SIB representada em encontro entre Judeus e Católicos em Roma

Por Jacqueline Moreno

 

Uri Lam entrevista

Durante os quatro dias, de 28 de junho a 1º de julho,  o Passado, o Presente e o  Futuro  do Relacionamento Cristão Judaico  se convergirão para o diálogo e a comemoração do cinquentenário da Nostra Aetate, a Declaração sobre as Relações da Igreja com as Religiões Não-Cristãs,  votada e aprovada pelos Bispos do Concílio Vaticano II, em 28 de Outubro de l965.

O Rabino Uri Lam representará a Sociedade Israelita da Bahia (SIB) e contribuirá para edificar coletivamente os laços de visão pacífica humanitária durante a Conferência Internacional 2015 do ICCJ – Conselho Internacional de Cristãos e Judeus em parceria com a Fraternidade Hebraico-Cristã de Roma (informações adicionais no site (www.iccj.org).

Para o SIB e-News, Jacqueline Moreno entrevistou o Rabino antes da sua viagem e a ideia e no seu retorno, saber os detalhes e conclusões deste encontro que ficará na história, ainda mais em tempos de turbulências e incertezas.

Jacqueline Moreno: Este encontro inter-religioso com o papa será um passo importante para o diálogo. Como se sente fazendo parte deste momento histórico?

Uri Lam: É uma grande emoção fazer parte deste encontro, após tantos anos fazendo parte e estimulando o diálogo católico-judaico. Eu me lembro bem das imagens do rabino Henry Sobel encontrando-se com o Papa João Paulo II e compreendia que estava diante de um fato dos mais relevantes: após quase dois mil anos de conflitos, estávamos nos dando as mãos. Mas estou ciente de que ainda estamos nos primeiros passos deste processo de reconciliação. Busco seguir os passos de meus antecessores, dar meus próprios passos ao lado de meus colegas religiosos e, no futuro, permitir que outros avancem ainda mais. Sinto o peso da responsabilidade. Não um fardo: um peso que estimula e fortalece os músculos da alma.

JM: Qual a importância no diálogo judaico cristão quanto ao fato da igreja católica ter reconhecido que os judeus não foram os responsáveis pela morte de Jesus?

UL: A importância é a própria valorização da vida. Os judeus carregaram injustamente a responsabilidade pela morte daquele que se tornaria um ícone da divindade para boa parte da humanidade. Ainda hoje esta acusação alimenta o antissemitismo, o ódio aos judeus. A igreja católica reconhecer que errou é o primeiro passo para o processo de cicatrização de uma ferida que já sangrou demais. Mas 50 anos equivalem simbolicamente a pouco mais de uma geração. São necessárias muitas gerações para que as feridas de séculos cicatrizem. A acusação de os judeus terem matado Jesus levou à morte física, moral e espiritual de milhões de judeus. A teshuvá – o arrependimento e correção de rumos – da igreja católica permite que todos nos dediquemos, juntos, à vida e não à morte.

JM: Você acha que este evento pode abrir possibilidades para uma aproximação do povo judeu com outros povos e crenças? De que forma?

UL: Entendo que este evento pode permitir que sejam dados novos passos na aproximação, no diálogo e em ações conjuntas entre judeus e católicos visando o bem estar do ser humano. Este evento pode e deve servir de exemplo para outros encontros bilaterais com membros de outros povos e crenças. O encontro plurirreligioso é importante, mas creio que podemos nos aprofundar mais em nossas diferenças e semelhanças nos encontro a dois. Um passo por vez.

JM: O que acha do Papa Francisco como líder religioso?

UL: Vejo o Papa Francisco como um ser humano, como um homem, como alguém mais perto do seu povo e dos demais povos. Um homem que, com um sorriso largo simplicidade e doçura, tem coragem de expor à luz as sombras da sua igreja e da humanidade. Um homem que fala o que pensa, assumindo sua falibilidade. Vejo o papa como um homem que busca realizar o que nós, judeus, chamamos de tikun olam, consertar o que está errado no mundo. Ele sabe que acertará e errará neste processo. Vejo o Papa como um homem que enfatiza suas ações na pessoa, no ser humano. Assumindo-se emocional e falível através da sua humildade, ele se torna um líder religioso muito mais próximo das pessoas. Gente como a gente. E isso faz toda a diferença.

JM: Você tem perguntas ou assuntos para também compartilhar entre os presentes do encontro? Pode adiantar alguns pontos focais?

UL: Estou indo para aprender. Quero conhecer mais sobre a história dos judeus em Roma e na Itália. Quero estudar novamente Martin Buber, o grande filósofo judeu do pensamento dialógico, agora com olhar para o diálogo católico-judaico. Quero me deixar envolver, bem no clima de “shemá Israel”, escute Israel! Escutar, escutar e escutar. Para depois poder compartilhar o que entrar no meu coração. Este é o meu foco. Escutar, aprender.

JM: Possivelmente terá a chance de conversar com o papa. Qual a mensagem que gostaria de deixar para ele?

UL: Não sei se terei a chance de conversar com o papa. Terei a chance de estar, com meus colegas judeus e católicos, na mesma sala que ele. Talvez possa cumprimentá-lo, dar as mãos, abraçá-lo. Ainda não sei o que dizer, mas hoje eu talvez dissesse: “Papa, somos todos anjos de Deus. Todos somos Seus mensageiros. Aproveitemos o momento para levarmos as mensagens corretas, de paz entre os povos. Israel quer paz.”.

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