Parashat Pinchas

Rabino Uri Lam

All we are saying is give peace a chance
All we are saying is give peace a chance 
C'mon
Ev'rybody's talking about Ministers,
Sinisters, Banisters and canisters
Bishops and Fishops and Rabbis and Pop eyes,
And bye bye, bye byes.

(John Lennon)

Dêem uma chance à paz

Pinchas, que era neto do Sacerdote Aarão, parece não ter simplesmente herdado a condição de sacerdote: ele teria feito por merecer. Graças a uma determinada ação, o jovem recebeu de Deus uma aliança de paz – mais do que isso, uma aliança de sacerdócio perpétuo, “porque zelou por seu Deus e fez expiação pelos filhos de Israel”. (Núm. 26:2)

Ao buscar conhecer mais sobre a personalidade de Pinchas, deparei-me com um comentário que me soou forte. Diz assim: “As duas parashiot anteriores a Pinchas – Chukat e Balak – muitas vezes são lidas em conjunto (apenas em Éretz Israel). As duas parashiot posteriores – Matot e Massê – são quase sempre lidas juntas. Pinchas, que está entre estas parashiot, está sempre sozinho. Por quê?? Isso nos ensina que quando você é um Kana'i (zelote), você deve estar preparado para passar a sua vida sozinho. As pessoas não têm coragem de lutar pelo que é certo; e mesmo que comecem a lhe seguir, uma vez que você olhar em volta elas já terão ido.”

O que Pinchas fez para ser merecedor de uma aliança de paz? O que Pinchas fez para ser digno de uma aliança de sacerdócio perpétuo?

Na leitura anterior (Balak), estudamos que Deus ficou furioso com uma parte dos israelitas, pois estes se uniram às jovens moabitas e se voltaram à divindade conhecida como Baal Peor. Deus então ordenou que, para que o Seu furor se retirasse de Israel, os demais deveriam julgar e enforcar os transgressores. Por sua vez, Moisés ordenou que se matasse todo homem que tivesse se juntado a Baal Peor. Em outras palavras: se um indivíduo tivesse relações sexuais com uma mulher não israelita em público, os demais tinham o direito de fazer justiça com as próprias mãos. Foi o que Pinchas fez. 

Nem bem Moisés dera a ordem, surgiu diante do olhar de todos o príncipe Zimri ben Salu, da tribo de Shimon, ao seu lado a jovem Cozbi, filha de Tzur, um líder do povo de Midian. Os israelitas, tomados pela surpresa, passaram a chorar, como que paralisados e sem saber como agir. O furor divino explodiu. Os homens começaram a morrer como insetos. Mas um homem seguiu à risca a ordem de Deus e de Moisés. Pinchas tomou uma lança em sua mão, foi atrás do homem de Israel e atravessou-o, junto com a jovem, pelo ventre. No mesmo instante a mortandade entre os israelitas cessou. Mas 24 mil já estavam mortos. Pinchas zelou por seu Deus. 

Buscar a paz – ou persegui-la?

Um dos avós de Pinchas, sabemos, era Aarão. O irmão de Moisés é o ícone do homem que persegue a paz (rodef shalom). A ideia de perseguir a paz é, por assim dizer, uma faca de dois gumes: por um lado, perseguir a paz é buscar a paz; por outro, perseguir a paz é impedir que a paz se estabeleça. Aarão, sem dúvida, é um rodef shalom. Aparentemente, Pinchas também é um rodef shalom: afinal de contas, ao agir como agiu, zeloso do Nome de Deus, recebeu do Todo Poderoso uma aliança de paz. Mas será que Pinchas perseguia a paz do mesmo modo como seu avô Aarão perseguia a paz?
Pinchas pegou em armas para cumprir a ordem divina. Ao matar o jovem casal que causara o furor divino e provocou uma matança entre o povo, Pinchas alcançou a paz. No entanto, esta paz estava ferida. Como sabemos disso? Porque na Torá, a palavra Shalom, Paz, tem uma letra cortada ao meio: o Vav. É como se Paz estivesse escrita P-z.

Kanaí – zeloso ou fanático?

O termo kanaí em hebraico significa zeloso. Zeloso de Deus. Tanto nos tempos antigos como nos tempos atuais, o excesso de zelo pode se transformar em fanatismo religioso. É tudo uma questão de dosagem: zelar pelo Nome de Deus, seguir Seus mandamentos, viver de acordo com o que Deus espera de nós pode nos permitir que busquemos a paz através de boas ações e do amor ao próximo. No entanto, o zelo extremo pode nos tornar fanáticos, incapazes de nos colocarmos no lugar do outro, incapazes de cumprir a mitzvá de amar ao próximo como a si mesmo. Porque o fanático, na sua ânsia de zelar pelo Nome de Deus, perde a capacidade de enxergar o outro. E por conta desta incapacidade, deixa de buscar a paz e passa a persegui-la.

Lemos nos Salmos: “Pinchas, porém, levantou-se contra esse comportamento e fez justiça com as próprias mãos, fazendo cessar a praga”. (Salmos 106:30) Justiça com as próprias mãos??
Os fanáticos de hoje em dia também estão convictos de que, através de seus atos, alcançarão a paz para todos. Nem que seja ao fio da espada. Nem que seja forçada. Estamos fartos de ver isso acontecendo ao redor do mundo. Os fanáticos do Estado Islâmico perseguem a paz matando furiosamente os “infiéis”. Fanáticos religiosos de outras crenças atiram pedras nos “pecadores” e buscam convencer o mundo de que, fora da sua crença, não há salvação. Todos estes perseguem a paz. Nenhum deles busca a paz de fato. Porque paz sem bondade é como a paz alcançada por Pinchas: uma paz ferida, imperfeita, fanática, falsa. 

Enfim, assim como Aarão buscava a paz há mais de 3 mil anos, façamos como afirmou John Lennon há quase 50 anos: Tudo o que estamos dizendo é: dêem uma chance à paz. 

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