Experimente sair de kippah

kipah-sefaradi

Gabriel Lopes Pontes

Se já me sinto feliz comigo mesmo, leve e relaxado, por ter descoberto essa menina tão doce e estar desfrutando com ela momentos de pura magia, o que vejo ao longo da grande Avenida que corta esta sua Cidade em ascensão só completa meu bem-estar. Um lado forte em mim, o de militante convicto pela liberdade de credo, que comparece aos eventos inter-religiosos e integra tanto o Diálogo Católico-Judaico como o Diálogo Islâmico-Judaico, se alegra por, de repente, se ver em meio a um espaço público que, na prática, é um grande espaço de expressão religiosa. Meu lado poeta, que afoguei no meu lado engenheiro, meu lado amante do belo, também não deixa de se alegrar, pois o que se vê, em termos de cor e movimento, nesta moderna e imensa via, que percorro a pé e sem pressa, depois de ter deixado minha gordinha dormindo, exausta da nossa longa jornada noite adentro, é uma verdadeira festa para os olhos.

Há duas coisas em comum a todos os membros de todas as religiões que se fazem representar nesta luminosa artéria convertida em mostruário da fé humana. A primeira é que todos sorriem francamente, são afetuosos uns com os outros, cumprimentam as pessoas que encontram, caminham com calma em flagrante paz; parecem, enfim, estar plenamente felizes, ter encontrado, realmente, a sua forma de expressão religiosa, automaticamente me evocando Gandhi, João XXIII e Janusz Korczak, que, em momentos diferentes, em línguas diferentes, por diferentes razões, disseram, essencialmente, a verdade inquestionável que só os estúpidos se recusam a ver, a de que D’us ama todos os seus filhos. A outra coisa é que é facílimo dizer a que grupo cada pessoa pertence só pelo seu vestuário.

O traje completo de um mórmon típico – pelo menos o que eu, dentro da minha ignorância, considero que seja o traje completo de um mórmon típico – e que me faz reconhecê-los a quilômetros, compõe-se de sapatos lustrosos e calças bem vincadas, tanto um como as outras em reluzente negro, e impecáveis camisas brancas de mangas compridas, que mantém escrupulosamente pra dentro da cintura e abotoadas nos punhos, apesar do nosso inflexível calor. No peito, a plaquinha de acrílico preto com letras brancas informa o nome de cada Elder – não sei por que cada um deles se chama Elder e não procuro saber. Respeito os mórmons, que nunca me fizeram mal algum, mas perdi o interesse por eles depois que soube que abandonaram sua tão característica prática da poligamia, que chegou a me fazer pensar nas conveniências de uma conversão. Na Capital, de onde tenho vindo todos os fins-de-semana de um deleitoso semestre, andam sempre aos pares e são sempre homens – pelo menos nunca vi mórmon desacompanhado ou mórmon mulher. Já verifiquei que é comum esses pares serem formados por um negro e um branco, me trazendo à lembrança Oscarito & Grande Otelo, João Paulo & Daniel, Gabriel Lopes Pontes & Reinaldo Bonfim, ou um dos dois é nitidamente estrangeiro. Ocasionalmente, a gente depara com um que arrisca uma gravata de cor ou estampa mais extravagante, mas nada que chegue a ser fauvista, e é o máximo a que já vi se permitirem, em termos de roupa. Aqui e hoje, porém, parece estar havendo alguma festa mórmon, pois as duplas – sempre rapazes – se sucedem num alegre desfile, uma pequena multidão alvinegra, como as que o Galo, o Fogão ou o Curingão arrastam aos estádios em domingos como esse.

Há muitos Testemunhas da Jeová também, oferecendo-se de porta em porta para dar seu testemunho. Quem os quer atender, atende; quem não quer, simplesmente recusa. Talvez não tão simplesmente assim, pois, nas sucessivas visitas semanais que tenho feito a essa Cidade para ver minha gordinha, tão inumeráveis foram suas hostes que me despertaram a curiosidade, indaguei a seu respeito e acabei descobrindo que são apelidados de “queima-panela”. Sucede que o povo daqui, apesar do comércio desde sempre e a cada dia mais dinâmico, do trânsito que vai ficando infernal, da poluição que começa se fazer sentir e da violência que já se incorpora ao cotidiano dos bairros mais distantes, ainda tem uma mentalidade do interior e conserva uns saudáveis hábitos dos bons velhos tempos, dentre eles a hospitalidade. Como a Cidade é grande, mas não tão grande assim, consiste ofensa grave não receber um vizinho, mesmo que este venha falar de uma religião pela qual muito provavelmente não se tem interesse algum e a cujo respeito só se ouve por educação. Como os Testemunhas de Jeová mourejam tanto quanto qualquer outro cidadão, as visitas geralmente ocorrem aos domingos, justo o sacrossanto momento em que a macarronada da nonna, a feijoada pr’um batalhão, o churrasco de novilha inteira, estão em pleno preparo. Divididos entre serem gentis com o conhecido e desempenharem seu papel, enquanto o fogo seguia acesso, raros não foram os mestres-cucas domingueiros que acabaram obrigando a familiarada a comer fora, acumulando prejuízo de tripla ordem, pois à conta do restaurante se somou tanto a perda dos ingredientes do festim como a carbonização dos seus apetrechos de cozinha.

