Parashat Chaiê Sarah

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Por Luciano Ariel Gomes

A cena é chocante. Um estranho (o Satan, disfarçado) se aproxima de Sarah e lhe conta que seu filho, seu único filho, havia sido levado pelo próprio pai – Avraham (Abrahão) – para ser oferecido a D-us em sacrifício. Um “filme” deve ter passado pela cabeça de nossa matriarca. “Como assim?” Inicialmente, aquilo não faria sentido algum. Isaque (Itzhak) havia sido prometido a ela e Abrahão para no final ser sacrificado? Por outro lado, ela vivia num mundo em que sacrifícios humanos eram uma realidade. Certamente, os valores aprendidos por ela e seu marido não combinavam com a ideia, não obstante aqui estava a notícia. Ela sabia que eles haviam saído para sacrificar a D-us no monte, o que ela jamais poderia imaginar era que seu Isaque seria a oferenda. Nesses segundos em que tudo passou por sua mente a constatação de um fato, mesmo se ela quisesse ir ao encontro dos dois, não daria tempo.
E a Parashá começa assim:
“E foi (foram) a (as) vida(s) de Sara cento e vinte e sete anos (ou cem, e vinte, e sete anos) .” (Gen 23:1)
Uma vida de 127 anos pode nos dar a impressão de que Sarah teve tempo para tudo que quis fazer. Sabemos, no entanto, que seu filho chegou aos 90, e agora, aos 127, ele com 37, iria partir definitivamente pelas mãos de ninguém menos que seu marido e pai de Isaque, a mando de ninguém menos que D-us, o seu Deus. E, mais uma vez, quem lhe traz a notícia é o Satan – o adversário.
Não nos esqueçamos de que no judaísmo o Satan é um servo de D-us. Ele coloca obstáculos diante de nós para que sejam superados e, segundo nossos sábios, ele comemora cada vez que os superamos. Mas, não nos enganemos, os obstáculos são na proporção daquilo que precisamos vencer para crescer. A palavra “Satan” continua significando “adversário”.
Ora, quem, nos dias de hoje, pode dizer que tem o Tempo como seu aliado? Corremos de um lado para o outro para cumprir com nossas obrigações. Nossa briga com o relógio é constante. Nascemos, começamos a crescer e, de repente – bum! O tempo fica curto. Quantos de nós chegamos a uma determinada idade e achamos que não fizemos tudo o que deveríamos ter feito?
Mas, o tempo pode sim, ser um aliado. A mesma falta de tempo que já nos fez perder um voo, já salvou vidas pelo mesmo motivo, sim, daquele que se atrasou e perdeu o voo de um avião que caiu.
O Tempo foi criado por D-us. É uma força neutra. A nós cabe a administração do mesmo. Não podemos viver para o relógio, ele é que deve nos servir. Muitas vezes não vamos à sinagoga por falta de tempo. Não visitamos amigos doentes nos hospitais, não conversamos com nossos filhos, não ouvimos a voz de nosso amigo, não dizemos o Shemá Israel pela manhã ou à noite.
É o Tempo, ou somos nós mesmos que nos boicotamos e assim deixamos de ter experiências que resultariam em nosso crescimento espiritual? Espiritual no sentido judaico, de aprender mais, poder acrescentar mais a alguém, entrar no espírito da Torá. Não é isso o que o Shabat nos proporciona? Uma declaração aberta de que o tempo não nos controla. Podemos, sim, pausar, cessar e contemplar.
Sarah julgou não ter mais tempo. Isso lhe foi fatal. Segundo um midrash, ao ouvir do Satan que seu filho ia ser sacrificado, naqueles poucos segundos, ela se esqueceu de que o Tempo não é senhor. Seu coração não aguentou e ela morreu, não podendo tomar conhecimento de que D-us havia impedido Abrahão de levar o sacrifício de seu filho a cabo. Afinal, o judaísmo não admite sacrifícios humanos. Sim, sua impressão estava certa. E, já que comemora quando o superamos, podemos dizer que, ao vê-la partir, o Satan chorou.
A Torá nos ensina a viver. Nossa mãe, Sarah, viveu 127 anos, e nessas suas vidas de cem, vinte e sete anos, ela nasceu, cresceu, dançou, cantou, se casou, sofreu, mas acima de tudo e apesar de como morreu, sorriu.
Que vivamos sem negligenciar o que a Torá nos ensina. Que o Tempo seja nosso aliado. E se não vivermos até os 120? Que vivamos cada momento que nos for dado!
Shabat Shalom!

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