Parashat Shemini

Parashat Shemini

Luciano Ariel Gomes

A parashá desta semana, Parashat Shemini, é no mínimo intensa para a família de Aaron HaCohen (Aarão, o Sacerdote). É nesta porção que está relatada a morte de dois de seus filhos, Nadab e Abihu.
Obviamente, muito já foi dito sobre essa tragédia. Para quem não se recorda, Nadab e Abihu resolvem, depois de um dos mais belos momentos da historia dos Filhos de Israel com seu Criador, oferecer um fogo estranho diante do Eterno. Um fogo que eles não haviam sido ordenados oferecer. A consequência imediata é a morte de ambos ali mesmo, foram consumidos por um fogo “vindo do Eterno”. Muitos rabinos tentaram explicar o acontecido. Há desde aqueles que ratificam totalmente a decisão Divina, tentando extrair daí um exemplo que fale diretamente contra inovações no serviço judaico, quanto aqueles que não aceitam o veredito imposto aos sobrinhos de Moshé Rabenu (Moisés, nosso mestre) e tentam explicar o ocorrido a partir de um erro dos dois irmãos no manuseio dos utensílios sagrados, que poderiam ter energia concentrada causando uma forte descarga que veio a ceifar a vida dos sacerdotes, e não uma decisão Divina nesse sentido. O fato, é que independente do que foi dito acima ou das possibilidades de interpretação, nos intriga a forma com que Aarão lidou com sua tragédia.
A maioria esmagadora dos pais, ao verem-se diante de uma situação como a vivida por Aarão entrariam em desespero, ou perderiam a fé, ou se revoltariam. Quantos agiriam como Aarão, que se calou após ouvir algumas palavras de seu irmão? (Vaicrá 10:03) Há, inclusive, quem o acuse de “inércia” emocional. Esperavam, por acaso, dele um comportamento humano normal, ou seja, a perda de controle? Mais adiante, finalmente ouvimos Aarão dizer algo sobre sua calamidade pessoal. Moisés se irrita com os outros dois filhos de seu irmão, Eleazar e Itamar, que não comeram da oferta pelo pecado e a deixaram queimar. Ao ouvir seu irmão repreender seus filhos, os seus únicos filhos agora, Aarão abre a boca e diz, “Olha, neste dia eles trouxeram sua oferta pelo pecado e sua oferta queimada diante do Eterno, e essas coisas me aconteceram! Se eu houvera comido da oferta pelo pecado hoje, teria o Eterno aprovado?”(10:19). O texto diz que ao ouvir isso Moisés aprovou.
Aarão é uma figura polêmica. Calado quando deveria falar. Falando quando poderia calar. Comunicando as demandas do Eterno, passadas a Moisés, diante do Faraó. Participando da confecção do bezerro de ouro. Esse mesmo Aarão é descrito nos midrashim como um amante da paz, que reaproximava amigos que haviam brigado. Não há dúvida de que podemos aprender com ele. Há momentos em que devemos falar. Sem nossa voz injustiças podem se perpetuar. Sem nosso protesto, conforto, conselho, elogio. Até mesmo sem nossa repreensão, o mundo – assim como nosso país, nossos filhos, etc – ficam prejudicados. No entanto, muitas vezes no momento da raiva ou quando dá aquela “coceirinha” para falar mal de alguém, é a hora de calar!
O autocontrole está presente nesta parashá na pessoa de Aaron HaCohen, mas também nas leis de Kashrut (11:1-47). Enquanto que com Aarão aprender que há tanto o momento de fechar a boca para não sair algo – as palavras más – com as leis de Kashrut aprendemos sobre quando fechar a boca para o que não deve entrar, o alimento impuro. Em outras palavras, a Torá nos ensina a nos mantermos puros. Tanto nas coisas mais práticas e necessárias na vida, como o ato de comer, quanto na nossa conduta – aqui representada pelo autocontrole que podemos exercer em nossa fala.
O momento belo mencionado no inicio deste comentário foi quando Aarão ergueu suas mãos e abençoou o povo (9:22). Isso ainda é feito hoje em nossas sinagogas e de maneira mais solene nas Grandes Festas, pelos descendentes de Aarão, os Cohanim. No entanto, abençoar é uma obrigação de todos nós. Abençoar, usar palavras para desejar e trazer o bem, é o momento de falar.
Shabat shalom!

Nota: As citações dos trechos da Torá são uma tradução livre da TANAKH -The Holy Scriptures – The New JPS Translation – The Jewish Publication Society – Philadelphia • Jerusalem 1985

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