Parashat Korach

Rabino Uri Lam, junho 2015

Parashat Korach

Discussão em nome dos Céus

Toda discussão que for em nome dos Céus, por fim perdurará; e a que não for em nome dos Céus, não terá um fim duradouro. Qual é uma discussão em nome dos Céus? A discussão entre Hilel e Shamai. E qual não é em nome dos Céus? A discussão de Korach e toda a sua facção.  (Ética dos Pais 5:17)

Os Anos 80 marcaram um dos momentos mais importantes na minha vida: o meu bar mitzvá. Naquele 26 de junho, no dia 5 de Tamuz de 5742, eu me preparava para ler o maftir e a haftará referentes à parashát Korach, na Congregação Israelita Paulista dos tempos do rabino Pinkuss, do rabino Sobel e do rabino Marcelo Rittner, que dirigiu os serviços religiosos no dia em que me tornei um bar mitzvá. Não foi nada fácil. Meu moré de bar mitzvá era ninguém menos do que meu pai. Nós nos deitávamos no tapete, no chão da sala, e ele me “tomava" os estudos dos cantos da Torá e dos Neviím (Livros dos Profetas). Se algo me fica hoje daqueles estudos, é que foram realizados inteiramente Leshem Shamaim, em Nome dos Céus. Foram estudos transmitidos com amor de um pai e recebidos com amor por um filho. Conta a nossa tradição que quando duas ou mais pessoas estudam Torá juntas com amor, Deus certamente está entre elas. Creio que meus estudos sobre a parashat Kórach foram Leshem Shamaim; por isso certamente perduraram até hoje.

Discussões vãs

De lá para cá pude acompanhar diversas discussões ao longo da vida que, paulatinamente, fui percebendo que não levavam a lugar nenhum. Eram discussões por motivos egoístas. Os interesses variavam: ora a discussão servia para que seu proponente se colocasse no papel de justiceiro, herói, depositário dos mais elevados valores éticos, em corajoso combate contra os supostos adversários da justiça. Em outros casos, a polêmica era ainda mais gratuita: afinal, tem gente que tem uma enorme necessidade de “movimentar as coisas” sem nenhum objetivo real definido: “sou polêmico mesmo” para eles é motivo de orgulho. Mas para quê levantar tal polêmica? Em geral para nada. E uma discussão que não tem razão de ser não pode levar a lugar nenhum mesmo. Há ainda pessoas que levantam certas discussões para atacar e diminuir o outro, imaginando assim abrir espaço para ocupar o lugar deste outro e elevar a si mesmo. Ledo engano: ao diminuir o outro, diminuímos a nós mesmos.

As boas discussões: Hilel e Shamai

As discussões entre as escolas rabínicas de Hilel e Shamai ficaram famosas. Registradas na Torá Oral, tais discussões entre pontos de vista muitas vezes opostos eram estabelecidas “em nome dos Céus”, ou seja, com respeito e tendo por objetivo um fim muito mais elevado do que a autopromoção ou a destruição do interlocutor. Apesar de suas diferenças, o Talmud registra que as filhas de Shamai continuaram se casando com os filhos de Hilel e as filhas de Hilel continuaram se casando com os filhos de Shamai. Uma discussão em nome dos Céus perdura, cria atividade: criatividade, vida. Em contrapartida, a discussão, a controvérsia, a polêmica gratuita não perdura, morre e gera morte.

Kórach e a morte em vida

Kórach era provavelmente um homem que se considerava bom e poderoso. O discurso e a mensagem de Kórach lembram muito o discurso democrático e as forças políticas progressistas contemporâneas, no sentido geral e mesmo dentro da comunidade judaica. Ao desafiar a liderança de Moisés e Aarão, o grupo de revoltosos – liderados por Kórach, Datan e Aviram, e On, acompanhados de outros 250 chefes e homens de renome – afirmou, ameaçador: “Bastai-vos! Pois toda a congregação, todos eles, são santos; e entre eles se encontra o Eterno. E por que vos elevais sobre a congregação do Eterno?” (Núm. 16:3). A argumentação parece justa: diante de tantos desafios, por que Moisés, um outsider, praticamente um príncipe do Egito, deveria liderá-los politicamente? E por que Aarão, seu irmão, deveria ser o sacerdote?

