Drashá sobre Parashat Devarim

Rabino Uri Lam, julho de 2015

Moisés se dirigiu para todo o Povo de Israel

Parashat Devarim

A língua é minha pátria

E eu não tenho pátria, tenho mátria

E quero frátria

Poesia concreta, prosa caótica

(Caetano Veloso, Língua, 1984)

Para quem Moisés se dirigiu quando falou ao Povo de Israel? Não foram palavras voltadas somente para uma parte específica do povo. Poderiam ter sido escolhidos os sacerdotes: este seria o seu privilégio e sua responsabilidade, mas também seria um instrumento de poder. O sacerdote poderia escolher o que dizer e o que não dizer – e mais do que isso, como dizer. Também não foram escolhidos somente os homens: afinal, tudo indica que na época a sociedade israelita era patriarcal. Mas em vez de transmitir suas palavras somente para os sacerdotes ou para os homens, Moisés as transmitiu e para todo Israel, sem distinção.

E em que idioma Moisés transmitiu estas palavras? Assumimos que foi em hebraico – mas será? Será que foi em hebraico, ou pelo menos no hebraico tal como conhecemos? Com os mesmos significados e com as mesmas ênfases que temos hoje? Provavelmente não. Sabemos, no máximo, que o relato nos chegou escrito em hebraico.

Muitos séculos depois, nossos sábios registraram no Midrash Devarim Rabah (Seder Devarim Parashá Alef) que os livros do Tanach poderiam ser escritos não apenas em hebraico, mas no idioma da nação. Porém, Raban Gamliel entendeu que não era bem assim: além do hebraico, o Tanach só poderia ser escrito em grego. E por que em grego? A explicação é bastante engenhosa: o grego, tido como o belo idioma de Yefet, um dos filhos de Noach, estabeleceu-se nas “tendas de Shem”, que são as sinagogas e centros de estudos judaicos.

Aí está: vivemos desde sempre num mundo muito maior do que somente o mundo judaico. Aqueles que já tiveram a oportunidade de visitar Tzipori, em Israel, encontram entre os sítios arqueológicos mosaicos nos pisos das antigas sinagogas e restos de templos dedicados a divindades gregas. Nossos sábios reconheceram – e valorizaram – o fato de que a cultura e a tradição judaica estava também permeada pela bela língua e pela sofisticada cultura grega; e que era preciso coexistir.

Hoje em dia vivemos mergulhados na Era da Informação. Eu escrevo em português e traduzo meu comentário para o inglês (este comentário também está sendo publicado pelo projeto Torah Around the World e distribuído para o mundo inteiro, pela WUPJ – World Union for Progressive Judaism), que muitas vezes faz as vezes do grego para os nossos tempos. Para este mesmo comentário da Torá, que fala das palavras ditas por Moisés e dirigidas para todo o povo, todos nós, homens e mulheres de todos os tempos e origens somos convidados a interagir, interpretar, criar novos significados. Somos bombardeados por palavras criadas, comentadas e discutidas instantaneamente o tempo inteiro.

O idioma, como diz o cantor e compositor Caetano Veloso, que se apresenta no fim deste mês de julho em Israel, é a nossa pátria; no entanto, ele protesta: “E eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria”. Assim como os judeus reformistas e progressistas reivindicam nos últimos anos, Caetano clama que a língua, que molda o modo como nos comunicamos e pensamos, não é somente um legado de nossos patriarcas, mas também de nossas matriarcas. O tempo patriarchal passou; temos hoje também as mulheres, as mães – professoras, rabinas, líderes – como protagonistas na arte de criar novas línguas e novos significados. Mas se hoje é tempo de afirmarmos o papel da mulher na sociedade judaica, Caetano Veloso nos inspira a buscar o dia em que nossa língua será a fátria, o equilíbrio do discurso, da expressões e interpretações do nosso legado literário, religioso e espiritual. Não o discurso politicamente correto, com extrema cautela para não ofender mulheres, gays, judeus, negros, pessoas com necessidades especiais de todo tipo. Moisés, afinal, falou para todo o povo de Israel: que todo o povo, em sua diversidade, tenha o direito de dialogar com Moisés com o mesmo nível de protagonismo, respeito e dignidade.

Por outro lado, se todos têm direito igual a expressão e todos devem ser escutados, vale tudo? O que nos une? Quem ou o que pode servir de guia? Pois se, com leis claras e organizadas, como propõe a Halachá, a poesia, as histórias e metáforas da Torá podem se tornar lei concreta, poderíamos imaginar que se cada um vê o mundo de um modo diferente e todos os modos são igualmente valorizados, o legado será algo parecido com uma “prosa caótica”, sem começo nem fim – e sem sentido.

Nas últimas semanas acompanhamos, chocados mas não surpresos, as palavras do ministro de assuntos religiosos de Israel, David Azoulay do partido ultaortodoxo Shas, ao afirmar que os judeus reformistas, não são judeus. No entanto, o que une o povo judeu não é a autoridade do Sr. Azoulay nem o establishment estatal ortodoxo de Israel: o que nos une como irmãos não é somente o hebraico como língua pátria nem qualquer instituição que se considere mãe de todas as demais. O que nos une é a Torá, a Torá como a nossa frátria: o texto por trás do texto, a linguagem espiritual através da qual Moisés se dirigiu a todo o povo de Israel indistintamente.

Foi assim que Ezra faria mais adiante com a própria Torá de Moisés, no retorno a Israel após o exílio na Babilônia, quando a trouxe para ser lida diante dos “homens e mulheres capacitados a compreender o que lhes fosse apresentado” (Neemias 8:2). Será que não teríamos assim uma Torá uniforme, uma única voz, uma única visão, uma única verdade? Pode ser. Mas não foi assim. Não era para ser assim. Uma Torá com uma voz única? Não é esta a Torá de Moisés.

Por fim, o início de Devarim Rabá propõe um caminho otimista: “Disse Hakadosh Baruch Hu: Vejam a língua da Torá, como é querida! Pois cura o idioma. Qual é a fonte? Está escrito: ‘A língua benigna é árvore de vida’ (Provérbios 15:4)

E a árvore de vida não é outra, mas sim a Torá, como está escrito: ‘Ela é a Árvore da Vida para quem a sustenta’ (Provérbios 3:18).

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