Parashat Mishpatim

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Luciano Ariel Gomes

Sempre aprendemos algo novo com a Torá. Sua relevância é confirmada a cada ano que revisitamos a mesma Parashá. Nossos sábios reforçaram a importância dos textos sagrados para lições de Mussar (Ética). Ou seja, não apenas aprendemos as Leis da Torá e como devemos nos portar diante das situações da vida, mas também devemos aprender seu significado mais profundo. Dessa forma, a prática da Torá passa de uma decisão intelectual a um valor que se manifesta dentro de cada judeu ou judia.

No caso da Parashat Mishpatim, não faltam exemplos. Um deles nos parece bem atual, diante de acontecimentos no cenário mundial. Os refugiados sírios, a saída da Grã Bretanha da Unia Europeia, o tratamento dado pelo governo americano aos visitantes que vêm de certos países com ligações com a prática do terrorismo. Vejamos ao seguinte verso:

“Não enganarás um estrangeiro e não o oprimirás, porque fostes estrangeiros na terra do Egito” (Shemot 22:20)

Em outra oportunidade discutiremos os tipos de estrangeiros que haviam acompanhado o Povo de Israel na saída de Mitzraim (Egito), vale enfatizar aqui que não eram poucos. A Torá nos relata sobre uma “mistura de gente” (12:38) que acompanhou os Filhos de Israel. Há orientações na leis de Pessach sobre o estrangeiro que quisesse participar da Festa deveria fazer. Isso nos mostra que não se tratava de alguém que já havia adotado a fé de Abraham, uma vez que precisaria ser circuncidado primeiro para poder comer do sacrifício, se fosse um homem.
Não obstante, tradicionalmente, o termo “ger”, literalmente “estrangeiro”, veio a ganhar adjetivos que o classificam de forma mais efetiva. Há o “Ger Toshav – Estrangeiro Residente” aquele que segue as sete leis de Noah, assim como o “Ger Tzadik – aquele que adotou a Torá”. O “Ger Tzadik” vem a fazer parte integral do povo. O “Ger Toshav” vive no meio do povo, mas é um hóspede e, como tal, pode ir embora e levar consigo suas experiências no nosso meio.

Mas, por que consideramos esses versos relevantes para o contexto atual? Uma das falhas humanas mais terríveis e que temos a maior dificuldade para erradicar é o preconceito. Ele se manifesta em várias facetas que vão das diferenças sociais ao racismo. A Torá vem nos falar sobre as pessoas menos privilegiadas da sociedade, começando pelo estrangeiro, mas adentrando outras áreas como o auxílio ao órfão e à viúva.

Sobre o estrangeiro, podemos nos perguntar qual é o motivo de alguém deixar seu país de origem para se sujeitar a situações das mais adversas. Com certeza podemos nos identificar com ele. Quantas vezes precisamos deixar para trás o que não nos serve mais? Quanto mais aquele que precisa sair para salvar sua vida.
A questão é que surgiu no mundo um novo tipo de estrangeiro. Um que sai de sua terra e se desloca, não para se salvar, mas para destruir, para minar a segurança e a autoconfiança dos moradores de bem. Por outro lado, passamos a colocar todos no mesmo grupo, e o estrangeiro necessitado passa a correr o risco de não é ter a oportunidade de sobrevivência e o bem deixa de ser feito.

Ou seja, estamos diante de um grande desafio. Como podemos evitar que injustiças aconteçam? Afinal, garantir a justiça no mundo também passa por bloquear a injustiça.

Podemos citar dois exemplos aqui. O primeiro é o próprio Estado de Israel, que além de receber Olim (judeus que fazem Aliá), tem aberto as portas para refugiados não-judeus de diversos países, muitas vezes assumindo despesas com as necessidades dos mesmos. Além disso, vemos Israel enviando ajuda humanitária a países que sofreram com desastres naturais e terrorismo. Não vemos jornais fazendo disso uma notícia relevante, vemos?

O segundo exemplo vem de um indivíduo judeu. Alguém que tendo sobrevivido à Shoá chegou à Inglaterra aos seis anos de idade após ser resgatado de um dos trens com destino a Auschwitz. Refiro-me ao Lord Alf Dubs, que hoje membro da Casa dos Lordes na Grã Bretanha. Ele não apenas tem lutado para garantir que refugiados infantis da Síria tenham uma receptividade justa na Europa, mas também tem visitado campos de refugiados para conhecer de perto sua realidade. Tive o prazer de conhecê-lo em minha última viagem a Londres e ouvi do próprio, na Sinagoga de West London, o relato de que ele passou uma noite com eles em uma de suas tendas. Lord Alf não conseguiu dormir de frio. A partir disso, passou a fazer uma campanha na Câmara dos Lordes para permitir que aqueles refugiados tivessem acesso a condições mínimas de sobrevivência. Com esse exemplo, Lord Alf é respeitado não apenas como parlamentar, mas como um judeu que honra a Torá no meio em que se encontra.

Devemos proteger a integridade física e espiritual de nossas famílias. Isso é uma Mitzvá. Da mesma forma, devemos lutar contra toda forma de preconceito. Isso também é uma Mitzvá. Precisamos da sabedoria milenar dos nossos sábios associados aos conhecimentos de nossa época para cumprimos cada vez melhor nossa missão judaica, e como nos ensina o texto, não diminuirmos o valor de quem é diferente.
Shabat shalom!

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