Hoje e aqui, os Testemunhas parecem ter previamente traçado uma estratégia pro seu proselitismo sorridente, subdividindo a Avenida em áreas e encarregando cada uma dessas a um grupo que mais parece uma família, pois há sempre homens e mulheres de todas as faixas etárias: respeitáveis vovós de seios enormes; vovôs encanecidos ou completamente calvos, mas sempre um pouco encurvados; filhos e filhas de pouca e de meia idade, adolescentes, pré-adolescentes e crianças de ambos os sexos e até um ocasional bebê, treinando o testemunho desde os cueiros.

Curioso é que, nos meus tempos de Politécnica, um colega de estágio, simpático e tranqüilo Testemunha de Jeová, certa feita me explicou que a característica maneira de se vestir dos que professavam sua religião era algo assim como um preceito, pois um bom Testemunha de Jeová deveria se vestir para não se destacar do mundo. Na confusão das tarefas cotidianas e sem vontade de ficar constrangendo o rapaz com perguntas sobre um assunto que, no final das contas, só dizia respeito a ele, armazenei a informação sem, contudo, decifrá-la muito bem. Afinal, se os seus se vestiam para não se destacar, como poderia ser que justamente as roupas que usavam os destacassem na multidão? Embora não adotem um traje rigorosamente igual, como fazem os mórmons, os homens Testemunhas de Jeová, não importa quão velhos ou jovens sejam, estão sempre de paletó e gravata, ou pelo menos de camisa, calças e sapatos do tipo que se diz “social”, por muito que pobres e usados. As mulheres, por sua vez, das meninas às senhoras idosas, recusam roupas curtas e aderentes, preferindo saias e vestidos sempre compridos e sempre de estamparia bem discreta, expediente que nem sempre basta para ocultar-lhes a feminilidade, pois, ao longo desta Avenida, encontro cada mocinha Testemunha de Jeová de virar navio e, se elas não fossem tão inacessíveis e eu não estivesse tão bem com minha gordinha, não sei, não…

Outro item a os identificar é a maleta – no caso das mulheres, parece que esta pode ser substituída por um classificadorzinho plástico, mas não tenho bem certeza – em que levam suas publicações Sentinela e Despertai!, famosas no mundo inteiro, ilustradas – e muito bem ilustradas – num estilo bem próprio, e que, não faz muito tempo que fiquei sabendo, foram uma das grandes dores-de-cabeça de Hitler, pois os Testemunhas, com inquebrantável coragem, usavam suas páginas para denunciar o famigerado regime que exterminava meu povo. Essa descoberta me fez passar a pensar nessas pessoas como irmãos, toda vez que as vejo, e a acumular, mais como um gesto de gratidão retroativa que por interesse legítimo, uma montanha dessas revistinhas, que sempre folheio, mas que nunca leio. Dentre os Testemunhas que buscam ovelhas neste beau dimanche, me desperta um misto de simpatia e dó um garotinho de seus dez anos, envergando uma camisa de um amarelo ofuscante, bem folgada nele, mas rigorosamente fechada até o colarinho, e levando suas revistas numa antiquada pasta 007, grande e pesada demais para seus bracinhos curtos e franzinos, a quem, a princípio, penso em me oferecer para ajudar, logo voltando atrás na idéia, por receio de parecer intrometido.

O vestir dos batistas oscila entre o rigor dos mórmons e a sobriedade dos Testemunhas e o que mais os denuncia é a bíblia num estojo de couro com zíper. As religiões de origem africana também se fazem representar, com senhoras em lindos vestidos de camadas superpostas de imaculado branco, uma espécie de turbante pequeno na cabeça e colares de muitas contas coloridas, dançando em meio a rodas de efervescentes atabaques. Das muitas e muito antigas, e até bonitas igrejas católicas, também saem os fiéis, mas estes não estão tão abertamente uniformizados. Muçulmanos, não encontro nenhum, ou, pelo menos, nenhum que uma análise da aparência externa pudesse identificar. Mas é sabido que, mesmo na Capital, o número deles, a maioria dos quais é de bons amigos meus, permanece pequeno.

