Drashá sobre Parashat Vaietzê

Luciano Ariel Gomes

Parasha - Kotel

Na porção da Torá desta semana, e em parte na porção da próxima, nos deparamos com acontecimentos que o leitor atento chamará no mínimo de “curiosos”. Para aqueles acostumados a textos que lidam com temas mais profundos o termo apropriado talvez seja “intensos”. E como foram intensos! Yaacov (Jacó) começa uma saga pessoal em busca de seu próprio caminho.
Todos lembramos do que aconteceu na parashá passada. Jacó e sua mãe, Rivka (Rebeca), obtém êxito e conseguem enganar Yitzhak (Isaque) ao ponto de o mesmo acabar concedendo a Jacó as bênçãos que teoricamente estavam destinadas a Essav (Esaú).  Lembramos do desprezo inicial de Esaú pelas responsabilidade de ser o filho mais velho, de como ele vendeu seus direitos em troca de um prato de comida. Entendemos que Jacó estava preparado para levar adiante o legado de seu pai e avô, enquanto que Esaú não dava a mínima  para isso. Só quando a perda de poder se estabeleceu claramente à sua frente foi que ele “acordou” para seus direitos, mesmo já os tendo vendido a seu irmão mais novo.
Agora, estamos diante de um Jacó que foge, que vai para longe da ameaça à sua sobrevivência. E aqui está Jacó, no mesmo monte onde seu pai estava para ser sacrificado e um anjo (malach – mensageiro) impede a concretização do ato. – Anjos número 1.
Em sua fuga ele se depara com o cansaço e a noite. Pedras como travesseiros. De repente, escadas, anjos subindo (os de Israel) e trocando de posto com os que estavam descendo (os da diáspora). Jacó percebe onde está. O centro espiritual do mundo, sua missão. Anjos número 2.
Ele chega a seu destino, é enganado, trabalha por 14 anos por suas mulheres e, mais uma vez, foge de seu sogro, Lavan, que o havia explorado por tantos anos. E vai Jacó com todo o seu entourage – posses, servos, mulheres e filhos. Lavan o alcança e eles acabam fazendo as pazes. Na sequência, depois da partida de seu sogro,  ele olha e vê “mahanaim” – campos onde estão anjos. Anjos número 3.
E, como veremos na próxima semana, já prestes a se encontrar seu irmão gêmeo, aquele que queria matá-lo, Jacó vê diante de si um anjo. É noite e uma luta é travada entre eles. Jacó vence, mas seu nome é mudado. Anjos número 4.
Nessas quatro situações, presenciamos contatos imediatos de anjos com o patriarca mais parecido conosco – Jacó tem altos e baixos, momentos de vitórias e situações não tão favoráveis assim. Ele transgride e assume as consequências. Ao fazê-lo conserva o correto (vide Bonder).
No primeiro caso Jacó está presente no sentido de que sem o livramento que o anjo trouxe a seu pai ele não estaria ali, naquele local sagrado.
Já no segundo, a presença dos anjos é tão evidente que a experiência muda sua perspectiva. Ele para de se referir ao Eterno na terceira pessoa e passa a usar a segunda “Tu”. Ali ele faz um pacto com Deus. Ali ele assume seu papel.
No terceiro observamos algo intrigante. Nosso herói vê o campo (acampamento?) de anjos. Eles estão ali para encorajá-lo. Para lembrá-lo de quem ele é. A mensagem (mensageiros, afinal de contas) parece clara. ‘Não temas, Yaacov!’
Logo a seguir, a quarta experiência…a luta. Luta com o anjo de seu irmão. Luta com a realidade de seus atos. Luta com Deus. Luta consigo mesmo e sai abençoado. Abençoado por se reconciliar consigo mesmo e, em relação a seus atos passados, com Deus. Seria essa a sua vitória? Passar no teste da auto-avaliação? Ou seria a absolvição de seus erros? Nao por Deus, por si mesmo.
Nossa tradição descreve os anjos como seres poderosos, no entanto, sem livre arbítrio. Eles estão estacionados. Como foram criados, assim continuam. Cumprem seu papel. Eles executam a vontade do Criador no Universo. E quanto a nós? Somos cheios de vontade. Subimos e descemos na escada da vida, mas essa possibilidade de escolher nos faz desfrutar da vida de uma forma única. Nossos erros nos moldam. Evoluímos.
Esaú perdeu a oportunidade. Escolheu não ser o que podia. No entanto, sua escolha e suas consequências, foram legítimas.
Jacó entendeu isso. Ao perceber os anjos subindo e descendo ele “sacou” a vida. Somos mais do que o que vemos. Podemos ser mais do que o que somos.
Numa época em que a Torá ainda não havia sido dada de maneira coletiva, seus valores estavam presentes nas vidas desses três homens, nossos pais. Que se superaram à medida que as oportunidades surgiam. Isso é ser “gente”.  Seres humanos que cuidam da Torá, a Torá eterna. Esse é o nosso desafio num mundo de ataques à democracia, ao direito de ir e vir, ao próprio conceito do livre arbítrio. Mas, é um desafio para o qual devemos estar prontos e que devemos abraçar.
Em outras palavras, Ser um anjo é bom para os anjos. Para nós, o bom mesmo é ser judeus!
Shabat shalom!

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