Parashat Ki Tavô

Por Luciano Ariel Gomes

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Na porção da Torá que lemos nesta semana, nos deparamos com a realidade dos fatos. Aqui tomamos consciência, sem espaço para “mas” e “porquês”, de como as coisas funcionam. O Eterno, Nosso D’us, Criador de tudo, instrui o povo de Israel, por intermédio de Moshé e dos Leviim, sobre bênçãos e maldições que haveriam de recair sobre o povo, sobre nós, de acordo com o nosso comportamento. De acordo com a nossa adesão aos valores e ações ensinados e a nós comandados  na Torá.
A cena é forte. Metade das tribos, colocadas sobre o Monte Guerizim, seriam testemunhas das bênçãos e outra metade, sobre o Monte Ebal, das maldições. E todos deveriam dizer AMEN.
O que podemos aprender desta parashá, além do que está claro no texto em si, é que a Torá nos diz claramente que não podemos querer escapar das nossas responsabilidades. O conteúdo das admoestações inclui ações diretas para com a família, os direitos dos menos favorecidos em nossa sociedade, i.e. comunidade, assim como delitos que podemos cometer em segredo. O valor ético aqui é inquestionável. No entanto, há um trecho que salta aos olhos, sem trocadilho, diante do que se trata e será visto adiante.
O texto diz o seguinte:
“Maldito seja aquele desvia (i.e. dá instruções enganosas a) o cego de seu caminho. – E todo povo dirá, AMEN.”
O mesmo tópico aparece em Vaicrá 19:14. Ali o texto fala em “uma pedra de tropeço (obstáculo) no caminho do cego.” Vale ressaltar que, apesar da mensagem óbvia do texto literal, os rabinos viram aqui uma referência ao princípio moral de não dar conselhos maldosos, com a pura intenção de prejudicar aquele que se aproxima de nós em um momento de cegueira, ou seja, quando não consegue enxergar a solução para um problema. Outra interpretação nos orienta a não dizer algo a alguém que não está pronto para ouvir, ou que ainda não tem a devida instrução. Aquela informação causaria mais mal do que bem e isso poderia levar a pessoa a se desviar da Torá. Um mestre deve ver em seus alunos até onde eles podem ir.
Gostaria de mencionar aqui meu mestre, Yosef Barouchel. Com ele aprendi não só pelo que ele fala em si, mas também por sua forma de rezar. A seriedade com a qual se porta na sinagoga. O conhecimento judaico de forma tão natural e significativa. Muitas vezes eu aprendi com ele apenas ao observá-lo.
Certa feita estávamos esperando pelo inicio do serviço Shaharit de Shabat e uma animada conversa se iniciou sobre os milagres do Pessach. O Sr. Yosef queria fazer algum comentário mais profundo, talvez algo que para quem estava dando seus primeiros passos no judaísmo fosse forte demais. Ele olhou para mim e disse, “não sei se você deve ouvir isso.” Eu ri, e ele, por algum motivo, sentiu-se seguro para prosseguir. Acabei aprendendo algo bem interessante naquela manhã de Shabat. Porém, o que chama a atenção aqui é o cuidado que ele teve. O querido Yosef entendeu perfeitamente o texto, e eu, um cego em potencial, merecia o cuidado que a Torá determina.
Estamos no mês de Elul e cada vez mais próximos dos Yamim Noraim, em que temos a oportunidade de rever nosso comportamento e conceitos. A Torá está à nossa disposição para aprendermos e pormos em prática seus ensinamentos. Nossos atos trazem consequências para o bem ou para o mal, para nós mesmos e para aqueles que estão próximos a nós. Seja qual for a nossa “tribo”.
Não perceber isso e agir de forma irresponsável é uma “maldição”. Estar atento a isso e agir com amor e cuidado é uma benção.
Sejamos todos inscritos no Livro da Vida!
Shabat shalom!

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