E aqui estou eu, um judeu apaixonado por uma luterana, filha desta Terra, enfrentando a profunda frustração de não ter nada que mostre na hora que sou membro do meu povo, para também poder participar desta festa pan-religiosa ao ar-livre, para ser um embaixador judeu neste congresso espontâneo. Mas… O que digo? Então não trago sempre minha kippazinha preferida, pra não correr o risco de entrar no templo de alguma outra religião com a cabeça desrespeitosamente descoberta? Muito bonita esta minha kippah marroquina, de veludo roxo, bordada a fios de ouro. Tem também valor afetivo, pois foi minha mãe quem me deu, no meu oitavo aniversário. Comprou-a na barraca de Israel de uma monumental Feira das Nações, realizada com fins filantrópicos no estacionamento de um tradicional colégio jesuíta, na mesma noite em que, driblando a vigilância dos adultos da minha família e contando com a conivência de um bigodudo senhor da barraca da Espanha, mais preocupado em aumentar a arrecadação do que envergonhado por embriagar uma criança, tomei meu primeiro porre de sangria, inesquecível e delicioso.

Alegre com a lembrança, busco e acho no bolso esquerdo minha kippah querida. Levo-a à cabeça, ajusto-a no cabelo e termino de fixá-la com um tic-tac, como a dizer a todo mundo, orgulhosamente: “Olhem, eu também tenho uma religião, eu também sou filho de D’us, eu também posso participar desta alegre algazarra com vocês”. E sigo caminhando em linha reta pela calçada larga desta interminável Avenida, rumo ao seu fim, que com certeza ela tem, mas que ainda não consigo divisar, tão comprida que é.

Então, um fenômeno que eu realmente não esperava se dá. Todas as pessoas que vem em sentido contrário ao meu, reconhecíveis ou não como pertencentes a alguma facção religiosa, não conseguem evitar – ou mesmo não querem fazê-lo, ou mesmo preferem não fazê-lo – um olhar de espanto que não deixa de ter, também, um quê de censura. Depois de passar por mim, poucos não são os que, às minhas costas, fazem uns aos outros algum comentário jocoso, deliberadamente alto para eu ouvir, mas baixo o bastante para eu não poder dizer que é direcionado a mim.

Mas era só o que faltava! Então, todo mundo pode e só eu que não? Onde está a famosa liberdade religiosa pela qual eu labuto com a melhor e mais sincera das intenções e com tanta pureza d’alma? Pois vocês vão ver uma coisa! Se eu posso lutar pelo direito de vocês terem a religião que quiserem, com muito mais força luto pela minha. Saibam vocês que meu povo resistiu em Massada, resistiu no Gueto de Varsóvia, resistiu em Treblinka usando cordas de cabelo trançado como armas, não sou eu que vou arregar porque vocês são preconceituosos, presunçosos e provincianos.

Em todo meu longo passeio, não procuro briga nem aceito provocação, mas também não tiro minha kippah. Os Testemunhas que, em outra época e lugar, lutaram pelo direito dos judeus de serem judeus, olham pra mim de modo realmente estranho e mais de uma vez percebo que, após minha passagem, um pai ou uma mãe se debruça sobre a meninada e faz um comentário sussurrado a meu respeito, que não escuto, é obvio, mas cujo conteúdo consigo adivinhar e cujo viés está estampado em suas expressões subitamente tensionadas. Os mórmons, à simples visão da minha kippah, apagam das faces os sorrisos que até então as iluminava. As numerosas famílias batistas, que vinham tagarelando até perceberem com que cubro minha cabeça, dão-se as mãos e passam por mim em carrancudo silêncio, quebrado assim que se interpõe entre eu e eles alguma distância, com isto parecendo não ter assimilado nada do que ensinou o Reverendo King. Os atabaques param, a dança se imobiliza por uma fração de segundo, só porque estou usando kippah. Vou até o fim da Avenida e volto e a reação de todos é a mesma. Ninguém tem peito de me dizer alguma coisa, mas ninguém consegue, ou não faz a menor questão de disfarçar seu desgosto com minha presença – modesta, solitária, inofensiva presença – nesta que eu pensava que era uma ágora de todas as religiões. Termino a caminhada num estado de espírito totalmente diferente daquele em que a comecei. Quando volto à sua casa, minha gordinha já está acordada e me espera, cheirosa e lasciva, numa suave camisola, tão púrpura quanto minha kippah, mas infinitamente mais transparente, e que só lhe realça os contornos de ninfa de Rubens que tanto me agradam. Nem este expediente, que ela emprega tão bem, com tanta graça e malícia, me atiça a uma saudável vadiagem matinal.

Ela até que disfarça sua frustração, mas não se furta a me atirar uma farpa, que trato de ignorar, pra não tornar as coisas ainda piores, sibilando que isto, de vez em quando acontece com qualquer homem, ainda mais depois dos quarenta e tantos, mas que, de qualquer maneira, eu não faria mal em consultar um urologista. Não tiro minha kippah.

No novo shopping, orgulho desta Cidade emergente, mas modesto para os padrões da Capital, passeamos de mãozinhas dadas e não tiro minha kippah. Tomamos chopp a fartar e não tiro minha kippah. Almoçamos e não só não tiro minha kippah como resolvo respeitar inflexivelmente as kasherut, o que normalmente não faço. Quando ela me pergunta se não acho que estou sendo cabeça-dura e me adverte que as pessoas não param de olhar, percebo que não, este relacionamento não tem mesmo futuro.

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