Parashat Pinchas

Parashat Pinchas

Por Luciano Ariel Gomes
A parashá desta semana começa com a declaração do Eterno a Pinchás de que ele seria receptáculo de um pacto de paz (amizade) e de que o sacerdócio estaria sempre com ele e seus descendentes (Pinchás foi neto de Aharon HaCohen). Isso, por sua intervenção no momento em que um príncipe da casa de Shimon deitou-se diante dos olhos de todos com a filha de um renomado midianita. O zelo de Pinchás o fez usar sua lança e matar os dois em pleno ato. Sua atitude foi interpretada como uma atitude de coragem e zelo para com o sagrado.
Nesta parashá encontramos também as ordenanças referentes ao Shabat, Rosh Hashaná, Yom Kippur e Shavuot e que tipos de oferendas seriam apresentadas. E é feito um levantamento de todos os homens aptos para a guerra e a distribuição dos assentamentos de acordo com a quantidade dos mesmos em suas tribos.
Há, no entanto, um fato curioso relatado nesta parashá. As filhas de Tselofchad, da tribo de Menassé, filho de Yosef se aproximam de Moshé e Eleazar HaCohen (o pai de Pinchás) assim como de todos os líderes e fazem uma petição. Tselofchad havia morrido no deserto, e só havia tido filhas. Como sabemos, a herança de um homem era passada deste para seus filhos homens ou para os seus irmãos caso não tivesse filhos. Como Tselofchad só havia tido filhas, elas não herdariam de seu pai e o que era seu passaria aos irmãos dele. É preciso muita atenção ao que aconteceu aqui.
Numa situação em que a Lei, pelo menos aparentemente, não previa uma solução para o caso, foi necessário ouvir a “voz” daquelas mulheres.
A atitude de Moshé
Chama a atenção como Moshé não as rejeitou. Ele não disse a elas que não tinham direito, ou que a Lei era clara e elas não tinham coisa alguma a reivindicar. Pelo contrário, ele vai consultar o Autor da Lei. Moshé mais uma vez prova sua humildade e seu senso de justiça. É uma lição para todos nós. Quantas vezes nos irritamos quando somos questionados? Quantas vezes uma simples pergunta nos tira do sério? Certamente Moshé já havia cometido erros. O mais notório foi o episódio em que bateu na pedra de onde sairia água para saciar a sede do povo ao invés de falar à mesma, como havia sido ordenado pelo Altíssimo. No entanto, seu erro foi fruto do constante estresse a ele imposto por reclamações constantes e não por qualquer sinal de falta de humildade. Observemos também que sua humildade não o impediu de buscar o correto, nem o intimidou diante dos desafios. E aqui ele estava diante de mais um. Deveria ele ouvir a “voz” dessas mulheres?
O argumento da filhas de Tselofchad
Machlá, Noá, Choglá, Milcá e Tirtsá tinham um argumento simples. Seu pai havia morrido no deserto (fazia parte da geração que não adentraria a Terra de Israel). Ele não havia se unido à rebelião de Corach e só havia tido filhas, a quem a Lei, até então, não contemplava em casos de herança direta de seus pais. Deveria o nome de seu pai desaparecer? Através de suas filhas ele deveria ter reconhecido seu direito em Israel. Simples, direto, irresistível. Moshé não viu outra alternativa. O argumento era perfeito. Por que as mulheres não deveria ter sua “voz” ouvida?
A mudança na Lei
Diante do fato, o Eterno não só ouviu as filhas de Tselofchad, mas estabeleceu a Lei a partir daquele acontecimento (Bamidbar 27:06-09). Dali em diante, quando um homem morresse e não tivesse FILHO, sua herança seria entregue à sua FILHA. Sabemos que na época as mulheres herdavam com seus maridos. Era muito comum o casamento dentro do mesmo clã. Não obstante, o reconhecimento do direito daquelas filhas nos traz uma lição importante.
A Lei Judaica (Halachá) como um órgão vivo
Estamos lidando nesta parashá com um novo aspecto na Lei registrado na Torá Escrita. Não é decreto rabínico. Não é argumento liberal ou moderno. Trata-se do próprio Deus, Senhor do Universo, Criador de todas as coisas dizendo, em outras palavras, “elas estão certas!”. Não foi a primeira vez. Abraham Abinu também precisou ouvir em alto e bom tom a frase “escuta a sua voz” (Bereshit 21:12). Ele não queria mandar seu filho Ishmael embora, mas Sarah estava com a razão e sua “voz” tinha que ser ouvida. Diante de uma situação nova veio a resposta. Vivemos num mundo em que a cada dia novas coisas nos são propostas, novos desafios apresentados. Um exemplo é o uso das novas tecnologias, ou as diversas expressões de afetividade. Nos fecharemos numa resposta pronta ou ouviremos as “vozes” que chegam aos nossos ouvidos? Qual é a resposta de Torá hoje, em nossos dias?
Os estudantes da Torá reconhecem a importância da Lei de Prozbul do sábio Hillel que garantiu a sobrevivência de muitos que precisavam de empréstimo às vésperas do Ano Sabático, em que todas as dívidas eram perdoadas (Vaicrá 25: 01-31). Ora, como alguém emprestaria dinheiro sabendo que logo adiante a dívida seria anulada e a perda óbvia? Hillel, o grande mestre, propôs uma solução em que um documento (Prozbul) garantiria o pagamento da dívida mesmo após o Ano Sabático.
Com essa “mudança”, Hillel tornou possível o cumprimento da Mitzvá de cuidarmos uns dos outros. O Espírito da Lei estava preservado.
Conclusão
Não é necessário dizer que não há aqui qualquer proposta de se anular qualquer lei da Torá. Pelo contrário, a Torá nos foi dada para a vida. As filhas de Tselofchad queriam viver e manter vivo o nome de seu pai. Sarah, nossa matriarca, queria preservar a vida de seu filho. Hillel, a vida de seus contemporâneos necessitados. Não podemos retirar ou acrescentar coisa alguma à Torá (Devarim 4:2). O texto da Torá e seus ensinamentos precisam estar em nossas atitudes. A vontade do Eterno, expressa no texto e permeando nosso cotidiano. O que não podemos perder de vista é que a mensagem da Torá fala ao nosso tempo, e não apenas aos milhares de anos que nos precederam.
Shabat shalom!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s