Parashat Vaetchanan/ Shabat Nachamu – julho de 2015

Rabino Uri Lam, SIB

kotel
Escuta Israel – Eternamente

Já há algumas semanas o senhor Leib me recorda que em Shabat Nachamu ele comemora, como todos os anos, o seu bar mitzvá.  A cada ano eu me emociono com tamanha disposição deste homem que, este ano, faz a leitura que conclui a porção semanal de Vaetchanan pela 78a vez. Há poucos dias, Leib completou 90 anos. Chamamos a leitura de Nachamu, Consolai, por conta do day after, digamos assim, após a semana de Tishá Beav, o dia 9 do mês judaico de Av, quando recordamos a destruição dos dois templos sagrados de Jerusalém. O momento agora é de recuperação. E cada vez que vejo o senhor Leib a me lembrar, semana após semana, que chegou o momento de comemorar o seu bar mitzvá, uma injeção de ânimo toma conta de mim: afinal, mesmo depois das piores tragédias, sempre é possível comemorar algo bom, trazer à tona os bons momentos que nutrem nossas almas para seguirmos em frente.

Na Torá, Moisés passava por um mau momento; mau não, péssimo. Depois de pedir, rogar, implorar a Deus para entrar na Terra de Israel após liderar o seu povo por 40 longos anos pelo deserto, Deus diz que a decisão de não lhe permitir entrar é definitiva: “Ordena a Josué, anima-o e fortalece-o, porque ele passará na frente deste povo e ele o fará herdar a terra que verás” (Deut. 3:28). Moisés verá Israel – mas Moisés não pisará em Israel, nem escutará as vozes de Israel, tampouco sentirá os aromas de Israel, menos ainda sentirá na boca o sabor do leite e do mel.

Contudo, a esperança é renovada: “E vocês que estão aderidos ao Eterno seu Deus – estão todos vivos hoje” (Deut. 4:4). A conexão com a Torá, com o legado divino transmitido por Deus a Moisés e deste para o Povo de Israel, ocorria principalmente pela audição. De geração em geração, mestres transmitiam a seus discípulos, oralmente, o que haviam escutado de seus próprios mestres, em uma escala que, na origem, chegava até Moshe Rabeinu, o nosso mestre maior, Moisés. Hoje em dia, pouco antes de o baal keriá, o leitor ler a Torá e oferecer aos presentes a oportunidade de escutarem, mais uma vez, a sabedoria de Moisés, repetimos juntos esta oração: Veatem hadvekim bAd-nai Elohechêm chaim kulchêm haiom. E vocês que estão aderidos ao Eterno seu Deus – estão todos vivos hoje. Moisés segue vivo através de suas palavras, escutadas geração após geração por homens e mulheres, velhos e crianças, casais e amigos, judeus e não judeus. Que escuta com atenção, prestando atenção ao sentido destas palavras sagradas, conecta-se a Deus e permanece espiritualmente vivo, pulsante, entusiasmado. Aliás, entusiasmado é um termo ótimo: refere-se à pessoa envolvida pela Presença de Deus.

As palavras de Moisés transbordaram da porção semanal Vaetchanan para a liturgia judaica. Outra passagem que recitamos todos os dias, na oração Aleinu, é: “Você saberá hoje e considerará no seu coração que o Eterno – Ele é o Deus em cima no Céu e embaixo na Terra; não há outro” (Deut. 4:39). Seguimos ainda com a segunda versão de Asséret Hadibrot, as Dez Falas – conhecidas como os Dez Mandamentos. Mas a oração mais importante e mais significativa que Moisés nos transmitiu foi: “Escuta Israel, o Eterno é nosso Deus, o Eterno é Um. Você amará o Eterno seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todas as suas posses. E que estas palavras que Eu lhe ordeno hoje estejam sobre o seu coração: que você as ensine aos seus filhos, fale delas quando estiver na sua casa e ao seguir por seus caminhos; quando for se deitar e ao se levantar. Você deve amarrá-las como um sinal ao seu braço e elas devem ser um adorno entre os seus olhos. Você deve escrevê-las nas mezuzot da sua casa e dos seus portões. (Deut. 6:4-9)

Ao escutar estas palavras, cada judeu e cada judia se conecta ao divino, ao Eterno, à Existência. Vivos, despertos, entusiasmados, amamos a Deus de todo modo possível e imaginável. Este amor transborda a ponto de o transmitirmos quando estamos em casa com a família, junto aos amigos e conhecidos que fazemos pelos caminhos, bem como quando estamos sozinhos e, em nossas orações e meditações, nos conectamos com Deus dentro de nós: “E vocês que estão aderidos ao Eterno seu Deus – estão todos vivos hoje”.

O Shemá ressoa no coração e na alma de todo judeu. O Shemá continua a vibrar, mesmo que tampemos os ouvidos. O Shemá nos permite reconhecer nossos irmãos e irmãs de Israel. Através do Shemá nos conectamos ao Divino. Enquanto escutarmos este chamado, continuaremos vivos – eternamente.

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