A questão é que os objetivos de Kórach e dos demais “chefes” não eram em nome dos Céus, em favor de Deus ou da comunidade, mas sim em nome de si mesmos. O poder pelo poder era o seu interesse. O corporativismo era sua prática. Em uma linguagem nem tão atual assim, eu diria que Kórach e sua gente agiam como verdadeiros mafiosos. É de dar medo, num primeiro momento; mas não perdura.

Apesar de advertidos, Kórach e sua gente seguiram em frente, confiantes de que tomariam o poder de Moisés e Aarão. Mas seu destino foi outro: “Estes homens iraram o Eterno… a terra fendeu-se debaixo deles, e a terra abriu sua boca, tragando-os e às suas casas – todos os homens de Kórach… desceram vivos em direção ao Sheól; a terra os cobriu – e desapareceram do meio da congregação.” (Núm. 16:30-33)

Kórach e os seus desceram vivos ao inferno, por assim dizer. A morte em vida é muitas vezes o destino daqueles que buscam, por motivos que não o dos Céus, por questões mesquinhas, por irritação ou até mesmo por tédio, destruir ou maltratar o outro.

Os filhos de Kórach

Contudo, mesmo quando cometemos erros graves como este, de buscar o poder pelo poder, de criar a polêmica pela polêmica, de defender uma causa má e perversa usando argumentos democráticos, justos e elevados – mesmo quando descemos vivos ao Sheol, é possível a teshuvá, o retorno através do arrependimento. Pedir perdão é um caminho difícil. Buscar apoio religioso ou profissional para rever condutas, comportamentos e falas, pode ser uma trilha espinhosa, mas possível, para se sair do buraco em que se enfiou. Se não fosse assim, o que explicaria o fato de tantos salmos terem sido atribuídos aos filhos de Kórach? Vejam por si mesmos: os salmos 42 a 49, 84, 85, 87 e 88 são atribuídos a descendentes do líder revoltoso contra Moisés e Aarão.

Alguns analistas de crítica bíblica argumentam que os salmos teriam sido escritos até mesmo antes de toda essa revolta descrita no livro de Números. Não entrarei neste mérito. O nível simbólico me interessa mais. Nos últimos dias o filho de um nazista, convertido ao judaísmo e que imigrou para Israel, foi a uma escola judaica conversar com professores e alunos. Do mesmo modo, os filhos de Kórach sobreviveram, escolheram um caminho diferente do seu pai e escreveram poemas tão belos como este: “Ao mestre do canto, sobre Guitit, um salmo dos filhos de Kórach… Felizes dos que vivem na Tua Casa, pois Te louvarão continuamente; felizes do que têm sua força em Ti e em cujos corações estão os Teus caminhos. Ao atravessarem o vale árido, transformam-no numa fonte que jorra, como se uma chuva o tivesse coberto de bençãos.” (Salmos 84:1, 5-7).

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2 pensamentos sobre “Parashat Korach

  1. Uri ! não é pra qualquer um ter um filho como VC.Só tendo muita sorte.Teu Pai e Eu realmente fomos premiados.
    Agradeço a Deus todos os dias pelos filhos que tive.E que estes sejam sempre abençoados para vida,Com sinceridade ,
    sejam sempre honestos, bons maridos bons pais isso ainda espero ver de vc . filhos te darem tantas Naches,o quanto vc nos da lembrando sempre do Papai,ensinando suas brachot,durante o tempo que vc esteve se preparando p/ o Bar Mitzva.
    E mesmo bem preparando, por ansiedade ou por medo de errar e não sair como vc gostaria, ficou mal, com febre, vômitos
    mesmo assim deu o seu recado.Isso na colocação do tefilin,Mas no dia do Bar Mitzva: Vc brilhou estava confiante, com todos os nossos familiares perto,todos com a graças de Deus vivos e bem de saúde,Felizes vendo seu 1º neto tornando-se responsável pelos atos.alegria do Rab. Marcelo Ritinner , Mas não sabíamos o que o futuro nos traria. Mas agora nos sabemos uma pessoa como nos desejamos, e um Rav Uri Lam.
    UM abraço bem apertado só posso dizer Obrigado por vc Uri ser meu FILHO

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