Comentário sobre Parashat Ki Tetsê

Parahsat Ki Tetse

 

A Parashá desta semana, Ki Tetsê (Quando saíres…), aborda alguns temas que, se tratando de judaísmo, e ressalvadas as diferenças históricas, são relevantes nos contextos mundial e interno. A guerra ( que volta a ser mencionada em relação à bela mulher cativa), os direitos civis e familiares, as diversas relações de cunho íntimo, punições, Israel como uma nação e Amaleq, entre outros, são mencionados e, até certo ponto, detalhados. Na verdade, Moshê continua suas admoestações e ensinamentos que começara a passar ao Filhos de Israel desde o início do livro de Devarim, como foi salientado pelo Dr. Rogério Palmeira na semana passada.
No entanto, gostaria de me concentrar no que é dito bem no início desta sidra. São palavras simples que ajudam a compor o próprio nome da Parashá. “Quando saíres à guerra”. (21:10). A lição que de imediato aprendemos é que há leis sobre a guerra na Torá. Ao invés de atentarmos para o fato de que esse assunto, tão “nefasto” para a mente de hoje, faz parte de um dos dois mais importantes livros “religiosos” do povo judeu ( o outro sendo o Talmud), atentemos para o fato de que em um tempo em que valia tudo quando se tratava de guerra, valor que, diga-se de passagem, ainda permeou as ações da Alemanha Nazista, a Torá vem e diz: “Calma lá! Vocês não! Vocês agirão de forma diferente quando forem à guerra!”. Estava assim inaugurado o conceito de que mesmo em tempos de guerra há lugar para a ética, há lugar para ser gente. Ou seja, não vale tudo na guerra, como não vale tudo em qualquer setor de nossa vida pública, privada ou comunitária.
Para os místicos judeus, há uma guerra ainda mais relevante do que aquela travada entre povos. Ao comentarem a parashá desta semana, muitos sábios atentaram para outro tipo de conflito. Muitos de nós conhecemos os termos hebraicos yetzer ha-rá (inclinação para o “mal”) e yetzer ha-tov (inclinação para o “bem”). É a constante batalha entre esses dois polos que constitui nosso maior desafio. Encontrar o equilíbrio entre os dois. Sim! Porque sem o yetzer ha-rá não teríamos a ambição necessária para crescer e superar dificuldades. Será que sem o yetzer ha-rá saberíamos a sensação de marcar um gol (apesar da tristeza causada ao adversário, fazemos o gol mesmo assim, e gostamos disso) ou de “bater” finalizando um jogo de baralho? Será que não é quando o yetzer ha-rá nos leva ao egoísmo, à inveja e ao desejo de que algo ruim aconteça a alguém, que se torna um problema? Da mesma forma, podemos ser tão “bons” ao ponto de negligenciarmos a nós mesmos? A abdicação dos prazeres legítimos, com todo o respeito aos que defendem essa ideia, não é um valor judaico. Fazer Tsedacá dentro do limite do bom senso e saber cuidar de si de forma a estar bem para ajudar quem precisar, esses sim são valores judaicos.
Não obstante, há ainda outra guerra que enfrentamos. A guerra para mantermos nossa identidade. Somos judeus, somos hebreus. Ser hebreu (YIVRí) é ser aquele que está do outro lado. Não temos vocação para ser “maria-vai-com-as-outras”. Se tivéssemos, já não seríamos mais quem somos. Vejam, quando era normal o vale-tudo na guerra, a Torá nos disse que há um limite até na guerra. Quando os animais eram sacrificados de qualquer jeito por outros povos, fomos orientados ao abate ritual (shechitá), que minimiza significativamente o sofrimento daquelas criaturas. Quando todos tinham que trabalhar todos os dias, recebemos o Shabat. Ou seja, quem inventou os direitos humanos? O respeito aos animais? As leis da guerra? Poderíamos dizer que oposição a Israel, simplesmente por ser o estado judeu, é a prova de que continuamos a mostrar que há outro jeito, outra maneira? Quem disse que não pode haver democracia no Oriente Médio? Quem disse que aquela terra não podia produzir frutos e grãos? Quem disse que tecnologia é coisa de americanos e japoneses exclusivamente?
Não podemos esquecer de nosso passado, também não podemos abandonar nosso presente. Temos de lembrar o que nos fez Amaleq. Temos que estar atentos ao que nos podem fazer os antissemitas e aqueles que são contra Israel e lhe praticam julgamentos fazendo uso de dois pesos e duas medidas. Precisamos estar afiados na defesa da Medinat Israel, reconhecendo seus erros, mas com apoio inabalável. Israel somos Nós! Nós somos Israel!
Quando sairmos à guerra, à guerra do dia-a-dia, lembremo-nos de quem somos, de nossa história, nossa missão. Que missão? A missão de sermos nós. A missão de sermos judeus!
Shabat Shalom!
Luciano Ariel Gomes

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