Parashat Terumah

Luciano Ariel Gomes

Parashat Terumah

A parashá desta semana é chamada de Terumah. O termo significa "oferenda", que é sentido religioso mais aceito, mas também pode ser traduzido como "presente". No início da parashá, o Altíssimo ordena que todo homem de Israel traga a Ele uma Terumah de acordo com o seu coração.
Essa terumah poderia ser ouro, prata, bronze, peles de animais, tecidos, enfim, materiais de uma maneira geral. Esse material seria, como foi, usado na construção do Mishkan, o santuário móvel que acompanhou os filhos de Israel em sua peregrinação no deserto e depois, quando Israel se estabeleceu em sua terra, que foi colocado no monte sagrado de Tzion, onde os Cohanim (os sacerdotes levitas) realizavam o serviço religioso.
A Torah nos dá todos os detalhes daqueles materiais. O cuidado para com o santuário é enfatizado desde a seleção desses materiais até a sua transformação em arte e beleza.
O que pode nos chamar a atenção logo no início é a ordem de que se trouxesse ao Altíssimo, um presente de acordo com o coração. Vejamos, não foi estabelecida uma quantidade. Cada indivíduo faria sua oferenda como desejasse. Como desejasse no seu coração. Isso nos faz refletir que mesmo que se a pessoa decidisse em sua mente, por qualquer motivo, trazer além do que estava em seu coração, não deveria fazê-lo. Assim também, e, obviamente, se resolvesse doar aquém de seu próprio desejo, não deveria fazê-lo. Nem mais, nem menos. Aquilo que seu coração mandasse, deveria fazer.
Impressionante! Conseguimos notar aqui o nível de confiança que o Eterno depositou no povo? Conseguimos imaginar as consequências se a quantidade que os corações estabelecessem fosse inferior ao necessário? Em outras palavras, nesse episódio poderíamos ousar e perceber Israel ratificando sua escolha pelo Altíssimo? E não só isso, estaria Israel demonstrando aqui seu potencial como povo para a construção de um mundo melhor? A resposta parece ser um inquestionável "sim".
Por coincidência, os sábios perceberam um paralelo entre a construção do Mishkan e a criação do mundo. Para exemplificar, vejamos as seguintes passagens da Torá – A Lei de Moisés (Ed. Sefer):
E fez Deus a expansão; e separou entre as águas debaixo da expansão e entre as águas de cima da expansão. E foi assim. (Bereshit 1:7)
“E Me farão um santuário e morarei entre eles” (Shemot 25:8)

O verbo "fazer" (LAASSOT) aparece nos dois textos. Em Bereshit, é o Altíssimo quem faz o firmamento (V’AIAÁS Elokim). Em Shemot, é Israel que recebe a ordem de fazer ao Eterno um santuário (VEASSÚ Li). Os sábios viram aqui uma relação direta entre os dois versos. Ao construir o Mishkan de acordo com o seu coração, Israel estava provando seu potencial. Apesar dos percalços que nos acompanhariam no deserto, a Torá havia encontrado o seu parceiro neste mundo.
Quando falamos em Tikun Olam – “Reparar o Mundo”, normalmente pensamos em nossa obrigação individual e coletiva de praticar ações positivas neste mundo. Pensamos em tzedakah, em seu mais puro sentido de justiça social. Nos remetemos a conceitos de Mussah – conceitos éticos e morais judaicos que possam guiar nossa conduta. Tudo isso está corretíssimo. Não obstante, nessa relação feita pelos sábios entre a Criação e a construção do Mishkan, não podemos deixar de fora o que texto nos diz. O presente que devemos dar ao Eterno tem que ser de acordo com o nosso coração. Ou seja, cliché como for, precisamos ter isso em mente no que tange a nossa experiência judaica. Não só o nosso intelecto, mas também nosso potencial espiritual.
Em seu comentário desta mesma Parashá, O Rabino Marc D. Angel, um rabino ortodoxo de Nova Iorque, cita o Rabino Abraham Joshua Heschel, um dos grandes nomes do Movimento Masorti/Conservador. Foi o Rabino Heschel que caminhou com Martin Luther King, Jr em sua luta pelos direitos civis das minorias nos EUA. Além disso, foi o representante dos judeus americanos no Concílio Vaticano II.  Em sua citação, o Rabino Angel se refere ao Rabino Heschel como “rabino”. Isso é muito importante do ponto de vista do respeito mútuo entre as correntes do judaísmo. O Rabino Heschel questiona, em um de seus discursos no JTS (O Seminário Teológico Judaico), se nos dias atuais estamos mais a serviço das comunidades do que de Deus. Ele toca no ponto de que hoje em dia há várias discussões e ideias sobre como atrair mais pessoas às sinagogas. No entanto, segundo ele, não nos preocupamos tanto em como promover a concentração em nossos serviços ou com um contato verdadeiramente espiritual com Deus. Para termos uma ideia cronológica do problema levantado pelo Rav Heschel, ele faleceu em 1972. O Rabino Angel cita o Rabino Heschel porque que ver nos membros de sua comunidade essa preocupação com o Divino.
O Mishkan, sem dúvida alguma, tinha esse propósito. Hoje, é a sinagoga que desempenha esse papel. Não podemos, sem embargo, esquecer-nos do fato de que somos diferentes. Alguns de nós enfatizam a prática religiosa, outros valorizam a cultura judaica, outros enaltecem a nossa literatura, outros se apegam a Israel como marco de sua identidade e outros conseguem combinar tudo isso. No entanto, nem sempre, mesmo dentro de nossa visual particular, estamos dedicamos o tanto quanto podemos à nossa comunidade. O Mishkan foi o resultado de todo o povo doando o melhor que podia. Toda comunidade judaica deve ser assim. Cada um na sua forma, mas buscando o melhor.
O melhor presente que podemos dar, ou seja, que podemos trazer de todo o coração, somos nós mesmos.
Shabat Shalom!

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