo, afirmava que o Shemá não é voltado somente para os homens, mas para todos os homens e mulheres do Povo de Israel. Quando dizemos “Shemá Israel” devemos incorporar que este é um mandamento coletivo dirigido a todos nós, homens e mulheres judeus; mas também devemos aceitá-lo como mandamento, um chamado divino para cada um individualmente: Shemá Ariel, Shemá Vivian, Shemá Luiz, Shemá Lea, Shemá Luciano, Shemá Juliana, Shemá Yehuda, Shemá Joyce, Shemá Uri, Shemá Sara – e assim por diante.

Não é por acaso que os sábios dos tempos do Talmud, há mais de 1.800 anos, reuniram três parágrafos à afirmação máxima do Shemá, voltados a todos os membros do Povo de Israel. A ordem de colocação de tzitzit, biblicamente falando, se referia a homens e mulheres – a justificativa de que seria apenas para homens porque o texto está no masculino plural não se sustenta diante do óbvio: o plural masculino inclui, por convenção, homens e mulheres – também no hebraico.

Em nossa parashá, Deus deu uma ordem clara a Moisés: ele deveria enviar doze homens a Canaã para verificar se aquela era uma terra boa ou ruim, se suas cidades eram fortificadas ou abertas, se era fértil ou árida, se havia gente por lá ou não e se os cidadãos eram amigáveis ou arredios. Ao retornarem, depois de 40 dias, o grupo de observadores voltou dividido: embora todos afirmassem que a terra era fértil, rica em leite e mel – ou seja, própria para a criação de animais e boa para a plantação, já que o mel aqui se refere, provavelmente, ao extrato das tâmaras – a maioria afirmou que não seria possível nem entrar lá, pois a gente daquelas terras era de gigantes e que aos seus olhos nós éramos como insetos.

O povo se desesperou e pediu, novamente, para retornar para o Egito. Se fosse hoje, diriam: “Afinal, não era assim tão ruim, no Egito. Ao contrário, era muito bom! Havia alguns probleminhas, mas as tzures em Canaã certamente são maiores! Quem disse que não seremos escravos em Canaã ou pior ainda, quem falou que não morreremos nas mãos dos gigantes? Sempre vivemos no Egito. Eu não quero ir para Canaã”.

O mandamento era Shelach Lechá: Envie a Si Mesmo. Em outras palavras: Ei você, siga em frente! Não temos outro lugar para ir. Aquela é a nossa terra. Enviamos homens preparados, líderes de suas tribos. A maioria deles, no entanto, não seguiu a ordem divina, mas sim o que disseram seus olhos. Paradoxalmente, a visão empírica não oferecia uma percepção objetiva da terra e de seus habitantes: eles enxergaram com os olhos do medo.

Sobre o que disseram ao povo – que para aqueles gigantes eles eram como insetos – o pensador Yeshaiahu Leibowitz se pergunta: como eles poderiam saber qual era a perspectiva aos olhos dos gigantes? Como sabiam o modo dos povos de Canaã de pensar se nem chegaram a falar com eles? Logo, os espiões se enganaram por, em vez de escutar o outro, considerar somente o que pensavam a respeito do outro. Enganaram-se redondamente. E levaram o seu engano para o povo.

Talvez não seja a toa que logo no final desta porção semanal, Deus tenha nos ordenado a usar tzitzit, fios que servissem de lembretes de que não devemos seguir os conselhos dos nossos olhos – ou colocado de outro modo, não devemos julgar uma situação inspirados somente em dados subjetivos, principalmente se estes forem inspirados pelo medo e pela desconfiança.

Estávamos muito próximos de entrar em Israel. Em quarenta dias os espiões foram, observaram e retornaram. Mas o medo que contaminou o povo por conta do pessimismo de dez dos doze espiões retardou a chegada em quarenta anos.

Quarenta anos é o número simbólico da Torá que se refere à passagem de uma geração. As dez lideranças que levaram o povo a querer voltar para o Egito morreram na mesma hora. Em seguida, uma geração inteira seguiu andando à exaustão pelo deserto e acabou morrendo ali mesmo. Esta ficou conhecida como “A Geração do Deserto”. A geração seguinte, liderada por Yehoshua Bin Nun e por Kaleb ben Yefune, ficou conhecida como a geração que entrou em Canaã: que teve coragem de enviar a si mesma para Israel, com a cara e a coragem.

A nós resta saber se desejamos colocar tzitzit em nossas roupas e seguirmos em frente, se desejamos ser a geração que entrará em Israel; ou se seguiremos somente os conselhos dos nossos olhos, que nos amedrontam ao nos dizerem que são tão grandes as dificuldades para alcançarmos um novo patamar comunitário que é melhor ficarmos onde estamos. Assim como a geração do deserto, se agirmos assim, morreremos na praia.

A parashá termina com a afirmação de Deus de que Ele nos tirou do Egito, da Casa da Escravidão. Cabe a nós, agora, seguir em frente, de todo coração, com toda a alma e com todas as nossas posses, despedirmo-nos de modo honroso e digno de um passado glorioso e seguir, de cabeça erguida, em direção à nova Terra Prometida.

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